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Protegidos por Maria

Os versos cantados pelo padre Zezinho na música ‘Maria da minha infância’ narram, com muita poesia, a relação que se estabelece desde cedo entre as crianças de famílias católicas e Nossa Senhora. Ao ouvir a canção somos embalados pela melodia e brotam as lembranças da oração feita à noite com palavras trocadas, sono e muito amor. Lembramos do ambiente familiar, da avó, da mãe, do pai e da recomendação de rezar para Nossa Senhora proteger, mesmo quando desconhecíamos o significado de algumas palavras. É assim desde cedo, crianças com fé, amor e as mãos unidas em oração rezam com toda a confiança a Maria para se sentirem protegidas.

Essa relação começa desde cedo quando a família se prepara para receber os filhos. Em muitas casas na parede ou na porta do quarto da criança é colocada a imagem de Nossa Senhora. A jornalista e artesã Andressa Mian confecciona pequenas imagens e diz: “eu criei porque muitas mães gostam de ter uma imagem de Nossa Senhora para proteger os bebês e a procura foi muito grande. Estou sempre recebendo encomendas delas”. Esse gesto perpassa as gerações que o repete não de maneira mecânica, mas porque encontra um sentido. Para Andressa “as mães buscam essa proteção porque sabem que Maria nunca desampara seus filhos” Além disso a imagem “é uma lembrança especial que remete às coisas boas, à proteção e é isso que as pessoas buscam, provoca uma emoção diferente, dá para sentir isso. O meu filho mesmo tendo apenas um ano quando vê a imagem reage, é como se estivesse conversando”. Ainda nos primeiros dias de vida as mães também costumam consagrar seus filhos a Nossa Senhora. Algumas fazem isso no batismo e assim a marca de Maria Mãe protetora vai se estampando nas memórias e nos sentimentos dos pequenos. Se fossemos perguntar quantas crianças são consagradas à Mãe de Deus em ritos oficiais e não oficiais seríamos certamente surpreendidos.

Mileny Lopes escolheu com carinho as madrinhas de consagração para seus dois filhos e afirma que o papel desempenhado por elas é de fundamental importância: “elas dão amor, protegem e aproximam meus filhos do céu. As madrinhas são super presentes em todos os momentos, principalmente os religiosos, apesar de não estarem presentes fisicamente por morarem longe, sempre vibram e intercedem por eles”. Na vida de Mileny, a devoção a Nossa Senhora nasceu justamente no seio familiar. “Cresci rezando e amando Nossa Senhora. Meu pai, principalmente, tinha uma linda devoção a nossa mãezinha. Não sei se pelo fato de ser pescador, mas ele sempre orava e pedia a intercessão dela nos momentos mais difíceis. E sempre tinha o momento de agradecimento pelo pedido atendido. Essa fé foi aumentando, virando um amor a nossa mãezinha que sempre nos amparou. Me casei, e levo esse respeito, admiração e de intercessora que é Maria. E como foi com meus pais, meus filhos também não dormem sem rezar à Ela, sem agradecer e pedir sua proteção. É nosso colo e amparo desde sempre”.

“Consagrar-se a Maria significa muito para o povo, quer dizer doar-se, ter como referência. A madrinha desempenha esse papel”, disse padre Jocemar Zagoto. Em séculos passados, inclusive, Nossa Senhora era escolhida para ser a própria madrinha da criança, tradição esta que não é mais incentivada pela Igreja.

Para ele, ter uma referência auxilia na compreensão da criança sobre quem é Nossa Senhora, pois “a figura de Maria precisa estar sempre ligada a Jesus Cristo, ela é real, bíblica, esteve entre nós. A criança precisa entender Maria dessa forma e isso só é possível com uma boa referência”. Também no seio familiar, Júlia Machado, de 14 anos, reconheceu em Maria a “mãe, mestra e princípio da salvação”, após sua avó passar por 54 cirurgias e ser curada de um câncer de pele que, na época, era improvável. “Ela que me levou a reconhecer Maria em minha vida como minha mãe”, contou.

A educação da fé infantil não se restringe aos exemplos dentro de casa. A confiança em Nossa Senhora também é estabelecida durante a catequese, as celebrações marianas e principalmente nos meses de maio e outubro quando as crianças são convidadas participar de encenações onde fazem o papel de anjos, terço missionário e coroações de Nossa Senhora.

Regina Petri, que é da equipe de coroação da paróquia Nossa Senhora da Glória explica que a preparação com as crianças envolve uma explicação didática e afetuosa que as tornam mais próximas. “O primeiro interesse das crianças é com a roupa, o fato de se vestir de anjo. Depois vamos explicando que estamos fazendo uma homenagem para alguém que amamos, que é a nossa Mãe, como ela foi importante para a salvação, claro tudo de forma leve, usando a linguagem delas. A gente vai trabalhando os gestos, a forma carinhosa de se aproximar e assim tudo começa. No dia da coroação, de fato, é lindo perceber como elas compreenderam o significado do que estão fazendo e o respeito com que o fazem”.

O padre Jocemar diz que falar sobre Nossa Senhora para as crianças precisa da construção de uma narrativa no universo delas: “o teatro, a contação de histórias, todos esses elementos são importantes e a garotada adora. Também fazê-las participar, interagir, com cantos, a encenação, coroação, tudo é muito bom para o aprendizado, pois faz com que elas se sintam parte da história. Elas precisam se apaixonar pela figura de Maria. Por exemplo, os jovens hoje estão se apaixonando pela figura de Madre Teresa, porque é uma realidade, é uma história próxima de nós. Assim as crianças assimilam a devoção a Maria, pela proximidade com nossa vida”.

A catequese, local de aprendizado, troca de experiências e amadurecimento da fé abre espaço para que a devoção seja compreendida e vivida pelas crianças. “Na catequese trazemos Maria para mais próximo do catequizando, falamos sobre as devoções próprias de Nossa Senhora, como a reza do terço, explicamos porquê rezar o terço e a apresentamos como mãe, uma mãe que sempre intercede por seus filhos”, comentou a catequista Josiany Torezani. “Nós trabalhamos com dinâmicas, introduzindo Nossa Senhora como uma mãe que acolhe. Cartazes, teatro, uma linguagem diferenciada, enfim, procuramos levar essa confiança e devoção para o lugar confortável para a compreensão delas”.

Proteção, intercessão, amparo, são alguns dos sentimentos que pais, catequistas, madrinhas dividem com as crianças como forma de fazer presente em suas vidas a nossa mãe, Maria. A devoção cresce a partir das referências, dos exemplos presentes na primeira infância que seguirão pela vida adulta. Algumas vezes, conforme a canção do Padre Zezinho, essa amizade pode ficar esquecida e até dúvidas podem surgir sobre este ensinamento, mas a mãe nunca esquece o filho ausente e o amor de Maria continua crescendo dentro de nós.

Letícia Bazet 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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