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Trabalho que fortalece a fé

“A pessoa quer uma obra e busca a Deus através dela a gente tem que respeitar, porque ele tem todas as expectativas naquela imagem”, é o sentimento do escultor Dinho Diniz entrevistado desta edição que fala de sua vida e profissão.

vitória – Quando se descobriu artista?

Dinho – Sou de família de escultores. Eu já tinha 22 anos quando fiz a primeira escultura. Eu desenhava bastante antes, mas esculpir nunca tinha esculpido. Vi uma imagem de São Domingos do Sec. XVIII no quintal da casa de um primo, muito danificada por cupins, jogada no quintal e eu senti o desejo de fazer uma escultura que fosse pelos menos parecida com ela. Pedi madeira para meu primo, peguei todas as medidas despretensiosamente e ao final de três semanas o que se viu foi uma réplica exata. Fiquei três noites sem dormir só olhando para ela dentro do quarto.

 

vitória – O que você fazia antes?

Dinho – Era vocalista de banda de forró. Eu vinha para o Espírito Santo surfar e quando me descobri artista comecei a rodar o Brasil todo para esculpir e levar um pouco de religiosidade para as pessoas que buscam isso nas imagens.

 

vitória – Trabalha só com imagens sacras?

Dinho – Não. Mas, geralmente as pessoas que me procuram, buscam obras que não encontram nas lojas, então sou especializado em réplicas, além da restauração do patrimônio histórico móvel e alguns imóveis. Procuram-me muito para fazer a réplica do padroeiro que normalmente é antigo e não tem como sair em procissão.

 

vitória – Como você coloca a marca do Dinho numa réplica?

Dinho – É complicado, Aleijadinho fazia o polegar maior do que a proporção humana e eu sempre deixo um olho levemente mais baixo que o outro. A olho nu parece que está alinhado, mas a minha mulher que é bem crítica sempre bota um defeito dizendo que o olho está torto, mas eu mantenho essa linha e além da assinatura que vai embaixo das obras.

 

vitória – Reconheceria uma obra sua só pelo olho?

Dinho – Sim, sem dúvida. Eu estudo muito a vida de cada santo que vou fazer a imagem antes de executar a obra e muita gente me pede réplica, mas não pode ser uma cópia exata, salvaguarda a réplica que fiz de Nossa Senhora da Penha para o Convento porque é para um centro histórico, o cartão de visita do estado.Mas, normalmente eu deixo alguma coisa para perceber que não é uma cópia, porque muita gente falsifica e não é essa a minha intenção.

 

vitória – A marca é uma coisa proposital?

Dinho – Exatamente. Para que se saiba que não se tem a intenção de substituir a obra e sim de aumentar o acervo na paróquia que está pedindo para a procissão.

 

vitória – Quando pedem um trabalho, seja réplica ou original você tem vontade de mudar alguma coisa naquela imagem que já existe?

Dinho – Às vezes eu tenho. Quando a pessoa diz: eu quero uma imagem de tal santo baseado na história dele, mas o modelo fica a seu critério, ela me dá a liberdade para eu fazer o meu modelo, foi o caso de uma encomenda da Mãe Rainha que eu recebi para Araxá em Minas Gerais. Sabe-se que só existe a imagem dela no busto com uma plaquinha e uma cruz em cima que peregrina pelas cidades. Eu fiz uma escultura de um metro e 20 de corpo inteiro e eu acredito que esta seja a primeira pelo menos em madeira.

 

vitória – E se não for um pedido da pessoa que lhe autoriza a criatividade, você já teve vontade de mudar a escultura de um santo ou a sensação de que não seria assim?

Dinho – Já, mas aí a minha esposa me deu um puxão de orelhas e eu tive que fazer como o original.

 

vitória – Como você lida com o tempo? Se eu pedisse uma imagem de Nossa Senhora da Penha para daqui a uma semana você faria?

Dinho – Eu não faria. Eu tenho aqui obras de seis igrejas, algumas de fora do Estado. Então elas são muito bem programadas para a entrega. Se eu não respeitar religiosamente isso, e há que ser dito que a gente está trabalhando com fé, com paixão, então se a pessoa quer uma obra e busca a Deus através dela, a gente tem que respeitar, porque ele tem todas as expectativas naquela imagem.Se eu falar que dá só para fechar o contrato vou queimar toda uma reputação que levei 25 anos para construir.

 

vitória – Como você concilia o tempo, a inspiração para fazer e o prazo do cliente?

