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Pe. Ivanir Antônio Rampon fala sobre o caminho espiritual de Dom Helder Câmara

Uma gentileza de Deus: Padre Ivanir Antonio Rampon esteve na Arquidiocese de Vitória para falar do caminho espiritual de Dom Helder Câmara

Padre diocesano da Diocese de Passo Fundo, RS. Doutor em Teologia, desenvolveu sua tese sobre o caminho espiritual de Dom Helder Câmara. Além das atividades que desenvolve como professor e como pároco dedica-se também a divulgar sua pesquisa contando a história de Dom Helder e expondo seu caminho espiritual. Nesta entrevista fala sobre tudo isso.

vitória – Quando decidiu estudar Dom Helder?
Pe. Ivanir – Dom Helder marcou minha vida desde a infância. Na minha cidade, Ricanabaro, perto de Passo Fundo tinha, na década de 80, os grupos de família e estes grupos inspiravam-se no movimento de irmãos que Dom Helder tinha iniciado em Recife. Eram grupos que se reuniam para refletir sobre alguns assuntos importantes naquele contexto social, político e eclesial. E nestes grupos, nas orações e reflexões sempre aparecia o nome de Dom Helder: um pensamento, uma reflexão, sempre tinha alguma coisa dele. Eu lembro de ouvir que Dom Helder apoiava os pobres, defendia a Reforma Agrária etc. Mas, eu o conheci mesmo quando fui para Roma para fazer o doutorado. Pesquisar sobre o caminho espiritual de Dom Helder foi uma sugestão que eu acolhi porque gostei da ideia. Fiz o projeto e recebi o apoio total da Universidade Gregoriana onde inclusive me disseram eu estaria dando uma contribuição à Igreja do Brasil ao ajudar a divulgar o legado de Dom Helder.

vitória – Os problemas que dizem ter havido entre Dom Helder e a Igreja em algum momento afetaram seu interesse por esse estudo?
Pe. Ivanir – Não. Quando eu comecei a estudar Dom Helder estava convicto de que muitas coisas negativas que se falou dele eram preconceito, eram mentiras, eram verdades incompletas ou pela metade e eu fui pesquisando e confirmando que Dom Helder era um homem de Deus, um homem do povo e justamente por ser de Deus, por ser do povo, por ser dos pobres, por ter o Evangelho como prática de vida era perseguido. Dom Helder foi o primeiro bispo do Brasil a ser denunciado publicamente por outro bispo. Mas, isso eu fui descobrindo nos estudos porque a minha visão de Dom Helder era muito positiva e agora é mais positiva ainda. Não precisamos ir longe para perceber que todo o mundo que se compromete com o Evangelho vai ter sua cruz. O Papa Francisco nos diz que não há seguimento de Jesus Cristo sem cruz e Dom Helder, para seguir Jesus fielmente como ele seguia, precisou carregar sua cruz. Foi a cruz da fofoca, da calúnia, da mentira, das intrigas. O Papa Francisco diz que às vezes na Igreja há o terrorismo das fofocas e com Dom Helder houve o terrorismo da fofoca dentro da Igreja e também pelo Governo Militar. O Governo Militar fez uma perseguição sistemática, dolorosa, cruel contra Dom Helder. Analisando as diversas calúnias, talvez não analisei todas porque são muitas, mas as principais eu analisei e elas são inconsistentes, são ridículas. Um exemplo: um determinado bairro aumentou a violência porque Dom Helder transferiu o padre… outra vez foi dito que Dom Helder estava com 20 ou 30 mil guerrilheiros prontos para derrubar a ditadura… outra era de que Dom Helder era inimigo de Paulo VI…

vitória – Depois de seu estudo o que destaca em Dom Helder?
Pe. Ivanir – São muitas coisas, mas Dom Helder era um homem de diálogo. Ele dizia que muitas vezes nós estamos em monólogos paralelos mas não em diálogo. Ele dizia que quando a pessoa escuta ela já está pensando na resposta que vai dar para combater o que ouve e, essa atitude, já impede de ouvir completamente. O pensar na resposta para rebater o outro é um empecilho ao diálogo. Para ele o diálogo não são só palavras, o diálogo tem silêncio. Além daquilo que se diz, aquilo que não foi dito é importante para o diálogo. Dialogar é entender o que foi dito, o que não foi dito e mais ainda é colocar-se no lugar da outra pessoa. Dom Helder foi um homem de diálogo, procurou dialogar e procurou criar diálogos e sofreu justamente por isso. O Brasil precisa de diálogo, o mundo precisa de diálogo, o Papa Francisco fala que nós precisamos da revolução da ternura, que nós precisamos da cultura do encontro e encontro é diálogo, Dom Helder já falava isso há muito tempo. Quando a sociedade constrói muros o Papa Francisco manda abrir as portas das Igrejas para a gente fazer diálogo e isso é muito Helderiano.

