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“O Brasil nos salvou da loucura”

IMG_20160614_161907112_HDR Brasileira de coração, a argentina Ana Caracoche conta o que passou durante a ditadura em seu país, a sua acolhida no Brasil e a militância nos direitos humanos.

vitória - Como foi o momento da separação dos seus filhos?

Ana Caracoche - O momento foi muito triste, dramático, desolador, aniquila a pessoa. Quando eu desapareci, a Maria Eugênia tinha 1 ano e 4 meses e o Felipe tinha 4 meses. Ela desapareceu com a família Abdalla, quando eu tinha viajado a Buenos Aires com Felipe para uma consulta médica. Um mês depois, eu e Felipe fomos levados também.

 

vitória – A senhora acreditava que seria possível reencontrá-los?

Ana - Sempre pensei no reencontro. A minha opção política foi por causa da Igreja, eu participava de movimentos, de encontros com jovens que faziam a opção pelos pobres. Em 1980, após um período de desaparecimento e tortura na Argentina, viemos para o Brasil com nossa filha Maria Paz, e fomos recebidos por pessoas diretamente ligadas à Arquidiocese e contamos a nossa história. Eu lembro de Cláudio Vereza, Renato Gama, Dante Pola, os primeiros que conhecemos, e Dom Luís Gonzaga que foi escutar a gente. Eles sempre falavam que nós iríamos encontrar nossos filhos. Eu falo que o povo brasileiro que nos recebeu naquele momento nos salvou da loucura. Em 1984 voltamos à Argentina no momento que teve o processo de restituição das crianças à família legítima, a partir de um trabalho das Avós da Praça de Maio. E foi interessante quando trouxemos nossos filhos ao Brasil, já crescidos com 8/9 anos, era uma conquista de todos os nossos amigos, não somente nossa. Esse apoio foi fundamental para conseguirmos a restituição das crianças naquele tempo. É interessante como essa ideologia perdura através do tempo. Foi uma luta de 40 anos. Por isso, na Argentina hoje se diz: ‘nenhum passo atrás’.

 

vitória - O que a senhora diria para as pessoas que pedem hoje o retorno da ditadura?

Ana - (Risos). Quem diz isso não sabe o que significa perda da democracia. Na ditadura você não pode dizer nada, você é perseguida por não estar pensando como os ditadores pedem e o sofrimento não é somente da pessoa que sofre tortura, é de famílias, da sociedade inteira. Na Argentina diziam: ‘por alguma coisa é’, sobre os que desapareciam, mas desapareceram crianças, idosos e gente que lutava por um país melhor, pela igualdade. Quem está dizendo isso não tem ideia, não estudou história, não sabe das pessoas desaparecidas, mortas. O sofrimento atinge a todos, dói muito para uma sociedade. E veja bem, 40 anos depois, na Argentina, ainda tem um processo para procurar e identificar os mortos para a família poder enterrá-los. Mas alguns cadáveres foram jogados no Rio de La Plata (plano Condor) e nunca serão encontrados. Como se supera isso? Fica marcado para toda a vida, o continente fica marcado. Esse discurso não tem validade nenhuma para o bem-estar da sociedade.

 

vitória - Qual é a marca mais forte deixada pela ditadura?

Ana - No momento da tortura é se sentir nada, uma pessoa anulada, que não serve para nada, porque está nas mãos de outro, então não pode decidir nada sobre sua própria vida. A superação veio por essa busca, pela fé que eu tenho no ser superior, isso é importante. Tudo o que eu vivi, faço muito esforço por esquecer, mas chega um momento que eu preciso novamente dizer, porque se eu não falar a história deixa um buraco, e isso deve estar bem claro. Eu vou ser um pontinho na história e, para mim, é toda uma vida.

 

vitória - Como superar?

Ana - A superação se dá pelo entendimento desse querer fazer da melhor forma possível todas as coisas. A gente não está aqui para perder tempo, e sim para um projeto maior de humanidade, de igualdade num lugar como o Brasil, em que a igualdade é uma coisa muito difícil em todos os âmbitos.

 

vitória - Havia alguma estratégia para tentar manter a lucidez, a memória, diante da agressão e tortura?

