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Vida e morte divididas são vidas multiplicadas

A alegria de quem recebe um órgão e volta a ter uma vida saudável sempre tem do outro lado uma família que sofre pela ausência do doador, quando é um doador cadáver, ou os sofrimentos e sacrifícios exigidos a um doador vivo. O ator Duda Ribeiro expressou bem esse sentimento quando em 2012, depois de 3 anos de espera, recebeu o fígado de um doador: “Eu sei a história do rapaz que me doou o fígado. Ele tinha 17 anos. Quero conhecer a família, mas vou dar um tempo, pois entendo que essa alegria que eu sinto por estar vivo é correspondente à dor de uma família que perdeu alguém”.

Pensar em doação de órgãos é colocar diante de nossos olhos as filas intermináveis de pessoas que esperam uma chance para viver melhor ou, simplesmente, viver. Dados de março deste ano mostram a realidade dessas pessoas em números:

Pacientes na lista de espera de transplantes
Rim 18818
Figado 1410
Córnea 10048
Pâncreas 16
Coração 262
Total 31204
Dados de março de 2015 de acordo com o RBT (Registro Brasileiro de Transplante

Visualizar em nossas mentes essas filas gigantes e associá-las ao sofrimento pode sensibilizar para a campanha de doação que o Espírito Santo está fazendo: Comigo a fila anda. Se você quiser saber mais sobre ela acesse o site: (www.comigoafilaanda.com.br). Mas neste espaço que a Revista Vitória reservou para tratar deste assunto, queremos apresentar, principalmente, o que aprendemos ao ouvir doadores e seus familiares, receptores e pessoas que aguardam um órgão compatível.

Quando você sai de apelos de campanhas, motivações para ser doador, dados que apontam sofrimentos e explicações sobre os procedimentos para doação de órgãos, e vai ouvir histórias, perscrutar sentimentos, entender novos sentidos de vida e da vida, você estará pronto para olhar diferente as campanhas, os dados estatísticos e, quem sabe, tornar-se um doador.

Alegria, bondade, carinho, enternecimento é o que transmitem os doadores diretos e indiretos. Mas o consenso é de que a doação de um órgão deixa em todos aqueles que com ela se envolvem a sensação de uma extensão da vida do doador e a experiência de que o doador continua vivo naquele corpo que sem ele estava morrendo. A família do doador sente-se amparada pela oração dos receptores e estes são gratos à família porque sabem da importância da mesma na hora da doação. Criam-se novos laços e uma gratidão sem fim, dizem os receptores.

Medo do tráfico de órgãos, questões religiosas, demora para fazer o procedimento, falta de conhecimento sobre morte cerebral, entre outros motivos, ainda impedem parentes de autorizarem a doação, porém quando a família supera a sua própria dor e se abre para o sofrimento de pessoas que podem continuar a viver com a doação, fica muito forte a sensação de que a vida da pessoa que morreu continua a viver em alguém.
“Quando estamos na máquina de hemodiálise achamos que é o fim, que a história termina ali. Quando soube que havia um doador não acreditei que a minha luta na máquina de hemodiálise ia acabar. Eu lamentei o acidente que vitimou o jovem, mas foi uma bênção para mim ter encontrado uma família que soube fazer o que era certo, e com isso, salvou a minha vida. Eles tomaram uma decisão muito difícil e louvável. Até hoje eu peço a proteção de Deus para eles, porque a vida de quem precisa de um transplante está nas mãos dos doadores”, expõe Wilton da Silva em site de depoimentos.

Por outro lado também encontramos o Fausto, que aguarda um fígado compatível e diz continuar sua vida sereno porque “costumo aceitar a vida do jeito que ela é. Se tiver que fazer cirurgia eu faço, se tiver que esperar eu espero”. Fausto já foi chamado duas vezes para fazer a cirurgia, mas as duas não deram certo porque os órgãos compatíveis não estavam em condições boas. Quando descobriu que tinha nódulos no fígado teve que fazer quimioembolização hepática (procedimento através de cateter para interromper a evolução do câncer), o resultado foi muito bom e ele continua na lista de espera. Transmite muita tranquilidade e diz que suas duas filhas se ofereceram para doar. Nesse momento ele se emocionou, mas disse com firmeza que não aceita. Não quer que elas corram qualquer risco “imagine, eu não posso aceitar, elas têm a família delas e precisam cuidar dos filhos. Não vou deixar elas se internarem e fazerem cirurgia correndo os mesmos riscos que eu. Deus põe e tira a vida, então eu estou tranquilo, não estou ansioso”.

