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QUAL A FUNÇÃO POLÍTICA DE UMA MANIFESTAÇÃO?

Nas décadas de 70 e 80 foram constituídos modos singulares de organização e participação social, em que a vida cotidiana passou a ocupar lugar de destaque nas movimentações sociais. Ali foram inauguradas formas diversas de participação que desafiavam modelos de organização e atuação instituídos. Modos que desafiaram as matrizes reguladoras do que se entendia como luta política e interferência da população na gestão das políticas públicas. Neste sentido, tais embates não só intervieram nas funções e deveres do Estado, como também ampliaram e reinventaram a temática dos direitos humanos e dos direitos sociais. Os processos de resistência formulados não apenas se situavam no plano da oposição a uma realidade constituída, mas também formulavam proposições de modos diversos de viver, de participar, de decidir os rumos da vida, de organização do trabalho, das formas de produção do conhecimento, da constituição de novas redes de sociabilidade. No século XXI outras  aneiras de efetuar lutas políticas emergiram, problematizando as formas de expressão e organização já institucionalizadas.

Então, falar de participação social é falar da potência de criação que constitui o humano, que pode ser constrangida e silenciada, mas jamais estancada. Mas, para perceber a força desses processos de participação é necessária uma atenção especial para não desprezar e silenciar modos inusitados, surpreendentes, que afirmam e reinventam direitos e, nessa afirmação, possibilitam novas aprendizagens. Nos processos de participação há uma riqueza de aprendizagens e de produção de saberes que se forjam e que, muitas vezes, ficam ao largo dos espaços institucionalizados de formação. Compartilham-se experiências e reinventam-se modos de existência, produzem-se contágios e ressonâncias, formulando questões ainda não vislumbradas. Direta ou indiretamente, tais experiências de participação interferem nas políticas públicas, seja quando essa participação se dá nos espaços institucionais formalizados por dispositivos legais, seja quando se processa fora desses espaços. Os efeitos dos processos de participação não podem ser buscados e avaliados apenas no que suas ações resultam concretamente, nos êxitos imediatos que obtêm, mas também nas problematizações que tecem, nas ressonâncias que provocam, nos exercícios de autonomia que expressam, nos saberes que se compartilha e se amplia. Nesse exercício cotidiano, mais que reivindicar direitos sociais, são produzidos modos singulares de viver que interrogam práticas tuteladoras e buscam acentuar o protagonismo dos sujeitos, afirmando a vida que se quer e como se quer viver.

A função política das manifestações – sejam aquelas organizadas por movimentos sociais, sejam aquelas que emergem de modo inesperado e autônomo – é exatamente nos mostrar que a política é constituída de procedimentos ativos de invenção. Sua função reside na potência de formular problemas, e não somente de solucionar os problemas já dados, e com os quais vivemos cotidianamente. Implica portanto, pensar a vida em seus movimentos de produção de normas e não apenas de assujeitamento às normas existentes. As manifestações possibilitam problematizar as relações de poder/saber que constrangem a participação dos cidadãos nos rumos do país, das suas instituições, silenciando-a por meio de discursos competentes que outorgam e autorizam quem, o que, como e onde se fala, que ditam como se deve viver e participar.

Entendemos que as manifestações são dispositivos importantes de exercício de alteridade. Isto é, nos possibilitam conviver com modos diversos de vida e, assim, interrogar nossos valores morais, abalar nossas certezas e verdades já sacralizadas. Expressam e dão visibilidade aos intoleráveis que não podemos mais suportar, chacoalham os limites de uma cidadania consentida que ainda vigora entre nós. Mostram a conexão entre lutas diversas, fazem coexistir modos de vida singulares que muitas vezes não se tocam, não se roçam, e viabilizam que sejam tecidas novas sociabilidades.

Nesses eventos nos deparamos tanto com a capacidade do vivo, humano e não humano, de fiar belos arranjos, solidários e generosos, mas também lidamos com os fascismos que permeiam nossa existência. Por isso, a função política das manifestações não se vincula exclusivamente à afirmação de vidas dignas e diversas. Também pode fomentar o constrangimento da vida, incentivar o controle e reduzir o viver às possibilidades já dadas. Esta função política também pode ser acionada para aplainar a vida, para demandar mais regras, mais leis, mais punição, mais violência e menos direitos sociais. Uma função política que alimenta o ódio à diferença. Neste processo nos tornamos guardiões da ordem, da moral, das regras, não suportando incertezas e mudanças que arranhem as permanências de nosso cotidiano. Achamos que podemos ser destruídos pelo outro, e este é visto como uma ameaça à nossa ordem supostamente obtida com tanto esforço. As manifestações podem funcionar como uma ferramenta de fomento a uma atroz intolerância a todo e qualquer movimento que expresse, de forma contundente, que a vida é incerta e varia sempre.

Afirmando uma outra via ética e política, ressaltamos que as manifestações podem provocar fissuras nas formas hegemônicas de existência, abrindo um novo campo de possíveis. Por isso, achamos importante concluir afirmando que a função política das manifestações é nos fazer indagar, sobretudo, acerca do que estamos fazendo de nós mesmos. Como as políticas do ódio são fabricadas, nutridas e geridas? Quais modos de vida admitimos como possíveis de serem vividos?

Por fim, a função política da expressão coletiva dos sujeitos, nas mais variadas formas, dentre elas as manifestações, é nos lembrar que a liberdade é a capacidade de inventarmos nossa própria vida, de mudar o que se coloca como estável e imutável, de abrir espaço para as esquisitices da vida que jamais poderão ser totalizadas. A função política das manifestações é fazer variar os modos de viver, exigindo que inauguremos novos direitos sociais e políticos que acolham estas variações, e nos sinalizar que a política implica necessariamente a convivência com a diferença, com a alteridade.

Ana Heckert
Profª do Departamento de Psicologia da UFES e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Institucional. Doutora em Educação

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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