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Pessoas em processos de depressão e a fé

Escutar, acolher e amar são as palavras que padre Genilson Dellapicola (Pe. Nite) afirma serem necessárias para o atendimento religioso a pessoas depressivas. Ele conversou sobre o atendimento religioso a essas pessoas. Confira.

Sentimentos e expectativas de pessoas em estado depressivo

As pessoas chegam cotidianamente e trazem diversos tipos de problemas em busca de auxílio e ajuda e, muitas vezes, esperam além daquilo que podemos oferecer. A pessoa no estado depressivo ou no estado de carência psíquica ou emocional muito grande, joga a sua confiança, a solução dos seus problemas em alguém, ela está buscando uma solução, ou em Deus, ou no padre, ou em quem quer que seja. Ela chega com uma carga de ansiedade enorme em relação ao resultado que vai conseguir com aquele encontro, com aquele diálogo, com aquela ajuda. Então, é preciso ter muito cuidado ao acolher, sempre com amor, caridade e respeito. São situações muito delicadas, a intimidade do ser humano é algo sagrado e a gente tem que pisar nesse terreno, tirando a sandália e com muito cuidado na escuta, e principalmente naquilo que orientamos.

Geralmente a pessoa sabe que sua situação não é um problema relacionado à fé, mas procura por meio da fé a superação, é essa a motivação que a leva a procurar o padre. Quase sempre chegam dizendo, “eu estou deprimida”, “eu estou triste”, “não estou conseguindo mais fazer as minhas tarefas”, “acho que isso é depressão”, “já procurei o médico” “fiquei desempregado e não estou conseguindo dar conta”, “perdi alguém da família”. Porém, tem pessoas que confundem. Dependendo do grupo da eclesialidade a que pertencem. Por exemplo, algumas pessoas ligadas à linha da espiritualidade carismática, confundem problemas emocionais, afetivos, psíquicos, sexuais, com questões religiosas. Acham que é por falta de fé, por falta de força de vontade, de determinação ou porque Deus não está ouvindo as suas preces, devido a um tipo de pregação que ouvem, porque a abordagem que se faz nesses encontros sob certas questões psicológicas, atribuindo-as, ou ligando-as a questões de fé, muitas vezes, não são corretas.

A gente, no discernimento, na escuta e no diálogo vai ajudando a pessoa a entender que aquilo é um problema emocional, psíquico, que às vezes demanda um tratamento psiquiátrico, um acompanhamento psicológico, unido e integrado ao processo de fé.

Em todos os casos é preciso muita sensibilidade, respeito e cuidado, principalmente com o que se fala com a pessoa nesse estado.

É preciso prudência e a prudência é o cuidado com aquilo que a gente fala. A pessoa que procura um padre, que está deprimida, que está sofrendo algum transtorno psicológico, que já passou pelo psiquiatra ou pelo hospital e foi medicada, a pessoa nesse estado está totalmente vulnerável do ponto de vista afetivo, do ponto de vista sexual, do ponto de vista emocional, psicológico, espiritual, é a pessoa num estado de extrema carência, então é preciso, nesse momento, todo cuidado do mundo, cuidado com o que se diz, o cuidado com a expressão facial e até corporal, a maneira como a gente acolhe, como a gente escuta, e, principalmente, cuidado ao dar sugestões. É muito difícil saber o que é melhor para a pessoa. A mente da pessoa é um mistério, a nossa própria mente, para nós mesmo, é um mistério. Nós não nos conhecemos na nossa complexidade. É sempre melhor nesses casos, ouvir mais do que falar.

O papel da religião

Os campos da fé e da ciência são separados e, por isso, têm que ser tratados separadamente, se a pessoa tem um problema psíquico, ela tem que trabalhar com um profissional da área, com médico ou com psicológico e associar a esse tratamento a fé, a fé atinge todas as dimensões do ser humano, a pessoa que crê, que tem fé, não consegue fazer nada sem que a fé a acompanhe em todas as dimensões, também nessa dimensão do sofrimento emocional e psíquico. A fé ajuda, mas nós, como padres, não podemos, querer resolver sozinho o que não é de nossa competência. Se a pessoa tem um problema psíquico, eu posso orientá-la espiritualmente, como irmão da fé, mas devo aconselhar a que procure um tratamento médico, e depois acompanhá-la na parte espiritual, ajudando-a com a oração, sugerindo passos a serem feitos, no nível de espiritualidade que possam agregar ao tratamento médico, psicológico e ajudá-la a superar o momento. Mas, nós não podemos tratar questões médicas e psíquicas, com fórmulas de fé somente, isso é algo insensato e irresponsável e pode ser até criminoso.

Teve um caso de uma pessoa que havia sido abusada sexualmente por um parente durante um tempo. Ela ficou com trauma e me procurou forçada pela mãe. Eu ouvi, acolhi e ela não falava o que era, ela só chorava. Depois de alguns encontros, ela continuou me procurando. Um caso de violência sexual contra mulher ou homem, ainda quando criança, não se apaga da memória, não tem como apagar, a pessoa leva aquilo para o resto da vida e às vezes, passa uma vida toda sem superar. Essa pessoa, em especial, ia tentar namorar, como todas as moças, mas depois não conseguia, ia bem até quando não começasse uma intimidade. Ela conseguiu superar coisas que eu não imaginava jamais, pelo tamanho do drama que ela viveu. Tem coisas que a gente não consegue explicar e eu atribuo isso a Deus, à força que tem a fé, para nos ajudar a superar situações que às vezes nem com um terapeuta se consegue superar. As vezes em conversas com o padre, que não é psicólogo, mas em quem a pessoa deposita confiança e por estar ligado à religião, à fé, a Deus, a pessoa obtém êxito. A fé abre portas, e nesse caso tem um poder muito grande de ajudar.