Conversamos também com Vânia e Augustinho, nora e esposo de Lourdes do Carmo que doou todos os órgãos após a constatação de morte cerebral. Os parentes foram abordados logo após a constatação da morte pela equipe do hospital. “Eles conversaram com calma e respeitaram o nosso tempo para decidir”, diz Vânia que não nega ser um momento difícil. Mesmo a doação sendo um desejo de Lourdes, na hora a família nem lembra disso. Quando perguntaram, pai, filho e nora conversaram e decidiram doar. “Conversei com meu sogro e com meu marido e concordamos em doar todos os órgãos. Depois quando o procedimento começou a demorar eu liguei e perguntei se não poderia fazer mais rápido e eles responderam que não. Então perguntaram se a gente queria desistir da doação, mas como desistir se já tinham outras pessoas esperando e sabendo que os órgãos dela poderiam permitir que outras vidas continuassem? Naquela hora é uma mistura de sentimentos, mas como deixar a terra levar se as pessoas estavam ali à espera? Então a gente decidiu esperar”, continua Vânia que acompanhou o marido e o sogro em todos os momentos. Augustinho diz que o sofrimento naquele momento da morte é grande, mas ele e a esposa falavam sobre isso e queriam doar. “Tenho um vizinho que recebeu um coração e está muito bem, então a gente vendo as propagandas sempre quis ajudar. Para mim ela está vivendo em alguém e eu gostaria muito de saber quem é. É ruim não saber quem recebeu. Eu gostaria de conhecer”, diz. Vânia reafirma esse sentimento: “a gente gostaria muito de saber quem recebeu e se está bem. No hospital eles dizem que quem doa pode atrapalhar quem recebe, mas a gente só queria saber, não ia atrapalhar e eu ainda tenho essa esperança. A gente sabe que alguma coisa dela continua vivendo em outras pessoas”. Lourdes faleceu em 24 de agosto de 2015, dia 25 retiraram os órgãos e o enterro foi no dia 26. Augustinho e Vânia também são doadores, mas alertam para duas situações: saber em quem a vida do doador continua e que o hospital prepare as famílias para o procedimento demorado.

Muitas reações envolvem os doadores, os receptores e os familiares. Dizem que quando entre doadores e receptores existe um laço familiar, as emoções são mais amenas, já a doação entre desconhecidos precisa ser mais trabalhada.

Carlos não conheceu a família que doou o coração que hoje bate no seu peito, mas imagina que foi uma decisão difícil e diz ser eternamente grato por esse gesto. “Meu coração bate por essa família. Sou muito grato, sei que era um momento de muita dor e eles tiveram a generosidade de doar”, disse.

Já Içara de Cariacica, doadora de rim para o irmão, narra com emoção como o sofrimento e a alegria, a apreensão e a esperança se misturaram durante todo o tempo. Para livrar o irmão da hemodiálise ela se submeteu durante um ano a vários exames “alguns doloridos outros mais tranquilos”, disse. A cirurgia foi marcada para 14 de dezembro, mas aconteceu somente 10 de fevereiro, quando Içara recebeu um telefonema do irmão dizendo que a cirurgia estava marcada. Na véspera, medo e vontade de chorar, depois da cirurgia, mais medo pela insegurança da nova situação e pelo receio da rejeição do órgão. Superado esse momento e o irmão liberado 3 meses depois da hemodiálise, Içara é só alegria pela nova vida para a qual ela contribuiu com um ‘pedaço’ de si.

Sejam quais forem as dificuldades e os sofrimentos, os doadores e familiares de doadores-cadáver experimentam um sentimento de vida nova ou continuidade de vida e esse sentimento é mais forte que o sofrimento, a dor e a tristeza.

Os receptores voltam a ter uma qualidade de vida melhor e ficam eternamente gratos aos doadores e familiares. Os doadores ganham a gratidão, a oração, mas também o consolo por ter feito o bem e ajudado outro a viver. Os médicos também ganham, porque se por um lado assistem pessoas que morrem, essas mesmas mortes os mobilizam para favorecer outras vidas.

Comparativo do Número de Transplantes
Realizados no Espírito Santo
Órgão Jan-Ago/2014 Jan-Ago/2015 Percentual
Córneas 193 213 10,36%
Rim (falecido) 44 37 -15,90%
Rim (vivo) 22 18 -18,18%
Fígado 27 20 -25,92%
Coração 7 0 -100%
Osso 11 0 - 100%
Esclera 12 8 -33,33%
Medula Óssea Autólogo 23 29 26,08%
Total 339 325 - 4,12%

Lista de espera
Coração: 03
Fígado: 35
Córnea: 101
Rim: 841
Total: 980

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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