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Pessoas felizes em profissões exigentes

Certamente você já ouviu ou já disse “essa pessoa não tem vocação para o que faz” ou “essa pessoa tem vocação”. O que significa isso? Podemos definir que são duas dimensões: a vocação humana, relacionada a uma profissão para a qual a pessoa tem capacidades físicas, técnicas e/ou intelectuais e lhe dá um retorno, e, a vocação divina na qual a pessoa se entrega por um amor desinteressado e gratuito.

Esta pode ser uma maneira simplificada ou simplista de entender as duas dimensões da vocação. Mas, na prática, conversando com pessoas de profissões diversas, percebe-se que muitos profissionais entendem a sua profissão como uma vocação divina ou a exercem com uma intenção e convicção espiritual.

A Revista Vitória procurou pessoas que exercem profissões, aparentemente difíceis e desafiadoras, e se sentem felizes. Constatou também quanto as duas dimensões (vocação humana e divina) se entrelaçam. Imagine um médico socorrista, também professor, em sala de aula, tomar conhecimento que uma aluna grávida acaba de falecer. O que fazer? O médico não hesitou, constatou a morte da mãe e arriscou-se na tarefa de salvar o bebé. “Foi Deus quem fez o parto”, diz o Dr. Tiago Bissoli, o médico socorrista do Samú, protagonista dessa experiência que lembra esse momento como o mais marcante em sua profissão.

Para Dr. Tiago a definição para sua profissão é: “uma cachaça! Gosto muito”. Quando perguntamos como enfrenta uma agenda sem pauta, sem previsão, sem planejamento respondeu que procura se atualizar e estudar diariamente para estar preparado para o que surgir.

Floriza Ribeiro de Souza, trabalha em serviços gerais na Mitra Arquidiocesana de Vitória. Cuida da limpeza, faz café e garante que sua profissão não é difícil. Ela chega antes dos demais funcionários, prepara o café e começa a limpar as salas. A recompensa vem do sorriso, do acolhimento que outros lhe prestam e, principalmente, quando o outro manifesta estar feliz com o que ela faz. Agradar o outro é o que ela faz com alegria também. “Desde pequena eu aprendi a organizar a casa e cozinhar, então para mim é fácil, acho muito bom e gosto do que faço. O difícil às vezes é entender como a pessoa gostaria que fizesse. Eu gosto quando percebo que estou agradando. Chegar aqui e você ficar feliz, dizer ‘ah, a Flor chegou agora vai ficar tudo limpo’. Eu percebo que a pessoa está feliz pelo sorriso. Eu tento perceber o que a pessoa gosta, não posso entrar do mesmo jeito em todas as salas”. Interrompi a empolgação e perguntei se ter que se adaptar ao jeito de cada um a incomoda e ela respondeu: “não, de forma alguma”, e continuou dizendo que mesmo cozinhar não ser uma atividade de serviços gerais, ela gosta muito de cozinhar e, de vez em quando, faz alguma coisa para ver a alegria das pessoas: “servir e ver o outro feliz, é o que eu gosto. Eu ouço muito que sou boba por querer agradar, mas eu não acho isso, eu tento fazer o ambiente ficar mais agradável. Aprendi isso com a minha primeira patroa. Eu chegava envergonhada, não olhava nos olhos das pessoas e ficava triste e ela me dizia que eu estava ganhando meu dinheiro com dignidade e que o que eu fazia era necessário e os outros precisavam. Eu fui aprendendo e hoje faço tudo na maior alegria”. Mas ela também poderia ser piloto de avião e com as razões para essa escolha, acentua novamente sua preferência pela organização e apresentação: “gosto do uniforme e da postura do piloto”.

Gosto e dom é também o que Célia Cabral da Silva considera em sua profissão. Para ela que fabrica e vende pão caseiro em sua residência “fazer pão é dom e vocação. É muito bom ver o produto que você fez pronto, mas é muito bom ver a alegria e realização do outro ao receber o pão que ele quer”. Célia optou por priorizar o ser mãe, esposa e filha, então por algumas razões de saúde ou necessidades relacionadas a suas opções interrompeu sua fabricação de pães, mas sempre volta. “Sempre gostei de cozinhar e adaptei meu horário para acompanhar meu filho, cuidar dos pais e atender o cliente às 15h”.

Tal como Célia, Jonas Francischini também faz pão, mas ele trabalha em panificadora e não tem liberdade para escolher o horário. Para ele essa é a pior parte “a gente acaba perdendo a convivência familiar porque precisa dormir cedo para levantar de madrugada”. Às vezes Jonas sente sono e até cansaço, mas quando espreita os primeiros clientes segurando o pão ainda quente com carinho e um sorriso no rosto, acaba o cansaço. “Às vezes eu venho até à loja só para ver a alegria dos clientes. É muito bom poder alegrar o dia das pessoas logo cedo, isso me faz sentir importante na vida delas e fico até com vontade de voltar no dia seguinte”.

E ficar longe de casa, dormir na beira da estrada ou no banco do caminhão, é difícil? Não para João Vieira, ele diz que o caminhão e a estrada viraram seu lugar preferido e nada o impede de sentir alegria em poder carregar alimentos para o Norte do Espírito Santo e o Sul da Bahia. “Não importa se estou com dor nas costas ou se o trânsito está lento, fico o tempo todo pensando em quem está esperando a mercadoria e tenho vontade de chegar logo. Às vezes a imprensa fica falando que caminhoneiro é imprudente e dirige cansado, mas a gente pensa em quem está esperando e tem vontade de chegar logo”. A vontade de chegar não pode permitir imprudências ou justificar agir contra as leis de trânsito ou mesmo ir além da capacidade física. A pressa pode trazer consequências graves e João sabe disso, mas ele diz que quando o cliente liga dizendo que a mercadoria já está em falta ele percebe que se chegar rápido vai ajudar muita gente que precisa, “quando consigo adiantar a chegada me sinto quase um enviado para atender aquelas pessoas e isso me deixa muito feliz”.

Uma atitude interessante que surgiu durante as conversas com os profissionais foi a da alegria que vai além dos resultados. O primeiro a falar sobre isso foi o dr. Tiago “independentemente dos resultados ou do desfecho do tratamento, se eu me dedico inteiramente, sinto-me realizado e feliz. Claro que quando o paciente reage bem a um cuidado ou intervenção a alegria é maior, mas se o paciente falecer e eu tiver feito tudo que podia também me sinto bem com meu trabalho”. Juliana Takina que entrega jornais em semáforos de Vitória tem um sentimento bem semelhante quando afirma: “nem sempre a pessoa quer receber o jornal ou às vezes recebe, mas nem agradece ou dá um sorriso, mas mesmo assim eu sinto alegria por estar oferecendo a ela alguma coisa que pode interessar. Quando o carro arranca eu olho para o céu e continuo com a mesma disposição. Às vezes até penso que a pessoa pode estar preocupada com alguma coisa ou atrasada para o trabalho, aí eu desculpo e penso que cumpri a minha missão”.

Sol ou chuva, pessoas sofrendo, levantar cedo, limpar o que outros sujam ou cozinhar para os outros, entregar algo indesejado ou no momento inoportuno pode ser tarefa difícil, desconforto? Sim, mas a dificuldade da tarefa não é determinante para provocar tristeza ou alegria e menos ainda impedir alguém de se sentir realizado ou feliz. Dom, vocação humana ou divina? Classificações desnecessárias porque a vocação humana exercida com responsabilidade e respeito já carrega naturalmente a marca de Deus: servir na alegria.

Maria da Luz Fernandes
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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