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PRESENTE E PRESENÇA

Um tempo nos é dado, um corpo nos é oferecido: a vida acontece. E acontece – ou deveria acontecer – como presente e presença, tempo e mundo, instante e corpo. Não sem exigências, no entanto, a vida assim se apresenta. Por ser propositiva será sempre provocadora, convocando-nos para que a atualizemos, para que nos façamos presentes (no tempo) e para que sejamos no mundo uma presença (corpo), de modo a afirmarmos pela nossa vida singular, pelos nossos pensamentos, sentimentos e atitudes a força e a beleza que ela contém, potência de criação de realidades.

O presente – isso que não para de passar – se dará não mais como uma extensão de horas que nunca são suficientes para todas as nossas expectativas, mas como intensidade de cada instante. E a intensidade alargará o presente. Cabe aqui fazer uma distinção. Viver intensamente significa buscar experiências que ofereçam prazer imediato (nisso somos capturados). Viver com intensidade significa não se vender aos pequenos prazeres (que satisfaz esse ou aquele sentido), mas ter em vista o contentamento, aquele sentimento que nos preenche o corpo e a alma e que é proveniente da vida potente que se atualiza e se fortalece em cada experimentação, produzindo valor e sentido. Esse modo de vida com certeza alargará o presente, tingindo-o de eternidades.

O corpo – isso que não para de mudar – se oferece como um campo onde as forças virtuais se tornam atuais, onde as possibilidades se tornam realidades, onde a potência se renova ao se atualizar, se refazendo e criando realidade. O corpo é a atualização do absoluto, do desejo, da vida que se reconhece como força e beleza. O corpo não é menor do que a mente e a alma. Um corpo pode tantas coisas. Ele é a presença visível, palpável, exuberante da vida no mundo.

Não poucas vezes, contudo, somos desapropriados de nosso tempo e de nosso corpo. Eles passam a ser habitados e conduzidos por outras forças (dos quais quase sempre nos fazemos cúmplices por conta dos pequenos prazeres que elas nos oferecem) que nos seduzem, nos coagem e nos exploram. O tempo vira dinheiro e o corpo vira objeto a ser explorado, e desprezado (tanto vivo quando morto). Além de sermos expropriados de nosso corpo e tempo, pode ser que também – num outro caminho triste – nos percamos deles. Não poucas vezes nos percebemos perdidos no mundo, órfãos da própria vida, distantes das vitalidades e intensidades, órfãos do próprio corpo e tempo, como se devêssemos ter nascidos em outra época e em outro “personagem”. Isso inclusive explica o interesse das pessoas pelas tais “vidas passadas”, supostamente vividas em outro tempo e corpo.

Por nos sentirmos destituídos do próprio corpo e tempo, ou por nos perdermos deles, entramos num movimento de reforço de identidades constituídas a partir do “buraco negro” que nos suga e que se dá por não vivermos o que a vida pode. Do buraco negro projetamos uma vida ideal e passamos a viver em função de certas identidades desvinculadas das fontes da vida, identidades que se oferecem como capazes de gerar sentido (o pai, o médico, o político, o servidor público, o homem de bem, o isso e aquilo). Mas, por sermos mais do que umas identidades, nenhum desses papéis produzidos pela máquina social nos possibilitará uma vida intensiva. Todas elas oferecerão momentos para vivermos intensamente como garantia da continuidade da nossa servidão (pequenos prazeres que nos são vendidos em belos apelos para o consumo que nos fazem vender a alma para tê-los).

Dentre outros artifícios – importa destacar – quando estamos desvinculados da vida em nós, presos por esta ou aquela identidade, cheios de buscas do que nos falta e vazios de sentidos, podemos desejar ardentemente o poder. Mas esse gosto pelo poder nos desmascara porque revela exatamente a nossa impotência. Os impotentes buscam o poder. Ao contrario, haveríamos de buscar forças. Forças, sim, exatamente para não precisar de poder. Forças para ser capaz, para ser criativo, para ser generoso.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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