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Os ‘preços’ da liberdade na Insurreição de Queimados

Como ato concreto dentro do Ano da Misericórdia, o Arcebispo de Vitória, Dom Luiz Mancilha Vilela, constituiu, em 2015, uma comissão para que apurasse os fatos históricos da Insurreição de Queimados e verificasse a possibilidade de, naquela região junto às ruínas, criar um espaço de penitência e oração, no qual a Igreja Católica e as pessoas em geral pudessem, de alguma forma, transformar aquele lugar, memória de tanto sofrimento, em lugar de reparação.

A primeira constatação da comissão foi de que o local se transformou em sítio ermo e necessitado de restauro. Apenas ruínas da igreja e um cemitério testemunham que em tempos passados ali existiu uma comunidade católica. A segunda constatação, foi que as certidões de cadeia sucessória oriundas dos Cartórios de Registro de Imóveis de Serra e Vitória, não constam que a propriedade em questão integra o patrimônio da Igreja. Todavia, a Cúria Metropolitana, localizou em seu livro de acervo patrimonial uma escritura pública lavrada pelo tabelião José Cancio de Leão Borges, datada do ano de 1926, a doação entabulada pela sra.  Ana Maria, proprietária do  imóvel , viúva de José dos Santos Machado, grande devoto de São José. A escritura faz referência que a doação ocorreu no ano de 1846. Os Livros históricos comprovam a doação verbal do terreno que pertencia à referida viúva. Além disso, doou o terreno, contribuiu com material e permitiu o trabalho de seus escravos na construção.

Diante da existência da escritura de doação, a Comissão constituída intensificará os seus cuidados, para a localização do registro da propriedade promovida pelo Tabelião José Cancio de Leão Borges.

De outro lado, sabe-se que, Carlos Larica, atual proprietário, fez em março de 2015, uma doação do terreno, condicionada à execução do Projeto de Restauração do Centro Histórico de Queimados em um prazo de 5 anos. No caso de não cumprimento o terreno volta automaticamente para seu proprietário. A mesma comissão também identificou que o município já possui projetos de restauro (novo acesso, iluminação e restauro da igreja e do cemitério), porém não existe plano de execução e a Prefeitura ainda busca apoios para a realização do projeto. A comissão também se preocupou em entender qual a veracidade da história real de que o frei Gregório (Maria de Bene), responsável pela construção, teria ou não prometido aos escravos a alforria em troca dos trabalhos. Quanto a isso, a compreensão também baseada em documentos históricos e, principalmente, no livro ‘Insurreição de Queimados’,de Afonso Claudio de Freitas Rosa, escrito e publicado ainda durante a vigência da escravidão (1884), que teve como fontes participantes do movimento pela liberdade dos escravos. Segundo ele, frei Gregório era um abolicionista que buscava a libertação e por isso, manifestava perante os escravos sua revolta contra as injustiças cometidas a eles e misturava esses anseios com a libertação de Deus em seu português não dominado. Junto a isso, havia o desejo pela liberdade por parte dos escravos que se serviam das palavras do frei para alimentar seus desejos e suas aspirações. Dentro deste contexto os líderes fizeram a ponte entre as palavras do frei, a construção da igreja e a mobilização dos escravos,decidindo que no dia da inauguração da igreja se não fossem libertados se rebelariam, e assim o fizeram.

Naquele momento o movimento abolicionista já era muito forte e, naturalmente, os escravos alimentavam e buscavam formas de se libertarem. O relato dos Doutores Lúcia Maria Roriz Veríssimo Portela, Fabiano Cabral Dias, do padre Robson Prati Neves de Oliveira e do padre Hiller Stefanon, que pesquisaram a literatura disponível e fizeram todo o levantamento documental junto à Prefeitura de Serra e de Vitória, levam à compreensão do contexto do momento e, ao mesmo tempo, distancia a Igreja Católica de qualquer iniciativa que pudesse transformar a região de Queimados em um lugar de resgate histórico, até que seja comprovada a pertença do terreno. Mas isso não apaga o sofrimento nem o lamento da Igreja por ter, de alguma forma, se envolvido no triste episódio que levou vários escravos à prisão, à morte e à fuga.

À insurreição dos escravos, a tropa e parte da população voltaram-se contra eles, a perseguição os encurralou e os líderes foram presos. É verdade que com isso alguns fazendeiros libertaram seus escravos, mas seguindo o modelo da época, os presos foram condenados e, para inibir outros, Chico Prego (escravo de Ana Maria e conhecido por ser robusto e forte) foi executado e João da viúva (escravo de Maria da Penha de Jesus, responsável por arrebanhar escravos) foi enforcado. Eliziário (escravo de Faustino, aprendera a ler com seu senhor e também era carpinteiro), segundo Afonso Claudio o “arquiteto” do movimento, fugiu da prisão e conta a história que ele e outros quatro condenados foram libertados por Nossa Senhora e se embrenharam nas matas para fugir do exército. Frei Gregório foi expulso do Estado e acusado por padre João Clímaco, advogado de defesa dos escravos, de ter prometido liberdade no dia da inauguração da igreja. Ele negou, conforme carta dirigida ao presidente da província e publicada no Jornal Correio da Victória em 26 de março de 1849 “[...] juro, repito de novo eu não fui causa nem aconselhei a eles no motim que fizeram no dia de São José”.

Espera-se, já que não é possível refazer a história, que Queimados se torne um local para lembrar a história, penitenciar-se pelo acontecido, rezar pela paz e alimentar sentimentos de igualdade e liberdade.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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