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Proibido lamentar-se!

Nos diversos meios, o Papa Francisco tem-se destacado chamando a atenção não apenas dos católicos, mas da própria humanidade com chamadas curtas e incisivas. A mais recente está no título acima. E parece que os tempos atuais, marcados por tantas crises, têm mostrado um grande crescimento de “verdadeiros muros de lamentações”. Muitas vezes, parece que o otimismo desapareceu do horizonte humano. É preciso não esquecer a frase dita por Deus após a conclusão da obra criadora: “Contemplou toda a sua criação e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). E Paulo completa o texto de Gênesis: “nada deve ser rejeitado” (1Tm 4, 4). E o livro de Eclesiastes constata: “o ser humano não consegue perceber completamente o que Deus realizou” (Ecl 3,11).

O realismo é muito necessário, contudo a atitude de melancolia e azedume permanente acaba por afastar as pessoas do bem que é a criação. As próprias crianças terão pela frente um caminho já previsto tortuoso, triste e desesperador. Muitos jovens acabam interrompendo sua vida quando a imaginação se alimenta permanentemente desta perspectiva negativista. O mau humor permanente afasta a pessoa e isola do convívio social. Daí o crescimento dos sintomas de depressão crônica e uso de tantas drogas farmacológicas para reverter o quadro de pessimismo diante de si mesmo.

O ato de queixar-se sem nenhum movimento para tornar a vida melhor é caminho sem volta para a inércia e a morte. Cresce a postura de “vitimismo” na mesma medida em que decresce a capacidade para resolver problemas. Qualquer dificuldade é motivo para o mais absoluto desânimo. Triste é constatar que entre os nossos jovens se desenvolve muito a falta de coragem para enfrentar os problemas cotidianos. Quantos jovens permanecem na dependência permanente dos pais! Não conseguem “largar a barra da saia da mãe”.

Ao mesmo tempo é preciso cuidar para não se cair no oposto que é a “síndrome de Poliana”, figura emblemática de uma obra de Eleanor Porter. A postura de não se lamentar pode levar a pessoa a uma visão de um mundo “cor de rosa”, que afaste a pessoa da vida real para viver ingenuamente e acriticamente. Esta síndrome é o oposto do negativismo.

Então, é preciso caminhar com os pés no chão. A vida se compõe de frustrações e nem por isso deve nos levar a um muro de lamentações ou de fantasias. O próprio Papa elogia os jovens em sua capacidade de crítica e contestação. Vitimismo e alienação não combinam com a essência de vida presente nos Evangelhos. Não é preciso ter uma cara de “pimenta no vinagre”. A criação é bela e boa, e só nos cabe agradecer a Deus por tudo o que dispomos para nossa vida.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião e professor universitário na UFES

 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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