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O sentido da autoridade episcopal

A evolução da autoridade do bispo na história da Igreja abrange várias experiências eclesiais, de acordo com o ambiente em que o cristianismo dos tempos antigos foi penetrando. Geralmente, nos ambientes pastorais de hoje, guarda-se a definição consagrada pelo Concílio Vaticano II, contida na Lumen Gentiun, que descreve as várias ordens como bispos, presbíteros e diáconos, também conhecidas como Ordens Maiores. As Ordens Menores para Santo Inácio eram sub diáconos, acólitos e leitores. Esta organização tem origem no século II, foi se impondo a toda a Igreja e pode ser encontrada nas Cartas de Santo Inácio de Antioquia, afirmando que o ministério deveria ser organizado tendo um bispo, um presbitério e alguns diáconos que executam as tarefas designadas pelo bispo.

Esta organização, que parece simples, contém diversos elementos que nos ajudam a entender melhor o sentido do episcopado. Temos a tendência de comparar esta autoridade com as autoridades exercidas na sociedade civil e política. E aqui reside um grande equívoco, pois a Igreja não é uma instituição equivalente às demais da sociedade. A Igreja sempre se constitui como uma instituição humana, semelhante às demais instituições sociais e políticas e, por isso, sujeita ao erro, ao pecado, e também como Mistério de Salvação, que não comporta o pecado. Por isso sempre costumamos dizer que a Igreja é humana e divina.

Ao tomarmos o Novo Testamento, onde o termo epískopos aparece quase sempre indicando diversas pessoas, quase nem se distinguindo dos presbíteros, ali encontramos um primeiro sentido para este ministério. São pessoas responsáveis ou dirigentes de comunidades cristãs. Porém, Paulo apresenta outras autoridades fundamentais na Igreja, que seriam os apóstolos, os profetas e os mestres. Santo Inácio de Antioquia considerava os presbíteros os sucessores dos apóstolos. E por isso, sempre recomendava aos cristãos das comunidades que fizessem tudo com o bispo e com os presbíteros. A autoridade episcopal não está dissociada da ordem do presbitério. Isso é muito significativo, pois demonstra que o poder do bispo não pode ser de mando autoritário como se fosse um ditador.

São Jerônimo apresentava a figura do bispo, não tanto como depositário de poder, mas expressão da unidade. Em conjunto com o presbitério, o bispo representa sempre o caminho de toda comunidade cristã em direção à unidade. Trata-se de uma liderança individual, a presidência de uma comunidade, contudo o sentido desta função remete sempre ao tema da unidade que muitas vezes aparece nos escritos do Novo Testamento, especialmente em São João. Em termos práticos, é anticristão termos alguma diocese dividida em suas Ordens Maiores. Quando bispo e presbitério ou parte dele caminham em sentidos diferentes, é hora de parar e refletir profundamente sobre como está sendo efetivada a unidade requerida por Jesus.

Santo Irineu e São Clemente de Alexandria reforçavam o sentido da sucessão apostólica na pessoa do bispo. E esta sucessão não é uma escolha sem critério ou indicação rápida, mas feita com critérios bem claros. Sucessoras são aquelas pessoas ensinadas pelos Apóstolos de maneira direta ou indireta e fiéis a este ensinamento. O sentido da autoridade episcopal reside na autenticidade do ensinamento. O que um bispo nos diz é como se fosse dito por um dos apóstolos. Então, a escolha de um bispo para a condução de uma comunidade deveria basear-se nesta direção. O poder do bispo não é um poder de mando e nem de capacidade administrativa como muitas vezes aparece nas dioceses, mas na força e fidelidade ao ensinamento apostólico. Santo Irineu acrescenta ainda, mais um critério; que sejam homens provados. O lugar do bispo não é para ser preenchido por pessoas inexperientes na vida eclesial ou carreiristas como o Papa Francisco admoesta na Igreja atual.

É muito interessante e significativo que na Igreja do século III já estava sedimentado o costume de uma ordenação episcopal precedida pela escolha feita pela assembleia do povo cristão tendo os presbíteros maior influência; a ordenação se dá com outros bispos impondo as mãos sobre o candidato escolhido garantindo assim a legitimidade da eleição. O candidato escolhido deveria aceitar sem questionamentos e servir de elo entre a Igreja local e a Igreja Universal. Santo Agostinho acrescenta outro sentido muito significativo: que o bispo escolhido seja antes de tudo um cristão. Ou seja, deve ser uma pessoa de profunda espiritualidade e fé cristã.

Em síntese, podemos afirmar com segurança que ao longo da história o sentido do episcopado abrange o carisma do bispo em ser um guia em vista da unidade, um elo de ligação entre a Igreja particular e a Igreja Universal, tem sempre a presidência para a edificação da Igreja (daí a presidência da Eucaristia), possui dimensões profética, sacerdotal e pastoral e, sempre o sentido desta função se reforça como um ministério colegial, tanto entre os bispos com o Papa, como entre o Bispo e o presbitério da Igreja Particular.

Edebrande Cavalieri

Doutor em ciência da religião

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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