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O sustento, a vida e o lazer que vem dos manguezais

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O mangue, além de sua função natural no ambiente, é também fonte de renda e sustento para pelo menos duas comunidades em Vitória: Goiabeiras e São Pedro. Barro, tintura, caranguejo, siri, peixes e todas as diversificações que surgem deles, movimentam famílias inteiras e perduram através das gerações.

No bairro Goiabeiras, uma comunidade se organiza em torno da tradição de fazer manualmente as panelas de barro. Nada de tecnologia ou industrialização, até porque isso é proibido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), mas a verdade é que a relação de quem trabalha em torno do mangue é tão natural e espontânea que ninguém pensa em transgredir as normas e a lei. A comunidade organizou-se e tem os responsáveis por cada parte do processo, que se tornam também guardiões. “Quando vamos retirar o tanino, a gente só tira 15% da planta e no barreiro a extração é toda sem maquinário”, disse Flávio Fernandes que fabrica panelas há 12 anos, mas aprendeu na infância e a vida toda frequentou o local onde hoje trabalha. Perguntado se aceitaria maquinário para fazer extração, respondeu que a comunidade mantem uma relação sustentável com toda a região e que é necessário manter a tradição.

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Para iniciar o processo de confeccionar uma panela, alguns se embrenham no mangue para buscar barro e tinta. Depois de uma hora de barco pelo manguezal, os tiradores retiram as cascas vermelhas, levam para o galpão, socam e as deixam de molho 3 dias para soltar a tinta. O outro grupo que retirou o barro também tem trabalho no galpão. Eles precisam tirar todas as impurezas do barro, depois amassar até ficar na consistência necessária para, então, modelar as peças.

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Alguns participam de todo o processo, mas o mais comum é os artesãos comprarem o barro e a tinta. Os que se arriscam em todas as etapas dizem que ir para o mangue é menos estressante do que ficar no galpão e os que escolhem e moldam o barro preferem a arte da produção. O serviço é intenso e pesado, mas compensado com os elogios de quem compra, o ambiente familiar de todo o grupo, o desfrute do mangue e a alegria de manter a tradição. Porém é o dinheiro ganho ali que sustenta as famílias. Flávio trabalha com a esposa, a mãe e o sobrinho. Já Evanilda Correia, artesã também ensinou aos filhos, mas eles vivem de outros trabalho. Quando é necessário estão prontos para ajudar a mãe. Entre eles todos são primos, tios e amigos que dividem com a comunidade o parentesco real e adquirido pela convivência.

Em pouco tempo dentro do galpão das paneleiras percebemos que a presença masculina era grande e indagamos sobre isso. A resposta veio com uma história curiosa. Recentemente os homens que conversavam no campo de futebol revelaram o segredo antigo encoberto por longos anos: eles sempre fizeram panelas, mas as mulheres vendiam e diziam que eram elas por causa do preconceito. “No passado quase a metade masculina fazia panela de barro e ninguém dizia”, contou Flávio. Hoje, livres do preconceito, homens e mulheres tocam seus empreendimentos misturando vontade e experiência, inovação e tradição e, principalmente orgulho de dar a Goiabeiras Velha o selo de comunidade das paneleiras. Encontramos gente da 3ª, 4ª e 5ª geração e todos animados por terem seu próprio negócio, trabalharem por conta própria e sustentarem suas famílias. O mais jovem que conversou conosco, Hascler, tem 21 anos e sente alegria por trabalhar sem patrão, sem pressa para moldar o barro e transformá-lo em panela, com tempo para caprichar nos detalhes da tampa, sem hora para chegar e diz que isso não faz dele um preguiçoso: “estou aqui todo o dia, escolho o barro, tiro as impurezas e também faço a panela”, disse ele manifestando seu lado artístico que comprovamos nas peças prontas. Perguntamos se ele já pensou em fazer outras peças e ele disse “ sim, mas tem que ser algo que dá pra terminar no dia porque o barro seca. Pensei fazer abajur e acho possível”.

Na divisão das tarefas algumas são consideradas mais pesadas e atribuídas aos homens, como cuidar do tanino, extrair o barro e queimar as panelas, mas na hora que a reportagem esteve lá eram elas, as mulheres, que queimavam as panelas. “Difícil não é, é cansativo. Você queima, tira com o garfo e põe a panela em cima de uma mesa”, afirmou Evanilda, com a convicção de quem sabe e continuou, “eu só faço panela, é o que eu gosto de fazer”.

“Fazer panela é igual massa de pão, tem que montar ela todinha. O primeiro passo é modelar. Depois você coloca a alcinha, ou orelhinha como dizia meus pais”.

