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O MORRO VISTO POR QUEM MORA LÁ

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O que existe nos morros para além daquelas notícias comumente divulgadas sobre violência, tráfico de drogas e operações policiais? Quem conta são moradores e agentes de projetos sociais de Bairro da Penha, São Benedito, Jaburu, Jesus de Nazaré e Piedade.

Uma moradora da Piedade disse durante a conversa: “todo o mundo ficou falando e se dizendo preocupado com quem estava indo embora e ninguém se preocupou com quem ficou e vai continuar ali. E isso prejudicou, foi aonde eu me senti presa, não só pela minha família, mas por todos, a comunidade é a minha família”. A moradora se referia às famílias que após três assassinatos seguidos na comunidade abandonaram suas casas, e foram embora do bairro e viraram notícia. Mas esses abandonos, que também acontecem nos outros morros, segundo os moradores são pessoas que, na maioria dos casos, de alguma forma têm algum familiar envolvido no tráfico ou por morarem muito próximo das “bocas” (locais onde acontece a venda das drogas).

Ouvir os moradores é uma experiência única. Antes e depois dos conflitos, sejam eles entre traficantes ou entre estes e a polícia, a vida continua ‘normal’. Em todos, os moradores dizem que existem regras de convivência, muitas delas nascidas de acordos tácitos que deixam a vida correr normal. Há unanimidade de que a grande ameaça à normalidade da vida é a aproximação ou chegada da força policial ou conflitos entre traficantes de outros locais. Mas o que é vida normal nas comunidades dos morros? Na Piedade, por ainda estar muito viva a experiência dos assassinatos, normalidade é a resistência e a união de todos que em nada foi abalada: “um grito de socorro de um filho se tornou de todos porque só nós sabemos o que vivemos lá”, “A gente aprendia desde cedo a se unir em volta de tudo que tinha no morro. Não tínhamos água encanada nem luz, mas desde sempre os mais velhos nos ensinaram a aprender a se ajudar e é isso que o morro da piedade é, cada qual o que tinha partilhava com o outro”. Quando nenhum lazer existia a comunidade limpou uma área, fez um campo e criou um time de futebol. Lá organizavam campeonatos e subiam para ver os jogos dos filhos e parentes e partilhar a comida (polenta doce, canjicão e o famoso mocotó que até hoje se alguém falar que vai ter campeonato, o panelão de mocotó tem que estar lá no canto).

A capela São Francisco foi construída porque os Vicentinos acompanharam o esforço da comunidade para fazer encontros de catequese e círculos bíblicos debaixo de uma molenbá (figueira africana) quando não tinha um lugar adequado. Aos poucos outras iniciativas foram sendo criadas: roda de samba em cima de uma pedra ou num poeirão, capoeira que reúne as crianças e adolescentes, quadrilha que os moradores reinventam, caminhadas do círculo bíblico que envolvem toda a comunidade reunida numa casa. Essas são as iniciativas da comunidade para manter a união, mesmo sem nenhum apoio do poder público, sem ter um espaço para isso.

E foi assim também agora. No meio ao conflito a comunidade se uniu “Quando as crianças me perguntaram e agora o que a gente faz e o que vai acontecer, para onde nós vamos. Eu respondi: ‘vocês precisam sonhar e acreditar que é possível’. Aos adultos eu dizia ‘vamos permanecer nas nossas casas, cuidar delas. Se à noite a gente tiver medo vamos descer juntos com roupa do corpo, as crianças com cobertores e todos unidos dormir na quadra. De manhã nós subimos, ajeitamos nossas casas e se de noite a gente tiver medo, descemos de novo, todos juntos’ disse uma liderança. É assim que a comunidade reage permanecendo unida, celebrando junto, sendo apoio uns para os outros e se alguém precisar todos vão ajudar.