Ana - Sempre recordar o que eu tinha vivido até então. Lembro quando desapareci, fui torturada e depois colocada em um centro de detenção clandestino chamado La Cacha, como “a bruxa” que fazia desaparecer as pessoas. Em 2015 eu tive a oportunidade de participar da condenação daquelas pessoas que estavam em La Cacha e participaram das sessões de tortura. Meu nome era indicado dentro deste juízo porque eu estive desaparecida, com a história de duas crianças desaparecidas restituídas, e estava viva. Eu tive essa vitória, reconheci as pessoas e a justiça determinou que as pessoas que nos torturaram fossem condenadas a prisão perpétua.

 

vitória – O reencontro com sua família, como se deu?

Ana - Desde que chegamos ao Brasil, nós mantivemos uma articulação com as Avós da Praça de Maio e com os organismos internacionais para fazer a denúncia de que meus filhos estavam desaparecidos. Uma equipe com psicólogos, médicos, assistentes sociais, advogados, enfim, uma equipe multidisciplinar das Avós pensava a forma de restituição. Em 1984 Felipe foi restituído. Uma família, aparentemente bem-intencionada, tinha-o adotado com uma certidão falsa. Havia um trabalho paralelo às denúncias sobre crianças desaparecidas, de histocompatibilidade genética, que naquele tempo não existia e as Avós viajaram por todo o mundo para ver essa questão. Precisamos dele para Maria Eugênia que foi restituída em 1985. Ela estava com uma pessoa das Forças, então este caso foi muito complicado. Entramos na justiça e o exame de compatibilidade deu 99,96%, porque nós éramos os dois pais vivos e ela tinha três irmãos. E aí veio todo um processo para a mudança de nome. Veja as consequências, são graves, para a justiça, para a família. Mas mesmo assim nós conseguimos.

 

vitória – Qual a sua relação, seu laço com o Brasil e com a Argentina?

Ana - Na Argentina tenho minha família, tenho muitos amigos, então eu vou lá para visitá-los. A Argentina é linda, é minha terra mãe, lá é muito bom. E no Brasil eu já tenho meus quatro filhos com suas famílias, meus sete netos, tenho um laço cultural muito forte. A minha acolhida aqui pelos brasileiros também me faz ficar. No passado ficamos aqui na condição de refugiados e hoje temos muitos vínculos e amizades.

 

vitória – Em que momento ou circunstância a senhora percebeu que poderia retomar a sua vida, com sua família unida novamente?

Ana - Em 1985 minha família já estava completa. Em 1989 a situação de insegurança política na Argentina e as ameaças fizeram com que retornássemos ao Brasil decididos a ficar. O Brasil nesse acolhimento foi muito significativo, porque quando nós viemos para cá como militantes políticos, nos encaixamos na área dos Direitos Humanos, pois as coisas que tinham acontecido reforçavam essa militância. Eu trabalhei no sistema prisional da secretaria da Justiça do Estado, como coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos e me esforcei bastante para humanizar o sistema. Isso ficou marcado na minha vida. Quando você milita, pensa que pode fazer a vida melhor e isso foi o que ficou da minha militância, em um lugar difícil. De todas as militâncias de direitos humanos acho essa a mais difícil de todas. Quando eu saí pensei: “dever cumprido, já cumpri minha parte na história”. E até o último momento vou continuar fazendo porque entendo que é o mais importante que eu posso fazer pela pátria, a pátria que me acolheu.

 

vitória – E como avalia o momento vivido pelo Brasil?

Ana - O que acontece hoje no Brasil, eu sinto com o mesmo sofrimento do que vivi antes. Muitas coisas se repetem: Um plano para a América Latina de aniquilamento do pensamento de esquerda e o avanço da direita. Na Argentina acontece a mesma coisa, todo dia é uma diminuição de direitos das pessoas.

 

vitória - Como é ver isso acontecendo?

Ana - Com tristeza… Mas, mesmo assim sou de descendência Vasca e os vascos são teimosos. As coisas na vida não saem do jeito que a gente quer. A possibilidade de um fato negativo se transformar em algo melhor em todos os âmbitos, é possível. As coisas que a gente faz marcam a história do país.

 

vitória - A senhora continua militando pelos direitos humanos?

Ana - Sim! Agora eu quero passar minha experiência e fazer a multiplicação dessa história, para não desperdiçar a vida (risos).

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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