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Novo fórum para discutir ações comuns entre Igrejas e sociedade organizada

Com o objetivo de reunir Igrejas cristãs e movimentos sociais para um apoio conjunto às lutas de cada grupo, o vicariato para a Ação Social, Política e Ecumênica realizou o primeiro encontro com o tema Igreja e Sociedade em Ação. A ideia foi bem acolhida por todos os membros participantes e transformou-se em fórum permanente que fará planejamento e calendário de ações, a começar pelo Grito dos Excluídos.

Anseios e expectativas no rosto de todos. Lembranças e, principalmente, alegria pelo encontro, nas palavras e abraços entre aqueles que há algum tempo não se encontravam. Nas palavras a saudade de um passado de confrontos, conflitos e muita luta e o desejo de resgatá-lo.

Mas será possível resgatar o passado? Para o filósofo Espinoza, o passado e o futuro criam imagens na mente das pessoas, e elas se transformam em presente. Quando essa imagem é forte, provoca alegria, se for fraca provoca tristeza. E alegria foi o que reinou entre os participantes. Passado, presente e futuro se misturavam nas expressões e geravam a sensação de estarem mudando o presente, como disse o pastor Kenner Terra, da Igreja Batista, na Praia do Canto. “Minha expectativa é que as Igrejas possam ter a capacidade e a sensibilidade de dialogarem e juntas produzirem um movimento, aqui na nossa região, de forma ecumênica, sensível, a ponto de influenciarmos de forma significativa e gerarmos transformações estruturais sérias e significantes”.

O arcebispo de Vitória, dom Dario Campos, deu a indicação daquilo que espera ser a motivação para as atividades: “A minha palavra partirá da manifestação do Senhor a Moisés, momento no qual Ele se coloca ao lado do seu povo escolhido, até chegar ao texto do Bom Samaritano, muito conhecido por todos nós. Nestes dois textos sagrados, encontrei três elementos que gostaria de partilhar com vocês. O primeiro diz respeito ao Encontro, o segundo refere-se à Conversão do olhar e, o terceiro, por sua vez, aponta para a Responsabilidade com a defesa da vida”.

Encontrar e converter o olhar para defender a vida, exige atenção à realidade de hoje, pois como diz o médico e psicanalista Marcelo Guerra “resgatar o passado é justamente tirar a sua vida de lá e trazê-la para o presente, deixando de ser refém do que passou, repetindo padrões que já não cabem mais”.

Nas expressões dos desejos e expectativas, os participantes do Encontro, apontam querer novas atitudes e novas ações. Tiago Xavier, membro da Comunidade Água Viva assim expressou: “a minha expectativa é ver na prática o que possa ter comunhão com a sociedade e a Igreja, para que juntos possamos alcançar essas pessoas, não só os que sofrem de depressão e síndrome de pânico, mas também os mais pobres e mais desfavorecidos”.

Tiago olha o presente com os problemas novos do mundo de hoje e, como solução, sugere a comunhão entre as entidades que se preocupam com essas populações. Ele tem o apoio de Maira, da pastoral da juventude, que levou como expectativa o desejo de mais diálogo entre os movimentos sociais e o entendimento de que “ser cristão não é só das portas da igreja para dentro, mas nas ações concretas do dia a dia, no trabalho, na escola e na família”.

Ser cristão nas ações concretas do dia a dia é, no dizer de Dom Dario, “conversão do olhar. Algo tão necessário neste tempo em que vivemos, no qual a vida só é bela quando vista pelos vários filtros das redes sociais”.

De fato o mundo real é bem diferente. No Encontro Igreja e Sociedade em Ação, estavam representantes da Pastoral do Povo de Rua, Coletivo Mães de Deficientes, Levante Popular da Juventude, Movimento dos Atingidos pelas Barragens, entre outros e, cada um de seu jeito, levantava sua bandeira e confiava no trabalho conjunto. “A realidade do povo de rua aumenta a cada dia. Muitas pessoas estão indo para as ruas por diversos fatores: desemprego, drogas, famílias desestruturadas, mas essa é uma situação provisória [...]. A gente percebe neste encontro a mobilização e, a partir daqui, essa bandeira do povo de rua vai ter muitas mais mãos pegando-a”, disse Marcelo. “A minha expectativa é que a Igreja reflita sobre várias situações que tem acontecido e que são violações de direitos. Vivemos um momento extremamente de fascismo onde a solidariedade com o outro diminui, então, a gente precisa firmar essas discussões, esse resgate, e precisa principalmente que a Igreja e os movimentos sociais coloquem o princípio da solidariedade dentro das missas, porque é disso que a sociedade está precisando”, desabafou Lúcia.

“Pelo menos para o Levante, todas as vezes que a gente teve construções com vários grupos que estão aqui, a gente conseguiu caminhar bem, seja na construção de eventos, coisas momentâneas, seja de processos mais longos que temos experiências como o Curso Realidade Brasileira”, disse Alana.

Já para Eider do Movimento dos Atingidos pelas Barragens, a expectativa é de que os movimentos populares se fortaleçam “o meu movimento, por exemplo, nasce de uma atuação que a Igreja teve na década de 70/80 em que muitas vezes a organização era até clandestina. Mas isso virou passado, que na década de 90 e 2000 não se repetiu. Agora a gente chegou num momento crítico da política brasileira e a Igreja se ausenta de debates centrais para o Brasil. Este tipo de encontro recoloca a Igreja no centro do debate e o que nos anima é que é um chamado da Igreja. Poderíamos ser nós dos movimentos provocando a Igreja, mas é o contrário, a Igreja está se cobrando, se colocando de novo no centro da polêmica, da crítica e do debate. A nossa expectativa é que daqui a gente consiga, eu não digo repetir a história porque a história não se repete, mas que a gente consiga, e a Igreja consiga, retomar o processo de fomentar a organização popular de base. Sem base organizada não há mudança real em nossa sociedade. Mas essa base para ser organizada, precisa ser provocada, precisa ser instigada e eu acho que a Igreja tem plenas condições de fazer isso. Hoje a Igreja tem mais condições de que naquela época, pelo Papa que a gente tem, mesmo o Brasil sendo totalmente diferente, é claro, os cenários são bem distintos”.

Nas palavras de padre Kelder Brandão, Vigário para a Ação Social, Política e Ecumênica, a expectativa em relação à Igreja faz sentido pelo fato de que “muitos movimentos surgiram nas ‘sacristias’, a partir das atividades das paróquias e Comunidades Eclesiais de Base e do empenho dos padres que sempre estiveram comprometidos com essas pautas. [...] O ano passado eu falei sobre isso e disse que a Igreja é como uma mãe dos movimentos sociais aqui no Espírito Santo. Não de todos, mas de uma boa parte. Muitos surgiram da Igreja e, por isso, têm com ela essa simbiose histórica”. Não resisti e perguntei se como Vigário do novo Vicariato estava pronto para essa “maternidade dos movimentos” e ele respondeu: “tô nada, a gente nunca está pronto, mas o Espírito dá uma forcinha e a gente vai continuando fazendo o que sempre fez desde quando estava no seminário”.

Mas afinal o Encontro Igreja e Sociedade em Ação é uma volta ao passado, um resgate ou uma perspectiva futura? Logo no início do Encontro, pe. Kelder dirigiu-se aos presentes e motivou deste forma: “Nós, Igreja e Sociedade Civil Capixaba temos uma caminhada histórica longa e hoje somos motivados por Dom Dario a olhar para essa caminhada contemplado as inúmeras conquistas que alcançamos juntos ao longo do tempo, mas sem ficarmos presos ao passado, lembrando o período da escravidão ou as cebolas do Egito como fez o povo da antiga aliança. Pelo contrário, muito pelo contrário, como nos ensina Jesus, cada tempo tem os seus próprios desafios e são os desafios de hoje que nós precisamos enfrentar com criatividade, mais do que nunca, precisamos fincar os pés na história que estamos construindo hoje e, assim, de forma criativa e generosa, dar a nossa contribuição na construção do amanhã que queremos para nós e para as futuras gerações. É nosso compromisso pensar nas gerações futuras”.

Tanto a doutora e professora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), Marlene Cararo, quanto o professor Jocelino Junior também lembraram da participação da Igreja na organização de movimentos populares em perspectivas diferentes. Marlene lembrando de sua própria militância e propôs como reflexão a leitura histórica das mazelas provocadas pelo capitalismo que, na sua opinião, gera mais fome e miséria a cada dia. Jocelino colocando-se como um beneficiado pela ação da Igreja através da pastoral da criança e o quanto isso influenciou sua prática e envolvimento nas questões sociais. É papel e missão da Igreja apontar direções por onde os cristãos devem caminhar e foi isso que dom Dario sintetizou em um trecho de seus discurso referindo-se a Moisés e ao Samaritano “Moisés em seu encontro com o Senhor é convidado a converter o próprio olhar, deixando-se envolver pela Palavra do Senhor e deixando-se tocar pelas dores e sofrimentos do povo eleito. Algo que fez com que ele saísse ao encontro dos irmãos e irmãs que sofriam as privações na terra do Egito. Ao sair ao encontro deles, Moisés portava no coração a esperança e a coragem, pois, sabia-se acompanhado pelo Deus da vida. O mesmo aconteceu com o Bom Samaritano que, não somente encontrou o homem caído por terra, mas, deixou-se tocar pela realidade que estava diante de si e tornou-se próximo. Reconhecendo naquele homem caído e quase morto, uma realidade que se repetia e ainda se repete inúmeras vezes nas estradas de todo o mundo.

Que o mesmo aconteça conosco, a fim de que nosso encontro com o Senhor seja transformador e nos aponte o caminho do encontro com o outro, com o nosso próximo, a fim de que possamos assumir, com toda a Alegria do Evangelho, a missão e o serviço da caridade, como uma Igreja em saída, que se empenha na construção de um mundo mais justo, fraterno e solidário”.

DEPOIMENTOS EXTRAS:

“Minha expectativa é que a gente consiga colocar em prática todas as reflexões que tivemos aqui, seja através de possíveis campanhas ou de políticas públicas.”
Eviane, PJ Guarapari

“Todos nós estamos vivendo e queremos continuar a viver com dignidade. Acho que esta é a bandeira que une todas essas classes e todas as bandeiras.”
Carine, Levante Popular da Juventude

“Pensar que sociedade e Igreja caminhem juntas pela coletividade. As vezes a Igreja atua de uma forma e a sociedade de outra. Então, pensar a coletividade a partir daquilo que nos une.”
Marina Oliveira, CEBI

Maria da Luz Fernandes
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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