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O preço das coligações

Em todas as democracias representativas há um problema que precisa de solução: a quantidade de vagas no Parlamento resulta em número inteiro enquanto a proporção de votos dados a candidatos ou partidos gera números fracionados. Digamos que uma Câmara de Vereadores tenha 10 cadeiras. Com quantas vagas deve ficar um partido que obteve 5,2% dos votos? 5 ou 6 vereadores? Para responder a este tipo de pergunta foram criadas as fórmulas eleitorais. Existem várias delas. Nenhuma é perfeita. Cada uma tem aspectos que são explorados pelos partidos. E cabe aos eleitores conhecer o sistema para saber se posicionar neste jogo.

A fórmula usada no Brasil privilegia os partidos e/ou coligações que conseguem angariar mais votos. Estes acabam ficando com uma proporção maior de “sobras” (aquela quantidade de votos que fica depois da vírgula). A distribuição destas sobras não é igualitária entre partidos/coligações. Os candidatos sabem disso e privilegiam a formação de coligações nas quais suas chances de eleição sejam maiores. Quem quer ser eleito, conta com uma base de apoio X, que faz com que seja o mais forte do seu partido. Mas este X o faria ficar mal colocado em uma coligação com candidatos mais fortes que ele. Então, como dirigente partidário, ele busca entrar em uma coligação com partidos mais fracos, na qual consiga ficar em boa posição na lista.

Muitas vezes, entretanto, os líderes partidários preferem sacrificar seus candidatos em favor de uma negociação para entrar em uma coligação, seja por conta do tempo de televisão para o candidato ao Executivo, seja por conta de um acordo com os “cabeças” da chapa proporcional. Ou seja, Fulano tem X votos e convida outros partidos que tenham candidatos fracos para sua coligação com o objetivo de somar sufrágios suficientes para que ele fique no topo da lista. Neste caso, vale a pena se juntar com partidos pequenos, somando os poucos votos de cada candidato mais fraco, que são transferidos para eleger os mais fortes. Vale notar que este tipo de negociação, pelo que se sabe dos bastidores da política e por um ou outro escândalo que surge periodicamente, costuma ser pago em dinheiro de caixa dois ou com emprego público, que será usado para a prática da corrupção. Alguns defendem o fim das coligações proporcionais para inibir este tipo de crime. Porém, o resultado é que esta lógica vai se deslocar para dentro dos partidos.

Assim, quando escolhemos uma pessoa na qual confiamos, mas que tem pouca estrutura de campanha, nosso voto será transferido para outro na coligação. Por outro lado, se optamos por um candidato de partido pequeno concorrendo isoladamente, a chance de ocupar uma cadeira é mínima. É o preço das coligações.

André Pereira
Doutor em Ciência Política e professor da UFES 

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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