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Um sonho não se esquece, se realiza

No dia 08 de setembro é comemorado o Dia Mundial da Alfabetização. A entrevista deste mês é com a costureira Ana Nery Toze, 70 anos, filha de um casal de agricultores de Brejetuba que teve que enfrentar muitos desafios na vida, mas nunca abandonou o sonho de um dia aprender a ler e a escrever.

Durante a infância e adolescência trabalhou na roça para ajudar no sustento dos pais e dos irmãos, e por obediência ao pai, casou-se com um homem que a maltratou muito. Para dar fim aos maus tratos precisou ir com o único filho para Cachoeiro de Itapemirim, onde foi acolhida. Lá, com ajuda de muitas pessoas, conseguiu um emprego em uma fábrica de calçados.

Sobreviveu a muitas dificuldades, mas a vontade de ser alfabetizada nunca saiu de sua cabeça. Iniciou a realização desse sonho aos 67 anos, ao ingressar no 1º ano do Ensino para Jovens e Adultos (EJA), ofertado na Escola Municipal de Ensino Fundamental Constantino José Vieira, em Marcílio de Noronha, onde cursou até o 6º ano.

Como foi entrar em uma sala de aula pela primeira vez aos 67 anos?
No dia 1º de fevereiro de 2016, liguei para meu filho e disse: filho, vou lhe contar uma coisa, você pode até achar que eu sou doida, mas eu vou estudar a noite, vou fazer o EJA. Ele falou: mãe, que coisa boa! A senhora tem como comprar os cadernos, o material? Ele ficou muito feliz. Fui até a escola para ver o que era preciso para iniciar os estudos, e no dia 15 de fevereiro de 2016, comecei no 1º ano do ensino fundamental para ser alfabetizada.

Foi um dos dias mais felizes da minha vida, um momento maravilhoso, a realização de um sonho. Eu chorava na infância pedindo ao meu pai para ir para a escola, mas ele não deixava, porque para ele filha mulher não tinha que estudar. Me lembro do primeiro dia de aula como se fosse hoje, tirei até fotos e postei o Facebook! Foi para a mídia (risos). Mas vou contar… eu fiquei tão emocionada, eu chorei tanto naquele dia que comovi os outros alunos, os professores, a pedagoga, as meninas da cozinha e todos que estavam na escola naquele dia.

E como foi ter uma professora para ensinar tudo o que você queria aprender?

Foi a primeira vez que tive contato com uma professora dentro de uma sala de aula, onde eu era a aluna. Porque eu dou aulas de costura e já ensinei muita gente a costurar, mas ter uma professora para me ensinar, foi muito emocionante. A primeira professora, no primeiro dia de aula foi a Adriana Carvalho, que leciona todas as matérias no EJA, exceto arte e educação física. A primeira aula foi de português, e ela passou o abecedário no quadro para todos copiarem. Ela é uma pessoa maravilhosa, ensinou tudo muito bem; matemática, a história do Brasil que eu queria muito conhecer, a geografia, o português, enfim, todas as matérias. Olha, eu já valorizava muito os professores e passei a valorizá-los ainda mais, porque são diferentes pessoas que estão no EJA. São idosos, adultos e até muitos adolescentes. Então a garra desses profissionais é muito grande e eles merecem muito respeito.

O que representa para você hoje saber ler e escrever?

Eu tinha o sonho de saber das coisas. Eu fazia meus trabalhos escolares com muito carinho. Eu pedia ajuda ao secretário da minha paróquia, a Paróquia Mãe da Divina Misericórdia, porque eu não tinha computador com Internet em casa. Ele tirava as cópias e eu pedia que tirasse também para a professora. Hoje, eu mesma faço minhas pesquisas sobre tudo que eu quero saber, conhecer. Meu filho passou a pagar a Internet aqui em casa para que eu tenha acesso a tudo. Aprender a ler e a escrever me possibilitou todas essas oportunidades e muitas outras.

Qual a diferença entre a Ana Nery antes da alfabetização e da Ana Nery depois de saber ler e escrever?

Muita, muita, muita, muita… Melhorou em vários sentidos, desde saber pronunciar corretamente as palavras até me sentir mais valorizada como pessoa. Aprendi a ter autoestima, a me valorizar, porque eu sentia que as pessoas me tratavam com preconceito. Eu sempre fui capaz de fazer tudo o que eu queria. Trabalhei em grandes empresas como costureira, trabalhava na igreja, tive restaurante, dei aulas de costura, e continuo dando. Eu sempre tive muita inteligência. Então não havia limites para mim, mesmo não sabendo ler e escrever. Eu me virava, mas muitas pessoas não acreditavam. Eu fazia tantas coisas, eu dei meu jeito para tudo e até os professores não acreditavam que eu não sabia ler e escrever. Mas eu tinha minhas testemunhas. Em Brejetuba, todos sabem que eu nunca havia ido à escola. Eu apenas dei muito valor e mesmo aos 67 anos, depois de passar por muitas dificuldades, eu soube valorizar o fato de poder ir a uma escola aprender a ler e escrever. Meus trabalhos, meus cadernos eram completos. Até meu caderno de arte era impecável. Eu guardo todos os cadernos, todos os trabalhos que fiz com muito carinho e cuidado.

Depois da alfabetização você fez algum outro curso, se interessou em aprender algo diferente?

Sim. O primeiro curso que fiz logo após a alfabetização foram cursos na área da culinária. Como eram gratuitos eu fiz todos que ofereceram. Comecei pelas saladas e aprendi muitas receitas diferentes. Com a alfabetização percebi que eu tinha muito mais capacidade de aprender tudo o que eu queria. Eu podia anotar receitas, seguir as medidas corretamente, e aí eu fui fazendo outros cursos: massas, pães, bolos, biscoitos. Hoje eu também trabalho com a culinária. Faço desde a entrada até a sobremesa se a pessoa quiser me contratar para servir um banquete completo. Tenho oito certificados de alimentação. Até curso sobre a conservação e preparo correto dos alimentos para melhor aproveitamento, eu fiz. É muito bom aprender.

Você gosta de ler? O que tem costume de ler?

Eu leio sim. Eu tomei gosto pela leitura. Eu gosto muito de ler a bíblia. Faço minha reflexão e se preciso for, faço uma reflexão para as pessoas também, pois gosto muito de falar em público.
Quando eu viajo, levo sempre um livro comigo. Eles são uma companhia constante. Gosto de ler tudo que me ensina algo. E como temos coisas a aprender!

O que representa para você hoje poder ler um livro?

Acho maravilhoso. Aprender é maravilhoso. Eu digo para todos que se encontram na mesma situação em que eu me encontrava há alguns anos que nunca é tarde para aprender. E ninguém deve ter vergonha por não saber algo.
Depois que eu aprendi a ler e escrever, convenci quatro amigas a iniciarem os estudos também. Hoje elas continuam estudando e eu sempre falo que se colocarem uma turma do EJA pela manhã, eu voltarei para completar os estudos. Não importa a idade que eu tiver.

Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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