Dinho – Normalmente eu peço prazos de três a seis meses pelo menos. Porque, por exemplo no processo de policromia, que é a parte de pintura, não depende só do talento, precisa de temperatura local, se está frio ou se está sol os elementos vão reagir de forma diferente. Quando se trabalha com restauração de patrimônio histórico a liga para os pigmentos é a gordura animal, que é a cola do coelho, derretida em banho-maria, então se ela passar do ponto, se ferver na panela ela não gruda, se ela esfriar demais vira uma gelatina e tudo isso tem que coincidir com a temperatura local que deve ser entre 25 e 30 graus o máximo. Se baixar ou subir disso vai dar errado, então tem que pedir um prazo maior exatamente por isso, para respeitar as condições de cada obra e ficar dentro do prazo de entrega.

 

vitória – São apenas questões técnicas que fazem você parar uma obra para mexer em outra?

Dinho – O estado de espírito conta acima de tudo. Tem dias que eu olho para uma obra ou para a madeira bruta e não consigo enxergar, então se está nesse ponto é melhor não por a mão. Se eu olho e identifico imediatamente o que posso mudar ou o que pode ser acelerado eu pego e o processo anda bem rápido.Se eu cometer um erro tem que passar para outra, porque a cabeça limpa, o seu estado de espírito em relação ao erro muda e quando você voltar para ela enxerga onde foi que cometeu o erro para que não aconteça de novo. Tem obra que você quer pegar e terminar rápido, que você não pode e tem outras que você olha, começa a fazer e não consegue parar porque a inspiração está boa ou o dia está propício.

 

vitória – Olhando aqui parece-me que seu volume de trabalho é mais com santos. Isso afeta a sua vida de fé, a sua religião?

Dinho – Não. Sou católico participante. Eu continuo rezando, orando e conectado com o Espírito para poder executar da melhor forma os trabalhos que a gente com tanto amor pega para executar.

 

vitória – As suas devoções mudaram ao longo do tempo?

Dinho – Nunca.

 

vitória – Quem é o seu santo de devoção?

Dinho – São Francisco e o de minha esposa, Santo Antônio. Engraçado que a gente tem uma conexão direta e quando a gente pede alguma coisa, a resposta vem imediata. Nem sempre é a que a gente queria, mas vem sempre melhor.

 

vitória – Alguma história o marcou mais fazendo imagens de santos?

Dinho – A minha primeira obra sempre vai me marcar porque ela ficou exatamente igual à peça do Sec. XVIII. Meu pai, que também é escultor, Mestre Bibi, comprou a imagem e falou que não ia vender nunca, mas quando chegou o primeiro cliente e a escolheu, ele vendeu.

 

vitória – Você vai repetir essa obra?

Dinho – Se eu encontrar o modelo original, com certeza vou fazer, mas para a minha casa. Vou fazer um oratório para São Domingos.

 

vitória – Além de seu pai tem mais alguém escultor na família?

Dinho – Meu irmão mais velho está começando agora, mas numa linha mais popular.Eu gosto muito do Barroco e do Renascentismo porque são mais complicadas e eu acredito que se você busca fazer obras mais detalhadas isso te enriquece artisticamente. E elas realmente me encantam. O Alto Barroco Europeu para mim é uma paixão extraordinária. Eu fiz há algum tempo um cursinho de Italiano para ir a Roma ver de perto o que eu tenho em livros.

 

vitória – Como fica essa relação familiar entre escultores com estilos diferentes?

Dinho – É uma relação muito boa, nós trabalhamos juntos na maior escultura sacra do mundo: o São Francisco das Chagas em Canindé que foi matéria no Fantástico. Uma obra de criação minha, meu pai executou e eu fiz a supervisão. Lá já tinha uma romaria muito grande por conta da Basílica e agora por conta da estátua. A imagem é dois metros maior que o Cristo Redentor.

 

vitória – Quando você termina uma obra de uma imagem você enxerga aquele personagem ou a sua obra?

Dinho – Quando o padre Dauri me pediu esta imagem de São Pedro, a original dela fica no Vaticano, ele me pediu pensando na força que tinha Pedro, então eu tenho que passar essa mesma energia que está no olhar do original, ainda vou girar a cabeça um pouco para a direita e quando entrar o braço estendido e a chave vai dar aquele ar de força e vai passar para o fiel que Pedro é a rocha, para que a pessoa que entra na igreja, que está querendo o consolo divino, ao olhar para a face se sinta acolhido, isso é o que vou tentar passar quando ele estiver pronto.

 

vitória – É isso que você vê?

Dinho – É isso que eu vejo.

 

vitória – Mesmo sem estar pronto, você já vê?

Dinho – Como dizia Michelângelo: A obra já está ali dentro a gente só tira o excesso.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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