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SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DA SAÚDE: O ENCONTRO DA NATUREZA COM A FÉ

Santuário Nossa Senhora da Saúde: o encontro da natureza com a fé

“Um lugar de paz e devoção”.

Assim, o bispo emérito da Diocese de Colatina, Dom Décio Sossai Zandonade, definiu o Santuário Nossa Senhora da Saúde, em Ibiraçu, onde atua como reitor. Quem chega ao local logo percebe o que Dom Décio quer dizer e nota uma atmosfera especial onde a natureza e a religiosidade popular interagem com grande força.

Foi justamente a força religiosa do povo e a tradição que trouxe de volta para o lugar de origem a Festa de Nossa Senhora da Saúde. Os missionários combonianos chegaram em Ibiraçu na década de 50 para construir o Seminário, hoje Instituto Espírito Santo de Inovação Social (IESIS). Durante o tempo que permaneceram na região, os missionários transferiram a festa, celebrada tradicionalmente no dia 21 de novembro, para o dia 15 de agosto e mudaram também o local passando a realizá-la no Seminário, onde também construíram uma capela para Nossa Senhora da Saúde.

“Quando eles foram embora, por volta de 1997, o povo voltou a realizar a festa no dia 21 de novembro, na igrejinha, no mesmo local onde a devoção havia iniciado. É interessante, pois não adianta mexer com a tradição do povo”, observou Dom Décio.

A devoção vem de longe, foi trazida para a região por imigrantes italianos em meados de 1880. Eles construíram uma capela dedicada a Nossa Senhora da Saúde, e em sinal de devoção, fixaram no interior da capela um quadro de Nossa Senhora. “Foi a primeira igrejinha, possivelmente construída com madeira e estuque, e neste local iniciaram a tradição de rezar o terço, fazer os pedidos e agradecer as graças alcançadas. As pessoas recebiam as graças e voltavam para agradecer e fazer mais pedidos. Em 1928 foi construída no lugar da capela, uma igrejinha de tijolos, que foi restaurada e continua sendo visitada pelos romeiros que vêm ao Santuário”, contou.

A romeira Maria de Fátima Lemos, foi ao Santuário com a Romaria do Apostolado da Oração no dia 15 de dezembro do ano passado, e conversou com a reportagem da Revista Vitória. Ela disse que conheceu a antiga igrejinha e a visitou muitas vezes quando era criança.

“Morava pertinho e tudo isso aqui era um sítio. Muitas famílias vinham rezar e participar das festas de Nossa Senhora da Saúde. As crianças ganhavam laranjas após as rezas. Foi um período muito bom”, contou.

No dia 22 de dezembro, Dom Geraldo Lyrio Rocha, o primeiro bispo da Diocese de Colatina, esteve no Santuário para celebrar os 20 anos do Santuário Nossa Senhora da Saúde. Foi ele que em 1988, como conta Dom Décio, teve “uma inspiração celeste e na missa que presidia teve a intuição de decretar a igrejinha, Santuário Diocesano”.

“Para mim isso foi uma coisa de Deus e de Nossa Senhora, porque não é comum escolher uma igrejinha meio abandonada e decretá-la santuário, mas aconteceu. Depois Dom Geraldo foi transferido para Vitória da Conquista, e quando eu assumi como bispo, consegui que o Papa Bento XVI decretasse Nossa Senhora da Saúde a padroeira da Diocese de Colatina. Aí a coisa se alastrou facilmente. Esse foi um momento muito importante dessa história”, afirmou.

Romarias

Os visitantes e romeiros chegam de toda parte do estado e também de algumas regiões do Brasil, principalmente do sul da Bahia, e o atendimento acontece de 7 às 20 horas. As missas são celebradas aos sábados (18 horas), aos domingos (8h30 e 18 horas), e todo dia 21 de cada mês, dia consagrado a Nossa Senhora da Saúde, as missas são celebradas às 7 e 19 horas.

Nos dias em que estão agendadas as romarias, mais de 100 voluntários trabalham no local, além da equipe de serviço. Dom Décio fala com muito carinho dos voluntários, que não medem esforços para atender os romeiros. Para ele, que celebra as missas e atende às confissões diariamente, o número de visitantes tem aumentado tanto que há necessidade de mais um padre ou um grupo de religiosas para auxiliar no acolhimento dos romeiros.

“Nós chegamos a atender mais de 2 mil pessoas em um único dia”, conta Rosimeri Rosário, responsável pela cozinha do Santuário, e pelos agendamentos das romarias. O número de visitantes também é grande na época da novena de Nossa Senhora da Saúde, em novembro, quando é celebrada a festa.

Mas o aumento de visitantes é mais um estímulo para Dom Décio, que impressiona pela dedicação ao Santuário e pelo carinho e docilidade com que trata cada romeiro que se aproxima dele. São abraços, beijos e apertos de mãos calorosos, dedicados a quem veio de longe agradecer ou fazer seu pedido especial a Nossa Senhora.

Foi um pedido especial que levou a senhora Carmelita Soares Vieira ao Santuário, mais precisamente à “sala dos milagres”, onde centenas de pessoas deixaram escritos os pedidos a Nossa Senhora da Saúde e os registros das graças alcançadas, como fotos e resultados de exames de pessoas que foram curadas.

“Peço pela saúde de minha irmã Luzia, que viveu muitos anos com pressão alta e agora está diabética. Tenho fé que Nossa Senhora da Saúde vai interceder a Deus por ela”, disse emocionada.

