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...tome a sua cruz e me siga! - Parte II

Caminhos O segundo passo do caminho de fé é: Tomar a cruz. Diante da proposta de nossa sociedade atual do bem estar e da busca incessante pelo prazer e satisfação, parece impossível reconhecer o valor da cruz. As dores de nossa sociedade são enormes, desde a violência que assola nosso mundo e destrói nossas famílias, passando pelo flagelo das drogas que rouba a vida de nossos jovens. Como não falar da despreocupação total com os menores e com aqueles que estão em nossas cadeias, marcadas pelo degrado, espalhadas por todo o país? Como fechar os olhos para o grande número de excluídos no país inteiro, marcados pela negação de acesso aos bens necessários para uma boa qualidade de vida? Como não falar da multidão que bate às portas dos países em busca de um lugar para viverem longe das guerras e perseguições religiosas que ainda assolam o mundo inteiro? O que significa tomar a própria cruz em um contexto tão complexo e desafiador? Como tomar essa decisão tão importante para o caminho da fé?

A cruz para o cristão não é um símbolo de dor e sofrimento, apesar de nela contemplarmos o sofrimento e a dor Daquele que por nós se entregou e morreu. Na cruz estão presentes, para a fé cristã, todas as dores do mundo, todos os lamentos e angústias dos filhos e filhas de Deus de todas as raças, línguas e nações. Pois Cristo, ao assumir a nossa humanidade se tornou o servo de todos e se entregou por nossa salvação no madeiro da cruz, como afirma São Paulo aos Filipenses (Fl 2,7-8). Deste modo, a cruz ganha um sentido salvífico e redentor, isto é, passa de um instrumento de morte e dor, para um caminho de adesão ao Senhor que nela se entregou por toda a humanidade, a fim de que tivesse vida e vida em abundância. Ao convidar os seus discípulos e a nós hoje a abraçar a própria cruz, o Senhor não nos fala somente dos nossos sofrimentos individuais e das questões pessoais, também, mas sobretudo, convida a abraçar o outro, a ser solidário, a comprometer-se com a vida e a ser compassivo como Cristo o foi. No terceiro ponto o Senhor convida os seus discípulos e a nós a segui-Lo. Como diz o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a sociedade atual, marcada pela dissolução das seguranças e dos valores perenes, cria indivíduos inseguros e, muitas vezes, incapazes de aderir a projetos duradouros. As instituições e grandes propostas são questionadas e, por vezes, abandonadas por esses indivíduos mergulhados no caos de nossas cidades e atingidos por tantas vozes que os circundam. A comunidade humana vive um momento crucial, no qual necessita de caminhos e saídas criativas, construídos de forma comum e participativa, para os novos desafios desse tempo. De maneira especial, em nosso país, percebe-se a grande dificuldade de mobilização das pessoas em prol de algo comum, desde os projetos sociais até causas que tocam os que mais necessitam. Como então apresentar o seguimento que Jesus propõe? Em que consiste segui-Lo hoje nessa sociedade marcada por essa dissolução e fragmentação?

Aos seus discípulos e discípulas o convite do Senhor foi direto e claro: Segue-me!!!! Todavia, tal convite foi precedido pela pregação da Palavra, pelo anúncio e pela presença dos sinais do Reino encontrados em Jesus. O seu convite foi aceito pois continha uma verdade vivida por Ele mesmo, algo que foi capaz de convencer homens e mulheres a abandonarem tudo para se tornarem seus discípulos e discípulas. Hoje, em meio às muitas vozes presentes na sociedade, o anúncio da Igreja deve recuperar a mesma autenticidade e veracidade, não nas palavras proferidas, mas, sobretudo, nas ações que as acompanham e confirmam. De fato, os discípulos e as discípulas desse tempo, do hoje de nossa história surgirão e serão formados no caminho do testemunho autêntico e da solidariedade comprometida. Pois, somente formados no caminho do discipulado missionário é que nossos católicos, de fato, serão capazes de renunciarem a si mesmos, tomarem a cruz e seguirem o Senhor.

Pe. Andherson Franklin
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e doutor em Sagrada Escritura 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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