As comunidades dos morros Jaburu, Bairro da Penha e São Benedito também falam de união, mas ali a união foi conquistada a duras penas; as comunidades eram rivais entre si. Com o surgimento de vários projetos sociais e organizações comunitárias foram surgindo lideranças entre eles e criaram o Fórum Bem Maior. “As primeiras reuniões eram quase no grito, no tapa, era falta de diálogo mesmo, de você não saber discordar do outro, de ouvir uma crítica”, disse uma pessoa que acompanhou esse primeiro momento. Mas aos poucos as lideranças amadureceram e perceberam que ‘a união faz a força’ e que quando unidos, todos saem ganhando “As comunidades foram aprendendo com elas mesmas até chegar na época do orçamento participativo quando elas perceberam que brigando entre si nenhuma delas levava nada. Então, passaram a se unir e foi lindo de ver quando essas comunidades, que eram rivais, começaram a abrir mão de uma coisa por outra comunidade. O melhor exemplo foi apoio dado pelas comunidades de Itararé, São Benedito e Consolação apoiando e viabilizando a construção de uma creche no Jaburu”.

Essa união cresceu entre todas as instituições da região que eles chamam de Território do Bem, envolvendo os coletivos (pequenos grupos que se reúnem em prol de uma questão -empreendedorismo – juventude – discussão sobre a violência), as 8 escolas, organizações como o Atelier de Ideias, o SECRI e o Instituto João XXIII, sem esquecer que ali impera o tráfico e, às vezes, tem que haver, não um acordo, mas um diálogo para que eles entendam que o trabalho que os projetos desenvolvem não pode ser realizado com medo.

Território do Bem é o conjunto de comunidades (São Benedito, Penha, Itararé, Bonfim, Consolação, Jaburu, Floresta e Engenharia) que se reúnem no Fórum Bem Maior onde são discutidos os interesses da região e fazendo o trabalho de integração, pois entendem que a divisão territorial feita pelo governo da cidade obedece a características que não levam em conta o contexto local. O Fórum Bem Maior trabalha para derrubar as barreiras territoriais, levantar os problemas e trabalha junto para superar. “Esta visão política do Fórum é fundamental e otimiza muito o trabalho dos projetos dos agentes que atuam aqui, a minha vida como padre foi muito facilitada por essa articulação”. (pe. Kelder Brandão, pároco de Santa Tereza de Calcutá).

Os jovens que se formaram em curso superior são apontados como motivo de orgulho da comunidade e, só por isso, tornam-se incentivo para outros. Alguns passaram pelos projetos, entraram na UFES e se formaram como Alzirenes e que cursou Serviço Social e hoje trabalha no SECRI e outros que passaram pelo projeto de Judô, envolveram-se com o tráfico de droga, “voltaram atrás” como disse um professor de projeto e estão formados, trabalhando com paisagismo e na Petrobras.

Professores e membros de projetos expressam-se de maneira diferente, mas convergem no pensamento de que há necessidade de pensar alternativas naquele contexto e acreditam que o trabalho que realizam é para oferecer opções. O ponto de partida é a realidade concreta. Todos sabem que os moradores precisam conviver com o tráfico “É claro que não dá para dizer que eles não se misturem porque eles moram ali, eles convivem, eles estão ali todo o dia, eles vão dormir e acordar naquele local. Eu digo para eles não precisam ser seus amigos, mas quando você passar diga bom dia, boa tarde, boa noite porque o respeito é automático e aquela pessoa vai ficar invisível para eles”.

Um dos professores do projeto e o pároco da região entendem que o tráfico seduz “lá (no tráfico), no momento em que eles chegam são incentivados, eles são estimulados, às vezes são valorizados, compensados, eles recebem responsabilidades e isso a comunidade e as Igrejas precisam aprender”, disse o pe. Kelder. Eles veem isso quando chegam, os perigos e as dificuldades só aparecem depois.

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Jesus de Nazaré

Antes, depois e até durante os conflitos, os projetos continuam, as atividades continuam “Por todas as situações que já ocorreram neste território não há um risco ou perigo das instituições não funcionarem. Pelo contrário há necessidade das próprias famílias que a gente esteja lá, que os projetos funcionem, que as portas estejam abertas. Se fechar os projetos as mães precisam ficar em casa pra tomar conta da criança, de olho no jovem para que não saia pra rua”. Os conflitos, porém, afetam sim a rotina. As crianças têm medo dos policiais e, ao mesmo tempo, acham que aquilo é o máximo do poder. Um dia os policiais chegaram no SECRI para tomar água e a pessoa que foi atender pediu que eles não mostrassem as armas para não assustar as crianças, e eles responderam: “nós estamos fazendo nosso trabalho, nós somos polícia”. Quando eles entraram as crianças colocaram as mãos na cabeça e pediam pelo amor de Deus para eles não atirarem. Este é um exemplo de como a instituição policial é percebida dentro desse território.