Por isso, temos que estar serenos, numa uma atitude de oração, escuta e isso estimula a pessoa a falar. Mas é um conjunto de coisas que a gente vai aprendendo ao longo do tempo. Nessas ocasiões eu faço a seguinte pergunta “O que Jesus falaria para essa pessoa”? Sempre, somos guiados pelos valores que a gente tem, mas naquele momento de escuta, eu me pergunto sempre, o que Jesus faria… é um delineador que vai apontando para gente o caminho, conduzindo a relação, como é que Jesus agiria… Então, eu me coloco em uma atitude de caridade, de amor, de escuta e isso geralmente facilita muito. Eu gosto muito do atendimento de confissão, da escuta, do aconselhamento, é muito exigente, mas muito bonito também, e muito sagrado. É um sacramento lindo pelo qual Deus age e a gente se deixa conduzir por Ele.

Outro elemento que precisamos levar em conta é que a pessoa em estado de depressão sente-se culpada. A culpa perpassa toda a nossa vida e mesmo quando a pessoa é vítima, quase sempre ela procura alguma razão para se sentir culpada. Ou culpada porque não reagiu, ou culpada porque não falou, ou culpada porque acha que provocou aquilo, principalmente no campo da sexualidade, as pessoas quase sempre pensam ter alguma culpa. Também em relação ao relacionamento pais e filhos a sempre um sentimento de culpa da parte dos pais ou dos filhos. O nosso papel é ajudar a pessoa a se perdoar, a não julgar o passado com a consciência que tem hoje, com idades diferentes, tempos diferentes. Para ser pecado tem que ter algumas característica: A pessoa tem que ter consciência que é errado, poder não errar, conhecer as consequências do erro, ter consciência das consequências do erro, e, então, pode-se dizer que é pecado. A maioria dos casos nem pecado é, mas a pessoa está se culpando, às vezes, uma vida toda por isso.

Causas que levam à depressão

O número de casos de pessoas com depressão aumentou muito. No início do meu ministério eram casos isolados, problemas de família. Mas hoje aumentou muito e, o pior, aumentou muito entre jovens, adolescentes e crianças. Na minha antiga paróquia, que deixei recentemente, tinha várias crianças e adolescentes com problemas graves, emocionais, de relacionamento, casos gravíssimos de isolamento, de solidão, por conta da questão familiar, da família desagregada, desestruturadas, por conta de problemas físicos, às vezes o bullying. A não aceitação no meio de convivência, por uma série de razões tem tornado muitas crianças sofredoras, com problemas de depressão e ansiedade. Por conta do ritmo da vida atual, ou por excesso de tarefas, na classe média, os pais põem as crianças na escola, depois é aula de judô, de dança, de música, de inglês… A criança não tem tempo para brincar. Existe uma sobrecarga de tarefas, de expectativas, de cobranças e isso é estressante para o adolescente para a criança e causa muito mal.

Há uma confusão de valores, hoje. Há poucos anos, algumas décadas atrás, a sociedade tinha suas dificuldades, porém normalmente as pessoas sabiam a direção a seguir, os pais geralmente sabiam como educar, discernir o que era correto para educar os filhos e hoje todos os valores foram jogados no chão, os pais permitindo educar os filhos de qualquer maneira, os pais já não sabem o que que é melhor e o que que não é, não conseguem colocar limites, não sabem dizer não, não sabem o que fazer em uma relação de conflito com o filho, porque tudo é permitido. Existem tantas modas, tendências e maneiras de viver, que as pessoas já perderam as referências e simplesmente não sabem mais o que fazer, nem com a própria vida e menos ainda os pais com os filhos. Tudo é permitido, tudo é possível, tudo é legal. Falta clareza para fazer as escolhas corretas, os passos melhores a dar em cada situação. Vivemos uma confusão ideológica, uma confusão de valores e isso prejudica muito.

Acredito que a maior causa para a depressão é a falta de referências, de convivência social, de valores na sociedade, essa é a maior causa de desorientação das pessoas, tanto crianças, quanto adultos.

O que fazer?

É preciso priorizar a família, porque hoje, as pessoas são tomadas por excesso de individualismo. Às vezes na família, o pai ou mãe, cada um está pensando no seu projeto pessoal, em fazer uma especialização, em cuidar do seu negócio, cada um pensando em si, mas convivendo juntos. Valorizar a família em que sentido? Estar junto, momento de escuta, de valorizar, de educar com qualidade de vida, com momentos bons, isso é fundamental. Quem tem uma família estruturada, na qual se sente amado e acolhido, por mais diferença ou dificuldade que tenha, tem capacidade de superar os problemas com muito mais facilidade que o outro que não tem. Acredito que é preciso investir na família e tentar, junto à família, fazer as escolhas, traçar os valores, o tipo de pessoa que queremos ser, que tipo de valores queremos. Quando a gente sabe que a escolha que a gente fez é uma escolha boa, tem bons valores, inspirados pela fé, pelos valores sociais, pela democracia, pelo respeito ao próximo, pela justiça, pela ética, pela moralidade, quando você tem essa segurança, sabe qual o caminho e a meta fica mais fácil.

O problema hoje é que as pessoas não conseguem ter clareza sobre isso, às vezes nem individualmente, nem no âmbito familiar.

Pe. Genilson Dellapicola
Pároco na Sagrada Família, Praia do Morro, Guarapari

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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