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MÃOS QUE CELEBRAM

O mistério celebrado na liturgia é singularmente expressado nas formas corporais e em suas inter-relações. A experiência humana para com o sagrado é comunicada culturalmente, unindo pensamentos, palavras e atos, numa dinâmica progressiva e transformadora, conforme a pedagogia do ano litúrgico.

O culto requer a inteireza do ser, com atitude interior unida aos sentidos teológico, espiritual e litúrgico. E o corpo, por inteiro, expressa tal vivência, do pessoal ao comunitário, num caminho sempre crescente para a unidade daqueles que partilham a mesma fé.

Na expressão cultual as mãos possuem notoriedade, com distinta expressividade, sendo extensão da linguagem verbal, ou mesmo, de forma intuitiva, suplantando a verbalização, tornando-se o gesto a própria palavra não dita. Por exemplo, diante de uma assembleia reunida, um regente de coro motiva os cantores e a assembleia a participarem de forma orante através de um simples gesto motivador, mais a contínua regência, sem o comando verbal. Um gesto simples, mas decisivo e enfático, que, atualmente, está faltoso em muitas assembleias.

São as mãos que marcam e assimilam corporalmente, no início e na conclusão da liturgia, o sinal da fé no Mistério Pascal, sentido e razão de todo o viver e celebrar cristãos, pela graça do batismo. O toque corporal em forma de sinal da cruz (persignação), de maneira consciente e afetuosa, desperta e faz reviver a força vital e pascal de Cristo, mensageiro do Pai, continuamente recordado pelo Espírito vivificador.

Mãos que transmitem a ação vivificadora e eficaz do Espírito nas liturgias sacramentais, na forma de imposição, em sinal de potencialização e transformação da pessoa ou do elemento material. Por exemplo, sobre os penitentes durante a reconciliação; sobre os diáconos no rito da ordenação presbiteral; sobre os enfermos após a unção; sobre os dons de pão e vinho, em sinal de consagração. Quem preside a liturgia sempre terá o canal de suas mãos para conclamar, exortar, indicar, edificar, consolar, abençoar, questionar, conduzir: em tudo, será um referencial e ponto de união e comunicação com a assembleia celebrante. Também as várias funções ministeriais devem ser recordadas em suas expressões com as mãos.

Mas, qual o nível de percepção de todos os que estão envolvidos nas ações litúrgicas para com os referidos gestos? Quais os desafios de comunicação daqueles que desempenham funções diante de uma assembleia? É preciso recordar que também existem dificuldades, limites e até pudor para viver com inteireza a referida dimensão para se comunicar e expressar.

Revisitando os textos das orações eucarísticas (sempre dirigidas ao Pai), destacam-se a inspiração e motivação dos gestos de entrega, súplica e intercessão de Jesus, os quais concretizam a sua Páscoa e, pela dádiva de suas mãos, a tornam Páscoa da humanidade: “Tomai todos e comei”, “Tomai todos e bebei”. Na força de sua intenção e palavras, as mãos de Jesus, em gestos de partilha solidária, são o canal de comunicação e vida plena para todos, conclamando à comunhão.

Na liturgia, as mãos são a viva recordação do próprio Criador e seus feitos: “O Senhor nos fez sair do Egito com mão forte e braço estendido, em meio a grande terror, com sinais e prodígios, e nos trouxe a este lugar, dando-nos esta terra, uma terra onde mana leite e mel.” (Dt 26,8).

Fr. José Moacyr Cadenassi
Franciscano capuchinho, letrista, cantor, consultor de liturgia, apresentador de rádio e agente de ecumenismo e diálogo inter-religioso

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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