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Modos de viver na contemporaneidade: vitimismo e empoderamento

Modos tristes de existir vão se estabelecendo e se fortalecendo na medida em que o mundo vai se tornando cada vez mais complexo, desafiante, inquietante. E esses modos de vida se constroem basicamente pelas nossas incapacidades de fazer bom uso de tudo o que nos acontece. Não nos treinamos para essa possibilidade: tirar forças do que nos acontece, fazer bom uso até do mal que se dá. Ao contrário, tristemente, temos sido cotidianamente treinados para repassar as responsabilidades para os outros, especialmente culpando-os pelo que nos acontece de ruim. Muito facilmente então nos apresentamos como prejudicados, ofendidos, humilhados, desrespeitados, abusados.

Esse “outro” que erguemos como inimigo e como o grande (único?) responsável por todo o mal que nos afeta é feito de materiais amontoados em nossos próprios depósitos. E que materiais são estes? São nossos fracassos, nossas frustrações, o que queríamos e não conseguimos, o que teríamos por “direito” e não temos, o que idealizamos ser e não somos, as importâncias que acalentamos em sonhos por anos e não se manifestaram, a imagem de nós mesmos que sempre foi maior que nosso próprio tamanho.

Todo esse material poderoso com o qual compomos o grande responsável pelas nossas dificuldades é, portanto, imaginário. E o imaginário se dá especialmente quando não aprendemos a ver e a lidar com a realidade. Ou quando nos pegamos destreinados para pensar em meio à teia confusa das realidades. Invés de pensar – que dá trabalho – preferimos imaginar – o que é bem fácil. Na imaginação preenchemos todas as lacunas e sanamos todas as dúvidas, criamos um bloco tranquilizador de “verdades” a que recorremos para toda e qualquer situação. Ultimamente até juízes tem sucumbido a essa tendência. Paradigmaticamente como exemplo deste movimento que atravessa a todos é a construção de uma figura que concentra em si toda a “corrupção” e que “tem que ficar” perpetuamente na prisão.

Toda essa construção fantasmagórica do outro a partir das pilhas de nossos materiais refugados se alimentam e crescem a partir de nossos desejos. Estes estão aprisionados, separados do que realmente podem: tornar a vida mais potente, mais bela, geradora de contentamentos. Ao contrário, a vida assim impotente se torna uma usina de amarguras e que nos impede de ver como saída senão aquela que implica na destruição do inimigo, o outro.

Mas a imaginação pode tomar outro caminho, que não o de fazer do outro o inimigo. Sim, a imaginação pode fazer do outro um salvador. Caminho, no entanto, do mesmo modo prejudicial à vida. Passamos a “amar” o outro, a não viver sem ele, a nos apropriar dele em nome do dito amor. Aqui não é o amor que importa, mas o “poder’ que aquele “amor” acaba trazendo. Nesse caso o outro não é procurado criativamente como aliança, como composição para articulação de forças. Ao outro não se oferece em composição as próprias potencialidades, mas por ele se é salvo, como um náufrago agarrado às qualidades infladas que nele se enxerga.

Resumidamente se pavimentam duas saídas: de um lado o vitimismo, e de outro o empoderamento. O vitimismo é de mais fácil entendimento. O empoderamento nem tanto. Mas o tal empoderamento pode também ser um modo enviesado de se tentar favorecer a vida. O empoderamento também pode estar fundado em modos tristes de viver, mesmo quando, por ele, se alcança um “lugar” ao sol. A imposição de modos pré-fabricados de viver na atualidade é tão forte que os ditos empoderamentos nada mais podem ser do que espertos jeitos de manter as vidas em estados passivos, articulando cumplicidades entre vitimismo e empoderamento. É bom prestar atenção. Mas isso é motivo pra outras conversas.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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