Evanilda discorre sobre tudo com presteza. Falou da importância da tradição e de sua preocupação em mantê-la viva e diz que ensinou seus filhos todo o processo: “Filho de paneleira tem que saber tudo, porque se acabar as paneleiras, a tradição, acabou Goiabeiras. A gente não pode deixar morrer, senão aqui vira um bairro igual todos são”. Quando perguntamos que futuro ela deseja para os filhos ela não hesitou “isto aqui é o negócio da gente”.

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Panela de barro fez-nos pensar em moqueca e perguntamos se ali também tem pesca, caranguejo, siri. Evanilda diz que tudo tem seu tempo, respeitam as andadas e pescam para consumo próprio, o que confirmaram Flávio e Carlinhos. Eles saem pra pescar sem pretensões,apenas para curtir o mangue.

Mas do outro lado, continuando pelo mangue, outra comunidade do Bairro São Pedro sustenta-se exatamente da pesca, especialmente o siri. Em comum, as duas comunidades têm o mar, o mangue, o vento e a dependência das marés para a pesca, e para colher o tanino e o barro. Enfim, pescadores, barreiros e tiradores são cientistas na prática. Rogério Leonel, o Pirão, como é conhecido,contou: “a gente trabalha pela maré, pelo horário. Por exemplo, a maré grande começou a vazar agora (16h) quando der 20h ela vira de enchente. Então o horário bom para a pesca é agora porque a maré está baixando, mas amanhã a maré já vaza 20 minutos a mais por causa da lua. O vento também influi muito. Vento bom é norte e nordeste, quando o vento vira do sul ou noroeste o pescador tem que ir embora porque é mais forte, é perigoso”. Sim, mas e o peixe? “Quando a maré baixa bastante o peixe sai do mangue e é melhor pra pegar, quando ela enche o peixe entra pelo mangue adentro e você não consegue pegar”.

Depois da aula sobre pesca fomos procurar as desfiadeiras de siri. Com tristeza descobrimos que a associação não existe mais e as mulheres que desfiam fazem em suas casas, por conta própria. Será que faltam incentivos? Por que a associação das paneleiras tem apoios, está organizada e a associação das desfiadeiras desarticulada? Encontramos Euza Correia que recebeu e acolheu a reportagem em sua casa e nos acompanhou até o local onde cozinham o siri quando chega do mangue, um lugar com pouca estrutura que no momento servia de espaço para brincadeira de criança. Ela compra o siri em caixas, encomenda feita aos pescadores antes da pesca, ferve e depois faz o resto do preparo em casa: ferver, desfiar, temperar, embalar e vender. No caso dela o “ser desfiadeira” começou por acaso, o irmão pescava, ela desfiava e usava para consumo próprio. Um dia um senhor procurou siri desfiado e ela começou a desfiar para vender. Hoje vende para dois restaurantes e a quem procurar em sua casa.

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Próximo à semana santa as vendas aumentam, mas o siri é procurado o ano todo. Alguns procuram inteiros para fazer moqueca, outros, desfiado e temperado para assar no forno e ainda para moquequinha ou torta.

No caso de Euza a venda do siri não é a única fonte de renda, mas ela afirma que muitas famílias da região vivem do mar e do mangue e disse estar preocupada com a falta do crustáceo, influenciada pela ausência de chuva: “nunca me preocupei porque sempre teve. Aqui tem ostra, camarão, sururu, siri e outros peixes, mas agora nós estamos ruins de siri. Quando chove muito e vem o vento sul, a água doce que desce do rio parece que desenterra o siri. Este ano todo o mundo rezou pra chover pra desenterrar o siri. A chuva custou a vir e quando veio trouxe um pouquinho de siri, mas já sumiu de novo”.

A cata do caranguejo parece assunto proibido. “A comunidade São Pedro vivia mais da pesca do peixe, o siri não acrescentava nada. Já o caranguejo a gente pescava muito e comia muito, mas agora tem essa proibição, então não tem mais”, foi a informação mais clara que obtivemos no bairro que apresenta a falta de estrutura para continuar mantendo viva a tradição, embora permaneça na teimosia de alguns, como Rogerinho Ferreira,18 anos, que levanta cedo para pescar e em 3 horas no mangue abastece o restaurante da família. Ele pretende continuar seguindo os passos do pai e afirma “saía com meu pai desde pequeno e aprendi tudo com ele sobre maré e lua. Levantar cedo, pescar, isso é a minha vida. Eu nasci e fui criado com a pescaria, nesse ambiente. Quero trabalhar no meu comércio no restaurante como meu pai fez”.

As tradições de Goiabeiras Velha e São Pedro estão garantidas e a história vai desenhando outros matizes, mas não apaga a relação sadia e alegre de quem se sustenta em harmonia com o ambiente e a natureza.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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