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O BEIJO NA LITURGIA

O beijo, simplesmente o beijo. Em sua anatomia e efeitos no corpo humano, não há como restringi-lo a uma definição (mas é necessário defini-lo?), seja como atitude instintiva ou aprendida. Ele pode ser compreendido como um gesto de amor (filial, fraterno, amistoso ou sexual), de cordialidade, de sociabilidade, mas também poderá ser uma expressão de falsidade, de traição (o beijo de Judas, por exemplo – cf. Mc 14,44). Enfim, não há uma definição absoluta sobre a função que o beijo cumpre, mas ele vem cheio de elementos de comunicação interpessoal, sendo um canal aberto de comunicação e expressão.

Nas ações litúrgicas, o beijo marca a relação de intimidade e comunhão da Igreja para com Cristo, na referência da Nova Aliança. Não se trata de fomentar uma ficção, um romantismo ou um emocionalismo, que podem ser limitados ou tendenciosos, mas se trata de explicitar, ritualmente, o autêntico amor que, em Cristo, tudo abarca – essência do seu Mistério.

A primeira recordação é o beijo que se dá no altar, no início e na conclusão da liturgia eucarística, por quem preside a celebração (também pelos presbíteros concelebrantes e pelos diáconos; em algumas realidades, por ministros leigos que presidem a liturgia da Palavra): sinal da Esposa – a Igreja – que beija o Esposo, em amor e cumplicidade. Possivelmente, nem sempre esse gesto será feito, como também notado, com a intensidade e expressão que deveriam ter: requer aprofundamento teológico-litúrgico e a espontânea liberdade afetiva por parte de quem realizá-lo.

O livro da Palavra – Evangeliário ou Lecionário – também é beijado por quem proclama o Evangelho na liturgia da Palavra, marcando a íntima comunhão da Igreja com o Cristo-Verbo, no diálogo perene da Aliança. É este diálogo que aprofunda e amadurece a afetividade, harmonizando os cristãos para a vivência cordial e solidária do amor e da caridade, na fé renovada, na perseverança fraterna, de esperança em esperança.

Na Quinta-Feira Santa, no rito do lava-pés, é costume beijar os pés dos discípulos após lavá-los. Na liturgia da Sexta-Feira Santa todos beijam a cruz em sinal de adoração ao Cristo, em sua exaltação pascal. Em outros momentos celebrativos pode-se oportunizar de beijar o crucifixo, assim como as relíquias da Santa Cruz.

O beijo da paz entre os fiéis, na liturgia eucarística, é um dos sinais litúrgicos mais antigos das primeiras comunidades, conforme Rm 16,16 ; 1Cor 16,20 ; 2Cor 13,12 e 1Pd 5,14 (geralmente utiliza-se nas traduções a palavra ósculo).
Até o século IV era costume dar o beijo antes da partilha dos dons (oferendas); daí em diante, transferiu-se o gesto para antes da comunhão eucarística, pois a comunhão com Cristo é realidade na comunhão fraterna.

O beijo se faz gesto de acolhida: na liturgia de ordenação, os que foram ordenados diáconos e presbíteros são beijados pelo bispo, assim como pelos demais ministros ordenados (isto se dá conforme os costumes locais, de acordo com a tradição cultural); na confirmação, o bispo beija os crismados (a critério das conferências episcopais); no matrimônio, os esposos beijam-se em sinal de amor e aliança; na liturgia com o rito da profissão religiosa, o beijo aos neoprofessos (conforme o costume das famílias religiosas).

Que a autenticidade e a dignidade do gesto de beijar em âmbito litúrgico seja a feliz comunicação da vida que brota da nova e eterna Aliança em Cristo Jesus!

Fr. José Moacyr Cadenassi
Franciscano capuchinho, letrista, cantor, consultor de liturgia, apresentador de rádio e agente de ecumenismo e diálogo inter-religioso

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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