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“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”
(Chico Buarque de Holanda)

Mulheres de Atenas, música de autoria de Chico Buarque e Augusto Boal, de 1976, usa de ironia para tratar do patriarcado (sociedade em que todo poder pertence aos homens), machismo e autoritarismo, já que na época da composição o Brasil estava em plena ditadura militar.

Ao remeter a letra a Atenas, Chico Buarque critica a sociedade machista e patriarcal, que vê as mulheres como objetos, submissas aos desejos dos homens, tal qual as mulheres da Grécia Antiga.

A luta das mulheres para sair dessa condição de submissão custou vidas e dores e não acabou. A primeira Conferência Mundial da Mulher, aconteceu no México, em 1975, mas vale citar dois marcos nessa caminhada das mulheres por mais políticas públicas em prol da equidade: a Conferência de Beijing, na China, em 1995, foi muito expressiva, por ter mobilizado muitas mulheres em todo o mundo (só do Brasil saíram 300 representantes), para debater temas muito relevantes como conceitos referentes às questões de gênero, vistas à autonomia e equidade da mulher no planeta e que no país resultaram numa plataforma de políticas públicas para as mulheres.

Convenções e tratados internacionais ratificados pelo Brasil reforçaram as demandas feministas por políticas públicas no Brasil. A criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, com status de ministério, no primeiro governo Lula foi resultado dessa luta. Com muito orgulho fui ministra desta pasta, a convite da presidenta Dilma Rousseff, em 2011.

Outro ponto importante nessa trajetória das mulheres foi a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, nominada Convenção de Belém do Pará (1994-2014), ratificada pelo Brasil em 1996. Foi a primeira a tratar do tema e serviu inclusive de norte para a elaboração da Lei Maria da Penha, aprovada em 2006, e da qual fui relatora na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

Nos últimos anos, sobretudo após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, não por acaso a primeira mulher a chegar à Presidência da República no país e todo o processo misógino e machista descarado no dia da votação do Impeachment, assistimos um grande retrocesso nas áreas sociais, um desmonte nas políticas para mulheres e, consequentemente, um grande avanço da violência de gênero.

Quando olhamos para o Brasil atual parece que não saímos da Grécia antiga. No Espírito Santo, pesquisa feita pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no ano passado concluiu que, em três anos triplicaram processos de violência doméstica no Tribunal de Justiça do estado. As ações em curso em 2016, que eram 9.508 casos, passaram para assombrosos 28.699 processos de violência doméstica, em 2018. Neste mesmo período, o número de medidas protetivas saltou de 6.686 para 10.828. Mais assustador ainda é o quantitativo de feminicídios, que cresceram 28% somente este ano.

A composição de Chico diz muito sobre o patriarcado e o machismo da Grécia antiga, e à década de 1970, mas infelizmente fala muito sobre o momento atual do Brasil. Mas, a história ensina que a luta é o único caminho para refrear as iniquidades. Resistência é o nosso nome!

Iriny Lopes
Deputada estadual pelo PT

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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