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O cinismo como modo de vida

Eis que seguimos vivendo, mas afastados do que somos. E o que somos? Somos uma realidade, não uma idealização. Somos um mundo, não uma abstração. Somos um corpo, não uma névoa. A vida assim, real, vibrante, feita mais de confrontos e adversidades do que de facilidades e felicidades – o que nos desafia a cada momento – é a presença mais imediata da verdade.

Quase nunca suportamos o que acontece. Quase nunca damos às coisas os nomes que elas têm. Buscamos mil formas para escapar do que se nos apresenta. Surgem as idealizações e mentiras que nos consolarão. Mas, afastados da vida e da realidade enfrentaremos sérias dificuldades, e perderemos a experiência da vida como ela é, com suas contradições, ambiguidades e fragilidades, mas também com suas belezas e forças. Que pena não termos a coragem para ver a realidade, para nos darmos à vida, para que a reconheçamos como verdade! O que a vida não é? Não é mentira. Mesmo que a cubramos de mentiras.

Essa maneira de viver implica por consequência em negação da vida mesmo que não percebamos isso. Ela em si mesma é desvalorizada em função das idealizações que fazemos, donde surge um cultivo naturalizado da ilusão, da mentira.

Este cultivo se dará dentre outros modos, especialmente na contemporaneidade, pela expectativa de uma felicidade que se embutiu como desejo no coração de todos e que propõe a posse e o consumo das coisas como maneiras de se obter esse estado. Trocamos a vida por coisas que queremos possuir. Criamos assim todo um jeito de existir em que acreditamos que viveremos, e viveremos bem e felizes se nos apossarmos das coisas.

Ou seja, mentimos para nós mesmos ao colocarmos na ilusão da posse das coisas o desfrute da vida.

A maquina social é, portanto, produtora e promovedora dessa vida em que nos vamos afastados de nós mesmos e da realidade. A ilusão e a mentira já não podem ser apenas analisadas como de responsabilidade do sujeito. Quase não é mais uma questão de escolha ser capaz de dar às coisas os nomes que elas têm. Quase não é mais uma questão de escolha ser capaz de mentiras ou verdades. Como nos é difícil reconhecer as mentiras que nos governam e das quais somos mantenedores, damos o passo seguinte: criar para elas uma roupagem de verdade. Tornamo-nos cínicos.

O cinismo contemporâneo se mostra, então, como o oposto do que a antiga escola grega propunha. Resumidamente o kinismo propunha: 1. Atyphia. Ter sempre os olhos e as mentes desanuviados. Ver as coisas nelas mesmas. 2. Autarkeia. Recorrer às próprias forças, enfrentar com base nelas as adversidades. 3. Parrhesia. Ter a coragem da verdade. Ser capaz de dizer a verdade. Chamar as coisas pelo seu nome.

Contemporaneamente temos o seguinte como cinismo: 1. Ter lentes para ver apenas o que interessa. 2. Sentir-se merecedor sem esforço. Abominar as adversidades. Passar por cima de tudo para ter uma vida de facilidades. Não enfrentar as desventuras, e quando elas vierem encontrar culpados. 3. Mentir de tal modo que a mentira ganhe caras de verdade. O absurdo é naturalizado: negar a vida para afirmar a mentira.

Mas se os tempos são difíceis também eles, bem ou mal, nos apelam para buscarmos outros modos de viver e que sejamos capazes de reconhecer a vida como verdade.

Como diria Michel Foucault ela é a presença imediata, brilhante, selvagem da verdade. De onde, então, surge uma urgência: exercer a vida, e por ela exercer o escândalo da verdade.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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