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Viver pelas metades

Acreditamos que somos donos de nossas vidas, mas… a vida é uma força poderosa e vem sendo controlada/explorada ao longo dos tempos. Ultimamente, com o desenvolvimento das sociedades e com a luta por direitos, as formas de dominação/apropriação da vida se transmutam sorrateiramente e se fortalecem e atuam ainda mais sobre todos. E esse poder se exerce – dentre outros modos – pela naturalização de uma vida pelas metades que nos é proposta como se inteira. (Essa é a maior e mais poderosa fake news).

As forças de cada um são usadas para a manutenção do “establishment” que determina o rumo do mundo. Por consequência a vida deixa de ser plena, forte e bela (vivemos para trabalhar, morremos de trabalhar. Vivemos medicados, adoecidos vamos vivendo. Vivemos no mundo virtual, e a vida real desmorona. Vivemos de informação, perdemos conexão com a vida). O que nos sobra é uma vida debilitada.

Mas a vida que nos é tomada faz o mundo o que é: poderoso, rico, abundante de riquezas (para poucos). Imaginemos se a vida fosse colocada com suas forças a serviço de todos. Ela revolucionaria as coisas, alteraria as relações, faria surgir outro mundo. Sim, ela faria surgir outro mundo. Esse que desejamos, mas tememos. Esse que queremos, mas negamos. Esse que aparece em nossos sonhos, mas que na realidade sufocamos. Esse que suplicamos em nossas preces (venha a nós o vosso reino) e expulsamos de nossas mãos. E vivemos essa divisão entre o querer e o não querer, porque aceitamos viver pelas metades, e até “acreditamos” que viver pelas metades é a coisa mais maravilhosa do mundo.

Esse poder usurpado da vida de todos e que atua sobre todos determina nossas ações, pensamentos, estilos, convicções. E nos oferece a sensação de liberdade e nos vende a ideia de que por ela podemos alcançar o que queremos, os bens, o sucesso, a felicidade. Mas… não é bem assim. Na verdade somos livres só para isso e aquilo, nada além disso. Podemos ir até ali, não atravessar o rio ou o mar. Podemos morar aqui, não lá do outro lado do muro. Assim, seguimos fragilizados, alquebrados, fantasiados, levando garbosamente uma vida pelas metades como se fosse inteira.

Uma vida debilitada precisará inexoravelmente de compensações (tudo o que tentamos colocar no lugar da vida que não temos). É um mecanismo que se estabelece em todos (mas é possível fazer frente às compensações). E por que precisamos de compensações (coisas, bens, sentimentos, poder, etc.)? Bem, é lógico, já que vivemos pela metade – e a vida precisa ser experimentada como plenitude – ansiaremos por fazer essa experiência de um jeito ou de outro. Até ódios e ressentimentos são compensações. A pessoa se sente plena, mesmo que de afetos ruins. Todavia, como o que nos oferecem são apenas compensações, as frustrações virão com certeza. E frustrações demandam novas compensações.

De certo não somos desprovidos de responsabilidades (qual resposta eu dou?) mesmo e apesar de saber que as forças que nos envolvem são amplas e poderosas e se querem impor o tempo todo às nossas. Se há responsabilidades, há possibilidades. Podemos nos colocar em movimento para atualizar as forças e as belezas que estão em nós.

Precisaremos nos questionar sobre os pensamentos que queremos pensar, a vida que queremos viver. E especialmente – por tentativas e mais tentativas, sem desanimar – podemos dispensar as compensações e romper com os modos de existir que se dão com base nelas.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

 

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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