A senhora Carmelita é uma das centenas de romeiros que chegou ao Santuário em um dos 12 ônibus de Vitória, com grupos do Apostolado da Oração. “Durante o ano recebemos também as romarias da Educação, do Terço dos homens, da Pastoral da Sobriedade, a da Pastoral da Criança, entre outras temáticas. Eles vêm para agradecer e pedir proteção para o trabalho que realizam”, contou Dom Décio.

Dom Joaquim Wladimir Lopes Dias, bispo da Diocese de Colatina, também fala com entusiasmo sobre o Santuário. “É o maior Santuário do norte do estado! Esse título de Nossa Senhora atrai muitas pessoas que pedem pela saúde, emprego, proteção… As pessoas vêm de vários lugares e é um ponto importante de espiritualidade em nossa Diocese”, afirmou.

Todo dia 21 de cada mês, explicou Dom Wladimir, as 700 comunidades da Diocese de Colatina fazem um momento Mariano a Nossa Senhora da Saúde. A devoção, afirma o bispo, fortalece a caminhada espiritual dos fiéis, aumentando também a devoção a Nossa Senhora e o amor a Jesus.

Para quem quer passar mais tempo no Santuário, explica Dom Wladimir, há a possibilidade de hospedagem no IESIS, que comporta até 120 pessoas. Grupos acima de 30 pessoas, entretanto, podem agendar a chegada para os sábados, com saída aos domingos, participar da programação das missas e confissões no Santuário e também assistir duas palestras sobre Nossa Senhora, ministradas pelo padre Edgar Rigone, pároco da Paróquia São Marcos.

Segundo Dom Décio, a relação do Santuário com a paróquia sempre foi boa e é um desejo dele que também os romarios possam ficar hospedados no seminário. “Sonhamos muito com isso e estamos trabalhando nesse sentido”, garantiu.

Projetos

Vários projetos foram planejados por Dom Décio para o Santuário, a construção de uma hospedagem que possa atender todos os romeiros e a construção de uma casa para religiosas são alguns deles.

No entanto, a menina dos olhos de Dom Décio é o Projeto do Caminho do Rosário de Nossa Senhora da Saúde; uma estrada que está sendo construída integrada à natureza, na qual os visitantes percorrerão rezando a Oração do Terço.

“Os Mistérios Gozosos serão marcados por buganvílias amarelas, os Luminosos, por buganvílias na cor vermelha, os mistérios Dolorosos, pelas roxas e lá em cima os mistérios Gloriosos, buganvílias brancas. Esculturas em chapas de aço do artista Gerson Roccia, de Venda Nova do Imigrante, representando os mistérios, serão inseridas no trajeto. A estrada já está quase pronta, falta apenas um trecho. O projeto do rosário é realmente muito bonito e será uma atração forte aqui, junto com apelo à Senhora da Saúde”, comemorou.

Existe ainda no Santuário, um espaço dedicado às confissões. “Também temos um projeto lindo para este lugar. As salas dos confessores já estão prontas e próximo a elas terá um crucificado muito bonito e duas estátuas em pedra-sabão; uma de Cristo flagelado e outra de Cristo coroado de espinhos, inseridos em um ambiente bonito, de paz, para as pessoas se prepararem para as confissões”, vislumbrou.

Dom Décio conta que em 2004, enquanto bispo, ao chegar no local onde hoje está o Santuário, descobriu que a área não pertencia à Diocese e precisou negociar a compra do terreno.

“Fizemos uma tenda onde começaram as celebrações. Depois, quando decidimos começar a construção, a arquiteta fez um projeto bem integrado com a natureza que resultou nesse templo aberto, expansivo, que interage com a natureza. Lá estão as imagens de Nossa Senhora, abençoada pelo Papa Bento XVI e a de São José, abençoada pelo Papa Francisco. Estamos plantando árvores nativas, frutíferas e ornamentais, para que a natureza se revigore e a gente tenha condições de trazer de volta os passarinhos e os animais. Um pouco mais para baixo do terreno vamos fazer uma grande área de eventos para 2 mil pessoas, e mais abaixo ainda, um grande estacionamento que terá acesso pela estrada de Aracruz, onde a Vale está construindo um túnel. Isso é um sonho, mas o projeto está quase pronto”, contou.

Atrás do templo do Santuário foi construído um local de oração, debaixo de um pergolado. O Santíssimo, segundo Dom Décio, será levado para esta área, e no terreno logo acima, que apresenta um declive, será instalado um cenáculo com imagens em pedra sabão feitas por um artista do município de Coronel Xavier Chaves, em Minas Gerais. “Será um local dedicado à Eucaristia, um local tranquilo para que as pessoas possam ficar em oração”, afirmou.

O caminho da sabedoria

O Santuário de Nossa Senhora da Saúde, conta Dom Décio, está inserido na rota do Caminho da Sabedoria, um trajeto de 110 quilômetros, criado em parceria com os monges do Mosteiro Zen no Morro da Vagem.

Ao todo, são 23 pontos de referência histórica, 21 capelas e igrejas, além do Santuário e do Mosteiro. O cenário que proporciona uma verdadeira viagem pelo tempo, atravessando fazendas centenárias, matas, cachoeiras, igrejas antigas e estações ferroviárias, tem um trajeto que parte da Igreja Matriz de São Marcos e segue por Pedro Palácios, Pendanga, Piabas, São Pedro, Rio Lampê, Santo Antônio, finalizando no Santuário de Nossa Senhora da Saúde.

O percurso, segundo Dom Décio, é feito em uma semana, em média, e a comunidade já entrou no espírito de acolher e hospedar os peregrinos. O Caminho, além de belo, valoriza a natureza, a espiritualidade e a conscientização ambiental.

Andressa Mian
Jornalista

 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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