buscar
por

TODAS AS CONVERSAS SERÃO VIGIADAS

img 13 (1)Recentemente os escândalos envolvendo o Facebook e a empresa de consultoria britânica Cambridge Analytica assustaram milhões de usuários de redes sociais ao redor do mundo por medo destes terem seus dados utilizados para fins políticos e comerciais.

Por meio de um aplicativo, a Cambridge Analytica teve acesso às informações de mais de 87 milhões de perfis do Facebook. A grande maioria se encontra nos Estados Unidos da América, cerca de 70,6 milhões e logo em seguida aparecem países como Filipinas, Reino Unidos e até mesmo o Brasil.

Com isso, muitas pessoas começaram a se questionar sobre as informações que fornecemos na internet e até onde vai a nossa privacidade. Acontece que no marketing digital, um dos princípios é o seguinte: “Se você não paga por um produto, você é o produto”. Ou seja, você não paga pela maioria dos serviços do Google (Gmail, Buscador, Maps etc…) mas a empresa armazenamos seus dados e utiliza como segmentação de mercado e como forma de direcionar os anúncios que aparecem na internet.

Hoje em dia praticamente tudo o que fazemos na internet é monitorado. O Google “lê” todos os seus e-mails, guarda todas as suas pesquisas e conhece o caminho que você faz de casa para o trabalho. Quando você comenta sobre um determinado item no Instagram, Facebook ou Whatsapp, logo em seguida diversos anúncios sobre aquele produto aparecem na tela do seu computador/smartphone.

Além disso, é praticamente impossível não ter um perfil numa rede social. Temos redes sociais para quase tudo: profissão (LinkedIn), imagens (Flickr e Instagram), relacionamento (Tinder), amizade e interações (Facebook) e assim por diante.

O escândalo recente envolvendo o Facebook e a empresa de consultoria Cambridge Analytica deixou todo usuário de redes sociais assustado com a possibilidade de ter os seus dados invadidos ou, pior ainda, que esses foram explorados para a criação e entrega de alguma campanha publicitária. O que muita gente não sabe é que isso já acontece com diferentes serviços utilizados na internet, até mesmo para aqueles que não possuem um perfil nas redes sociais.

Sabe aquele famoso ‘Termos e Condições de Uso’, que somos obrigados a aceitar toda as vezes que nos inscrevemos ou utilizamos algum serviço digital? O que muita gente não sabe é que, para além dele estabelecer as regras e condições de usos do serviço, muitos desses contratos possibilitam que as empresas utilizem os seus dados de forma indiscriminada.

O documentário Terms and Conditions May Apply (2013) já fazia esse alerta. A obra analisa as políticas de privacidade do Google e do Facebook desde o início do século passado, comparando como foi se aprimorando a maneira como essas empresas coletam nossas informações e utilizam em benefício próprio ou de terceiros.

Imagine que você chegue numa cidade e alugue um carro. No contrato de prestação de serviços, que você assina sem ler completamente, está estipulado que você vai fornecer informações sobre tudo o que tiver feito naquele período: as pessoas que entraram no carro, os lugares que você visitou, onde abasteceu o veículo, o que você comeu durante esse tempo, as conversas realizadas dentro do carro e assim por diante.

Assustador, não? É exatamente isso que acontece com todos os serviços digitais. O Gmail lê todas as suas mensagens, o Facebook monitora todas as suas atividades, o Google registra todas as suas pesquisas, sites visitados e até mesmo os lugares que você visita por meio do GPS do seu smartphone.

Mas como chegamos a esse cenário?

Em 1999 era lançado o Cluetrain Manifesto (Trêm das Evidências – em português), que continha 95 teses para todas as empresas que operavam dentro de um mercado recém conectado. A proposta do manifesto era a de superar o pensamento ultrapassado do século 20 sobre os negócios e as ideias ali presentes que procuravam examinar o impacto das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC) nos ambientes corporativos e na comunicação organizacional.

Sim, mas qual a conexão desses dois eventos? Explico melhor. Um dos pontos principais expostos no Cluetrain Manifesto diz respeito aos mercados enquanto conversas. Quando você vai a uma feira o que mais se ouve são pessoas gritando, conversando ou pechinchando algum produto e para os autores dessa obra, os mercados sempre foram locais onde as pessoas se reuniam e conversavam entre si.

Os aplicativos recentes demonstram bastante essa lógica. Os motoristas do UBER são avaliados de acordo com as corridas que os usuários tiveram, você não fala com outra pessoa, mas manda uma mensagem para o aplicativo demonstrando sua satisfação ou insatisfação com o serviço. Quando você vai alugar um apartamento pelo AIRBNB você busca os comentários das pessoas que utilizaram o serviço antes de você, assim, teoricamente, fica mais fácil de se tomar uma decisão sobre onde ficar.

Uma poderosa conversação global começou. Através da Internet, pessoas estão descobrindo e inventando novas maneiras de compartilhar rapidamente conhecimento relevante. Como um resultado direto, mercados estão ficando mais espertos — e mais espertos que a maioria das empresas. The Cluetrain Manifesto

Dessa forma, lembre-se que quando falamos da internet, devemos partir de um princípio que se trata de um ambiente digital no qual deixamos várias pegadas, vários registros das nossas passagens. O que são essas pegadas? As postagens que publicamos (curtimos, comentamos ou compartilhamos), as buscas que fazemos, as compras, os sites visitados, os e-mails enviados e assim por diante.

Não se trata aqui de falar de uma teoria da conspiração que procura controlar e vigiar tudo aquilo que fazemos. A ideia é que a gente reflita sobre o poder dessas empresas e quais são os objetivos que elas buscam ao utilizar as nossas informações. No caso da Cambridge Analytica já há quase um consenso de que ela influenciou nas eleições americanas que deram a vitória ao Donald Trump e a saída da Inglaterra da zona do euro. Qual será o próximo passo a partir daqui?

Felipe Tessarolo
Publicitário e professor no Centro Universitário Faesa

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS