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O aprendizado e as lições de um povo simples

Graça Neves é uma leiga, missionária por vocação. Nessa entrevista ela conta, entre outras, a experiência vivida durante 33 dias na Província de Tete, no Moçambique. A missão em meio a um povo simples e acolhedor, fortaleceu seu lado espiritual e a sua vocação de se colocar a serviço.

Entrevista

vitória – Como surgiu a oportunidade de ir para essa missão?

Graça Neves – Tenho um irmão que é jesuíta e está lá na África há 12 anos, mas eu nunca pensei em ir, apesar dele sempre chamar. É uma viagem muito longa, faltou coragem. Mas um dia eu decidi. Acordei em um domingo e disse: eu vou pra África, a partir daí eu não tive medo, me enchi de coragem e fui.

vitória – Como foi a sua experiência?

Graça Neves – Quando eu saí daqui sabia da necessidade de se montar o Centro de Formação dos Jesuítas e meu irmão mandou uma relação de coisas que a gente poderia fazer para ajudar: decorar, organizar a rouparia, foram 33 dias dedicados a organizar esse local. O Centro fica em Moçambique, se chama Centro de Formação de Satemua. Lá possui vários alojamentos, casas de apoio, auditório, e já estava em funcionamento mesmo com toda a precariedade. O Centro recebe grupos para encontros de igrejas e ONGs. A Igreja lá é muito atuante, como diz o nosso Papa, o pastor tem que ter o cheiro das ovelhas e eu senti isso muito de perto lá.

vitória – Você já havia feito uma experiência missionária antes?

Graça Neves – Quando eu tinha 22 anos fui para a Ilha de Marajó. Fui com essa coisa de querer viver. Tinha terminado meu curso de Letras e queria ir para uma região onde não tivesse um mercado saturado. Entrei em contato com esse meu irmão e pedi para que ele me indicasse um local onde uma pessoa com licenciatura fosse necessária. Ele me mandou uma relação de lugares, inclusive aqui em Vitória. Quando chegou a carta e eu li as indicações, também não sei explicar por quê, escolhi Ilha de Marajó. Foi uma experiência fantástica, lá eu me reconheci, conheci o meu marido, lá nasceu meu primeiro filho, fui diretora de escola, tenho minhas comadres, e hoje pelo Facebook tenho ex-alunos que estão formados, foi um trabalho maravilhoso. Fui para fazer um ano de experiência e fiquei por anos.

vitória – A partir da vida que levou e a sua mais recente experiência, qual o maior aprendizado que carrega?

Graça Neves – Acho que não tem caminho melhor para a gente crescer do que estar aberto a esse serviço. É um amadurecimento como ser humano. Eu voltei da África mais humana, entendendo melhor as coisas, as questões sociais. Porque o que eu vi lá, com toda aquela diversidade, por exemplo: a noite caía uma chuva, tempestade e a gente bem protegido no Centro, mas eu pensava naquelas casas das comunidades cobertas de palha. No outro dia, eles chegavam como se nada tivesse acontecido, cumprimentando a gente com um sorriso largo, com alegria, quer dizer, eles convivem com aquilo e continuam felizes. Tudo é motivo para eles cantarem. Quando eu distribuí roupas lá, porque um dos trabalhos era organizar umas doações que chegaram da Itália, no final eles começaram a cantar e eu não entendia muito bem. Meu irmão me disse ‘olha, eles estão cantando para você, estão te agradecendo, é a forma deles agradecerem’. Em outra ocasião eu fui até uma casa mais afastada com eles e no carro era aquela cantoria pela estrada, naquela alegria. Um dos funcionários que estava lá traduziu para mim e eles cantavam: Obrigada, visita! Eu te estendo as mãos, eu te recebo de coração. Nossa, como eu chorava! Só de olhar aquele carinho, eles têm muito do toque, de abraçar. Com essas pessoas eu aprendi que o que dá serenidade é o próprio Deus. Você tem que fazer alguma coisa, mas não é a minha presença lá, não é a presença do padre, quer dizer a gente ajuda, mas se a gente sair eles vão continuar sendo felizes do modo deles. Aí a gente vai ver porque a opção de Jesus pelos pobres. Eles conseguem ser muito mais fraternos do que a gente.

vitória – A mística da celebração é muito diferente da nossa?

Graça Neves – Completamente! A missa dura quase duas horas, mas se o mundo acabar naquela hora, você nem vai sentir falta, porque a alegria e o sorriso com que eles falam é maravilhoso. Eles não têm missa como a gente, que se quiser assiste todos os dias da semana. São muitas comunidades e poucos sacerdotes, então é uma ou duas vezes por ano. É tudo muito simples, mas muito bem organizado. A liturgia é uma festa para eles, é a oportunidade deles valorizarem aquele momento. Não têm energia na Igreja, pelo menos nas duas comunidades que eu fui, mas eles levam o teclado e ligam em bateria de carro. Talvez a gente precise enriquecer mais o nosso lado espiritual, para entender como eles conseguem manter a sintonia. Depois, a mesma mesa que serviu de altar, é a que serve o alimento. Eles preparam a massa e todos comem juntos em volta, com a mão, na maior simplicidade.

vitória – Essas crianças moram no Centro de Formação?

Graça Neves – Não. O mês de janeiro é de férias escolares lá, então eles ficam como colônia de férias. São crianças órfãs e os jesuítas têm um programa que chama Casa Lar. O programa mantém com um salário, geralmente viúvas ou mulheres que não tiveram filhos, que se dedicam a serem mães postiças desses órfãos. Eles estão inseridos em uma comunidade, que ajuda também a manter aquelas crianças. Lá não tem casas isoladas, eles estão sempre juntos ali. As crianças levam uma vida normal, chamam as mães de mãe mesmo, é um projeto muito bonito.

vitória – O Papa Francisco fala da Igreja em saída. Isso representa o seu sentimento?

Graça Neves – Olha, isso é de cada um. Estar vivo nesse mundo tem que despertar esse sentimento, senão a gente cai no vazio, numa falta de sentido. A pessoa que não consegue entender esse estar para o outro deve ser muito triste. Eu gosto de servir estando no meio das pessoas, sempre procuro me engajar em alguma obra, mas eu acredito que as pessoas sejam assim, cada um do seu jeito.

vitória – Você também desenvolve um projeto social em Laranjeiras. Como surgiu?

Graça Neves – Ao sair da Ilha de Marajó, eu continuei morando no Pará com minha família. Saí de toda aquela história, daquela cidade onde a gente idealiza tudo junto, sempre engajada em projetos sociais e quando cheguei aqui, arrumei minha casa, achei ótimo, mas passou. E começou aquilo que eu disse, um vazio, questionamento sobre o que fazer da minha vida. Pedia a Deus para que eu me engajasse em alguma coisa, até que um dia eu acordei com o projeto montado na minha cabeça. Começamos e já estamos há nove anos. A ideia foi reunir pessoas que estavam na mesma situação que eu para produzir algo para os bebês e gestantes carentes.

vitória – A Igreja teve influência na sua caminhada?
Graça Neves – Eu acho que foi a Igreja doméstica. Eu nasci na roça, minha mãe era professora. Eu aprendi com ela e com meu pai o jeito de rezar, porque eu cresci com a família reunida na copa rezando o terço todas as noites e vendo a maneira como eles repartiam tudo o que tinham com os meeiros na época. Quando chegava Natal fazia aquela fila, sempre tinha alguma coisa para dar pra cada família. E eu fui crescendo vendo aquilo. Minha família foi meu grande exemplo.

vitória – Você consegue classificar uma experiência na África que mais te tocou?

Graça Neves – Eu tive uma experiência que precisei ter muita fé. Faltava uma semana para eu voltar e comecei a sentir muita fraqueza, a minha voz quase não saía mais, eu tremia muito e, há menos de 2 anos eu tivera arritimia, então fiquei com muito medo, pois nessa manhã eu acordei ouvindo o barulho do meu coração. Após alguns dias me sentindo muito mal, o rapaz no Centro falou que era malária. Fui para a vila, fiz os exames e eu estava realmente com malária. Foram três dias tomando 8 compridos por dia. Eu fiquei acabada no quarto, não tinha coragem para nada, eu suava muito, não comia, só tomava água. Dois dias depois eu estava um pouco melhor, mas quando eu cheguei no quarto à noite, a minha perna estava toda vermelha, cheia de placas, de reação ao remédio. Isso era na quinta-feira e eu viajava no domingo. Então eu digo que foi uma experiência marcante, porque você não espera isso depois de terminar um trabalho desse, e foi a hora que Deus foi mais carinhoso comigo. Eu vim de lá com minhas pernas inchadas, vermelhas, correndo o risco deles não me deixarem viajar por causa da doença. Meu irmão queria dar uma lembrança para eu trazer, e na última missa lá, eu pedi para ele me dar uma bênção e fazer o meu envio, porque eu queria me sentir forte. Quando eu saí daqui o padre João Marcelo me abençoou e disse que daria tudo certo, e eu me apeguei nisso: vai dar tudo certo. Mesmo com a doença e minha fraqueza, em nenhum momento eu me senti chateada, porque eu não queria tirar a beleza de tudo que eu tinha vivido ali. Deus me preparou muito bem para isso.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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