vitória – O senhor falou de três dimensões na caminhada espiritual de Dom Helder: as conversões, as humilhações e as gentilezas. Como explicar a caminhada espiritual a partir destas três palavras?
Pe. Ivanir – Dom Helder não só fez um caminho espiritual bonito, mas ele fez um caminho exemplar. Por isso nós podemos dizer que Dom Helder é um modelo espiritual. O que é que eu quero dizer com isso? Todos nós temos na nossa vida diversas dimensões: temos a dimensão política, uma dimensão econômica, uma dimensão espiritual. A pessoa que se destaca numa das dimensões ela acaba sendo um modelo. Dom Helder é um modelo espiritual, ou seja ele viveu tão profundamente, tão intensamente a espiritualidade que se tornou modelo para todos nós. Por quê? Porque ele levou Jesus muito a sério. O grande modelo é Jesus, mas ele foi fiel seguidor de Jesus. Além disso, ele ainda criou um vocabulário específico espiritual. E no vocabulário específico de Dom Helder as palavras que mais se destacam são essas três: conversões, humilhações e gentilezas. De maneira bem simples eu diria que todos nós precisamos nos converter e conversão não significa apenas deixar as coisas erradas e ficar bom. Às vezes não é isso. Você precisa se converter sempre, inclusive, se é bom. A pessoa precisa converter-se sempre para ser sempre a mesma. Dom Helder dizia assim: “é preciso converter-se muito para ser sempre o mesmo”. Uma pessoa boa que para de se converter, estaciona, vira museu, vira retrógrada. Então é preciso converter-se sempre para estar atualizado com a Boa Nova do Evangelho. A segunda palavra são as humilhações. E porque Deus nos manda as humilhações? Não porque ele quer nos fazer sofrer, mas justamente o contrário, quando ele vê que a gente está abandonando o caminho do Evangelho ele permite a gente passar uma certa vergonha para a gente voltar ao caminho certo. É o treino para o caminho do humilde porque diz Dom Helder sem humildade não se dá um passo nos caminhos do Senhor. A terceira são as gentilezas. Deus não nos manda só humilhações, mas também gentilezas e uma das maiores gentilezas que Dom Helder teve foi a amizade com o Papa Paulo VI. Ao longo da vida por várias vezes Dom Helder chorava e agradecia a Deus por esta gentileza. Para ele, Deus envia 4 a 5 grandes conversões, humilhações e gentilezas ao longo da vida e cotidianamente 4 a 5 pequenas conversões, humilhações e gentilezas.

vitória – O senhor considera que foi uma gentileza de Deus poder estudar Dom Helder?
Pe. Ivanir – Oh, uma das grandes gentilezas de Deus mesmo. Conhecer mais, estudar e divulgar Dom Helder está sendo uma grande gentileza. Outra gentileza foi o convite de Dom Fernando Saburido para participar de uma missa em memória aos 16 anos de falecimento de Dom Helder na Sé de Olinda e o privilégio de usar nessa celebração uma túnica de Dom Helder.

vitória – Pode-se considerar o estudo de Dom Helder como um divisor no exercício de seu ministério, o que mudou?
Pe. Ivanir – O que mudou foi que as pessoas começaram a me chamar para falar sobre isto. Padres, seminaristas, grupos de leigos. A Igreja não pode ignorar este homem místico e poeta e eu não estou sozinho, tem muita gente espalhando a espiritualidade de Dom Helder. É muito bom saber que vem aí uma geração de padres que vai viver e espalhar esta espiritualidade Helderiana. Falar de Dom Helder é falar de paz, de justiça e de amor. É anunciar a busca de um sonho que quer a justiça, a paz e o amor.

vitória – O que é melhor escrever sobre Dom Helder ou falar?
Pe. Ivanir - Eu gosto muito de contar histórias e é bom falar de Dom Helder, mas é bom escrever e mais, se a gente não faz apontamentos, não escreve, não faz pesquisa falar fica difícil…eu diria que um completa o outro. Gosto de falar e gosto de escrever, escolher eu não saberia, mas acho que é melhor falar, mas os dois são bons.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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