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Se nos tratassem assim simplificadamente ficaríamos todos muito ofendidos

Lendo sem rumo certo, ora uma crônica, ora outra, numa boa coleção de Rubem Braga, deparei-me com uma frase: “houve um tempo em que sonhei coisas”. Fiquei curioso. Não por saber que coisas eram essas, mas por ele ter construído a frase referindo-se a sonhos que ele não sonhava mais. Isso me deixou levemente tocado. E, de um modo ou de outro, me doeu.

Doer aqui é um modo de dizer que isso me forçou um pensamento sobre perdas que eu não tencionava pensar ao começar a ler aquele texto. Ou também que o “houve um tempo que eu sonhei coisas” falou qualquer coisa sobre a vida que me habita, sobre os acontecimentos que me fazem, o que sou, o que deixei de ser, o que ganhei e especialmente o que perdi. Como se tudo isso me pedisse um novo olhar sobre a vida. Um olhar daqueles que somam entendimentos. Ah se a vida fosse simples! Uma única e absoluta leitura seria suficiente.

Sem querer usar o verbo ser para me referir à vida numa definição muito categórica, mas de todo modo usando-o, podemos dizer que a vida é o que perdemos. Passo a minha pela memória a olhos rápidos: a infância que tive, os pais que morreram, as pessoas que me marcaram, os livros que li, os filmes que assisti, os lugares que conheci, as dificuldades que enfrentei, as comunidades às quais prestei meu serviço, os ideais que nutri, coisas que sonhei (como ele diz).

Depois desse tempinho pensando retomei a leitura para entender aquele “houve um tempo em que sonhei coisas”. E o seu sonho era viver uma vida simples, seguindo de barco pelo litoral – Piúma, Regência, Conceição da Barra, etc. – até, quem sabe, escrever um livro simples, que de tão simples nem precisava ser escrito, pois o que importaria mesmo seria viver aqueles momentos. “Apenas ir vivendo devagar a vida lenta”. Meus pensamentos tornaram a se intrometer na leitura: É, esses sonhos de viver uma vida simples pegam a muitos e em todos os tempos. Mas a tal vida simples que ele sonhou parece que não aconteceu.

Pois bem, esse apelo para a vida simples que o cronista experimentou e abandonou e que vira e mexe vem nos acossar com suas seduções talvez seja apenas uma grande impossibilidade. E por ser uma impossibilidade – tanto em 1953, quando escreveu a crônica, quanto em 2014 – esses desejos encontram jeitos de retornarem sempre como sonhos.

E por que é impossível viver uma vida simples? Porque a vida é indiscutivelmente complexa. Não há simplicidade possível. A simplicidade ficará sempre fora do alcance dela. Ela é complexa desde a mais simples célula até às conexões cerebrais de um pequeno mamífero. É complexa desde os mecanismos que um vírus adota para preservar sua continuidade até as novas sinapses e conexões que o cérebro humano constrói quando repetidas vezes ele se depara com um problema. É complexa desde a rotina de um monge da Cartuxa até as idas e vindas de um motorista de ônibus e seu sempre mesmo percurso.

Vi outro dia um filme de um diretor japonês – O pão da felicidade – que mostra um casal jovem que deixa Tóquio e vai para o interior do país para montar um pequeno café num cenário de belas paisagens. A vida simples que de certa forma eles buscavam logo se mostra mais belamente interessante quanto mais as complexidades da vida – especialmente em seus fios humanos – se constituem, se torcem e se articulam ali.

E dizer que a vida é complexa não significa dizer que a vida necessariamente tem que ser complicada. Admitir que a vida é complexa também não significa que somos nós que a complicamos. Não gosto dessa afirmação que muitos dizem, “a vida é simples, nós é que a complicamos”. Ao contrário, afirmar que a vida é complexa é afirmar suas riquezas, suas muitas camadas, seus múltiplos horizontes, seus infindáveis universos e o desafio a que somos chamados estando nela e com ela.

Lembro-me de uma entrevista de um poeta inglês – Geoffrey Hill. Ele dizia que um dia comum é mais complexo e oferece muito mais dificuldades do que a mais “intelectual” obra de arte. O entendimento das realidades poderá se dar mais facilmente pela admissão de que a vida é complexa, pois, como ele dizia, se nos tratassem assim, simplificadamente, ficaríamos todos muito ofendidos. É fato, somos difíceis para nós mesmos e para os outros, somos complexos, somos um mistério, cada dia é denso de surpresas e dificuldades, a vida não é simples.

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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