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Perdas e danos

Perdas, perdas, perdas e danos. É o que vivemos – a imensa maioria – no Brasil nos dias atuais. Perdas escancaradas, perdas insuperáveis. Perdas que se acumulam, danos que se ampliam. Perdas na esfera mais íntima, experimentadas num nível pessoal. Perdas mais amplas, sociais. Perda do emprego, do casamento, do amor, da vida digna na velhice, da terra natal (emigração). Perda da democracia, da confiança nas instituições, de direitos arduamente alcançados. Perdas e danos que traçam ainda mais cicatrizes na face do país já tão marcada, e no corpo frágil e suscetível de cada um.

Perdas, danos, estragos que se configuram como um adoecimento grave, sem diagnóstico preciso, sem remédios de efeitos rápidos. Em meio a tudo isso vamos sem saber o que fazer, sem rumos certos a tomar, desconfiados – no mínimo – de que são outras as forças que conduzem nossos destinos, escondidas forças que se ajeitam em nossas mentes como se fossem nossas. Estamos, portanto, diante de um quadro grande demais e que nos escapa. Grande pela proporção, pela complexidade, pela gravidade. Grande pela sua extensão assustadora e paralizadora.  Decerto não damos conta exatamente do que vemos, do que nos acontece. Rasgam-se os limites do compreensível e do suportável.  Evidencia-se tristemente o ser humano exposto: depressão, loucura, drogas, suicídio, desconforto generalizado diante da vida. Não são poucos os que sucumbem.

Aos que se mantêm de pé, mesmo que trôpegos, ainda resta a atitude a ser tomada com as poucas forças em reserva. Algo precisa ser feito. Se nos escapam o diagnóstico exato e a terapêutica correta a ser aplicada não nos escapará a atitude clínica. Aquela atitude que se reveste especialmente do entendimento de que é possível se posicionar pelo cuidado contra o adoecimento.

É preciso cuidar de si: pela prática incansável da honestidade, da generosidade, da tolerância, da bondade, mantendo-se sempre atento às possíveis recaídas, aquelas que podem nos empurrar para a corrupção, para o pessimismo, para a desesperança, para a agressividade, para os fascismos.

É preciso cuidar do outro: pelo exercício cotidiano da solidariedade; pela superação dos preconceitos; pelo investimento constante em ações coletivas e pacíficas; pelo esforço para manter os olhos bem abertos, não para as telas platinadas dos meios de comunicação com seus “bonzinhos” porta-vozes, mas para as possíveis frestas por onde se pode ver a realidade para além do que nos permitem.

Dauri Batisti

 

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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