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UMA IMAGEM VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS?

É comum ouvirmos que uma imagem vale mais que mil palavras. Isso é certo? Sim, porém, essas palavras também podem ser enganosas. Estamos, na atualidade, diante de uma proliferação de imagens: na televisão, nos computadores, nos smartphones, etc. São as imagens técnicas; por serem produzidas com meios tecnológicos digitais, o próprio texto que escrevemos em nossos aparatos eletrônicos é uma imagem técnica. Tal proliferação de imagens já nos aporta em uma realidade totalmente diferente daquela de uma década atrás. As imagens estão em todos os nossos ambientes e nos impingem certos comportamentos, que chamaremos de comportamentos programados.

As imagens técnicas, contudo, não aparecem sozinhas em nossos aparelhos. Elas são construídas e postas para funcionar. São construídas por homens, funcionários das mais diversas áreas do conhecimento, que as fazem funcionar. São manipuladas por um contingente inumerável de pessoas que, diariamente, mandam suas mensagens, se comunicam, jogam, respondem mensagens recebidas, modificam mensagens recebidas, modificam imagens recebidas, modificam textos recebidos e produzem cada vez mais imagens técnicas.

Essas pessoas são também funcionários, pois fazem as imagens funcionarem de acordo com as intenções daqueles que construíram tais imagens. Enfim, atualmente, somos todos funcionários das imagens técnicas.

Em outras palavras, podemos dizer que imagens técnicas são imagens programadas por meio de aparelhos, fruto de textos científicos que se irradiam pelos aparatos tecnológicos: fotos vídeos, textos, emoticons, gifs, memes etc. e traz como principal característica a junção aparelho-funcionário. Percebemos claramente que estamos diante de um mundo imagético novo, por isso ainda não decifrado, ainda não traduzido. Jogamos um jogo primordial, uma vez que somos nós, seres humanos, que fazemos todas essas imagens funcionarem. Esse eixo humano é que pode nos aprisionar como funcionários de tais imagens como também pode nos libertar ao podermos criticá-las.

Digamos que um influenciador digital, por meio de seus vídeos, lance os desejos de consumo irrestrito através de uma propaganda eficaz, que outros influenciadores irradiem comportamentos de construção de autoimagem obsessivos, que alguns jogos incitem a violência e o comportamento passivo diante da realidade, que as pessoas se ofendam e se oprimam por mensagens em redes sociais, que a violência contra si seja estimulada por comportamentos programados em etapas de jogos. Digamos que tudo isso se apresente por meio das imagens técnicas; elas passam a ser feias, falsas e ruins.

A tecnologia em si não é boa nem má, o uso que fazemos dela é que a caracteriza de um modo ou de outro. Lembremos que é o homem quem faz funcionar as imagens, é ele quem escolhe seu uso. Nossas ideias e nossos desejos são presentificados em imagens. Nossas ideologias e nossas utopias podem se irradiar por meio de imagens técnicas com grande rapidez e facilidade. Uma pergunta se impõe: estamos fazendo funcionar as imagens técnicas de modo a favorecer o ser humano ou o programa?

A propaganda, o consumo, a ação humana que afeta a si e ao outro, a ideologia, a utopia, o comportamento humano podem se irradiar de modo positivo ou negativo. O que se esconde por trás do dito “uma imagem vale mais do que mil palavras” é que uma imagem pode propagar uma infinidade de discursos, uma infinidade de ideias, uma infinidade de desejos, uma infinidade de comportamentos e uma infinidade de ações, que podem ser verdadeiras ou enganosas. Talvez nos faltem critérios para ponderar sobre o valor de tais imagens.

A experiência pessoal, que se compartilha com o outro em um diálogo autêntico, pode ser expressa por meio das imagens técnicas, se elegermos critérios adequados: se criticarmos o comportamento programado, danoso ao homem; se compartilharmos a ação humana de forma criativa e responsável; se conseguirmos atualizar nossa tradição com a sabedoria de não romper com aqueles que são seus guardiões e tampouco desprezá-los.

As imagens podem ser belas, verdadeiras e boas se nos orientarmos, ao fazê-las funcionarem, para o ser humano. Em lugar de propagar o consumo, podemos propagar o encontro; em vez de seguir um comportamento irrefletido, podemos agir para o bem do outro e de si; em oposição de nos apoiarmos em uma ideologização que queira controlar o outro, podemos discutir as ideologias positivas que tenham o homem como bem maior; diversamente de fazer crescer desejos mesquinhos, podemos criar utopias para um mundo melhor.

Uma imagem vale mais que mil palavras? A resposta a essa pergunta implica a crítica. Crítica que possa desvelar o discurso, a ideologia, a utopia que a imagem comporta. As imagens técnicas são ferramentas e podem ser eficazes. Elas podem ser utilizadas em prol do homem para sua liberdade, ou em prol do aparelho, que escraviza o homem. Em outras palavras, essas imagens não deveriam degradar a autonomia pessoal e escravizar o homem, englobar ou assimilar o que há de humano em nós. Em minha opinião, a imagem que tenta ampliar positivamente o raio de ação pessoal deve estar voltada para o homem de modo acolhedor e fraterno.

foto extra outubro 03

Eric de Oliveira
Mestre em Literatura pela UFG e Doutor em Educação pela UnB

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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