“A gente tem situações de alguns adolescentes ou jovens que têm seu envolvimento com a criminalidade, mas se você pergunta o que ele quer, poucos vão lhe dizer que querem chegar no mais alto nível do tráfico de drogas, eles querem ser policiais para amedrontar como estão sendo amedrontados”, disse uma liderança.

O mesmo medo acontece no Bairro Jesus de Nazaré. A comunidade também tem regras de convivência com os traficantes, que são moradores do bairro e ali têm suas famílias. Os desafios são semelhantes às comunidades do Território do Bem, como falam lideranças religiosas e comunitárias. A comunidade propõe as ações no contexto, isto é, levando em conta a existência do tráfico e o medo das pessoas com relação à ação policial. Segundo as lideranças ouvidas, o tráfico não impede as atividades, em contrapartida as ações policiais amedrontam e quebram a rotina. A presença da polícia intimida e assusta, mesmo aqueles que acreditam que a polícia faz seu papel. A quadra do bairro, por exemplo, é usada por uns e outros; cultos, missas, palestras, atividades esportivas e tráfico. Os moradores aprenderam a conviver com isso ““a vida é normal porque os traficantes são radicados ali, eles têm família lá e eles sustentam essas famílias. Por isso ninguém entrega porque se eles forem presos não entra dinheiro naquelas casas”.

Também ali a rotina é afetada apenas durante os conflitos, depois tudo continua normal.
As atividades das Igrejas e organizações, a escolinha de futsal (Projeto Eu Acredito em Mim) cinema e teatro na quadra, projeto mão na massa, jiu jitsu e capoeira, encontro de vinil, cursos ofertados pela AJUDES (Associação dos Servidores do poder Judiciário do Espirito Santo) que tem programado para agosto um curso de corte e costura para mulheres donas de casa que não têm emprego fixo.

Apesar de convivência a comunidade gostaria que o tráfico não existisse e por isso, se empenha em criar alternativas para afastar os jovens do tráfico “a gente procura oferecer outras alternativas porque a gente sabe que o caminho do tráfico é difícil de sair. Quem entra sabe coisas que eles não querem que se saiba, então é difícil sair. A maioria morre ou é presa”.
Ao contrário do Fórum Bem Maior, que se organiza politicamente em busca do bem de todo o território, em Jesus de Nazaré a organização comunitária está ligada à política partidária, e isso é apontado pelas lideranças como um empecilho aos projetos. Quando um grupo luta para conseguir algum bem o outro tenta derrubar para impedir que esse leve o mérito e o reconhecimento da comunidade.

Também neste bairro o medo da polícia fica evidente. “A banda da polícia militar foi tocar o ano passado na festa da comunidade, os dois lados ficaram com medo: a comunidade perguntando se eles iam subir o morro e foi preciso explicar que seria na quadra que fica na base do morro e que as armas deles eram flauta, trompete etc… e eles (banda) também perguntando se poderia alguém chegar com arma e tentar fazer-lhes algum mal.

E como então olhar para essa realidade e ir além de estabelecer regras de convivência que permitem a comunidade crescer e incluir a todos? Um líder do Bairro Jesus de Nazaré disse que os traficantes pedem para colocar os filhos nos projetos. O padre Kelder confirmou que esses pedidos também acontecem no Território do Bem “eu ouvi de um gerente que me dizia olhando nos meus olhos, ‘padre eu não quero que os meus filhos tenham a vida que eu tenho’, pra mim não era um traficante que estava falando era um pai de família”.

REPORTAGEM SÃO BENEDITO
São Benedito

Então que o território do bem seja o território de todos os bairros. Que as iniciativas positivas das comunidades sejam convincentes para as novas gerações e que essas ‘periferias existenciais’, como disse padre Kelder usando as palavras do Papa Francisco sejam re-evangelizadas: “… e para falar do lugar de Igreja (os traficantes) são pessoas que precisam ser reconhecidas para poderem serem evangelizadas ou re-evangelizadas, porque muitos nasceram nas nossas pias batismais, eles se desviaram e nós não soubemos cultivar a fé. É nosso dever agora ir ao encontro dessas pessoas que estão nessas periferias existenciais”.

Maria da Luz Fernandes
Jornalista

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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