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Que se elevem as vozes dos bons pastores

A liturgia católica, bebendo na fonte dos textos Sagrados, mais especificamente no Evangelho de João, durante o período Pascal concluído com a Solenidade de Pentecostes, apresenta a imagem luminosa do Bom Pastor, aquele que toma para si o cuidado das ovelhas. Em contraste com essa figura, de grande força e simbolismo, aparece também a sombra do mercenário, aquele que não sendo o Pastor das ovelhas, não tem uma preocupação e nem mesmo o cuidado para com elas. O Bom Pastor, por sua vez, é capaz de dar a vida pelas ovelhas, já o mercenário, que não é pastor, diante do perigo foge deixando as ovelhas desprotegidas e vulneráveis.

Tais figuras bebem e são forjadas na experiência de fé do Povo de Deus, nelas são vislumbradas as suas mais profundas esperanças e anseios, bem como as suas maiores decepções e medos. Pelo Bom Pastor o povo de Deus é acolhido e cuidado, ouvido e atentamente conduzido ao melhor de si, à vida plena. Quando o povo cai nas mãos dos mercenários é depredado e deixado à mercê de sua própria sorte, expropriado de suas riquezas e belezas, perdendo o que tem de melhor, os seus sonhos e projetos, e, inclusive, a garantia de uma vida plena.

Em tempos onde no horizonte impresso dos jornais cotidianos, no limiar das telas planas dos televisores e nas vozes vigorosas que percorrem as longas ondas do rádio e no emaranhado das redes sociais encontramos rios de palavras como: corrupção, desvio de verbas públicas, superlotação em hospitais e cadeias, violência e morte… Nos deparamos com as imagens do Bom Pastor e dos mercenários, caminhando lado a lado, ambas procurando chamar a atenção das ovelhas, a fim de que sejam atraídas por sua voz e os sigam. Segundo o texto bíblico, a diferença entre os dois convites está no fato de que as ovelhas seriam capazes de distinguir as vozes dos estranhos, que não são pastores, e a essas elas não seguiriam.

Um ouvido apurado e uma percepção aguçada, algo tão necessário nesses tempos desafiadores, são como chaves para se abrirem portas novas, em meio a lacunas tão pequenas. Faz-se urgente despertar tal capacidade de se distinguir as vozes, de ser capaz de perceber as diferenças entre aqueles que desejam conduzir a vida e aqueles que querem somente roubar e destruir. Quando a imagem bíblica toca a vida e a ilumina ganha contornos reais e serve de parâmetro para as escolhas e decisões a serem tomadas. A vida plena é o ponto de chegada, é o lugar onde o Bom Pastor deseja conduzir seu rebanho, mas para chegar lá as ovelhas precisam saber escolher a que voz seguir. Que as vozes dos bons pastores se façam ouvir, calando as vozes dos mercenários, a fim de que não vença a desilusão que pode corroer a esperança e a apatia, tornando corriqueiro o descaso. Que o vigor da verdade conduza ao sonho de olhos abertos e a construção de pontes sobre os longos rios que tentam submergir a verdade, a justiça, o bem e a beleza.

Pe. Andherson Franklin
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e doutor em Sagrada Escritura

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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