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Manifestações “verde-amarelas”: a cauda balançou o cachorro?

O cientista político estadunidense Gene Sharp desenvolveu uma estratégia pacífica para derrubar governos ditatoriais. Suas ideias, expostas em seu livro Da ditadura à democracia, de 1994, foram acolhidas pelo Pentágono e CIA para a derrubada de qualquer governo, bom ou ruim, que não atendesse os interesses dos EUA e suas empresas.

Conhecida como “golpe suave”, a estratégia foi utilizada em diversos países para se destituir governos legitimamente eleitos por meio de processos não violentos que envolvem a própria população. A não violência de Sharp não significa uma resistência pacífica, mas uma ofensiva sem armas – o que são coisas distintas.  A mídia cumpre um papel fundamental nessa estratégia.

O propósito planejado é a derrubada do governo e sua substituição por outro que se comprometa mais diretamente com os interesses de quem patrocinou a mudança – de modo geral, a indústria de petróleo e os agentes financeiros globais, que agem por meio dos EUA e países aliados – sem que a intervenção seja percebida como tal.

Segundo o jornalista argentino Walter Goobar, a estratégia engloba cinco passos:

 

1 – Promoção de ações para gerar um clima de mal-estar social no país, formando opinião focada em problemas reais ou potenciais. O mote predileto costuma ser denúncias de corrupção no governo, comprovadas ou não, mas que servem para criar o clima de insatisfação geral. Problemas na economia também são focados nesse momento.

 

2 – O segundo passo é a mídia dizer-se perseguida ou ameaçada por censura e perseguição à liberdade de imprensa – em que pese o paradoxo dessas denúncias serem feitas pela própria imprensa – e a criação de um clima de ameaça aos direitos humanos e liberdades individuais. Nesta fase também se reativa o fantasma do comunismo, que já demonstrou resultados em outras épocas.

 

3 – Em seguida, passa-se a estimular ou criar os protestos e as manifestações de rua para enfrentar o governo e expor uma insatisfação pública.

 

4 – Depois, procura-se combinar as diversas táticas, com mobilizações, marchas, alianças com entidades emblemáticas da sociedade civil, guerra psicológica, ações agressivas para provocar a repressão e utilizar a reação para vitimização e propaganda contra o governo.

 

5 – O último passo é forçar a renúncia ou à cassação do governante, seja pela pressão das ruas, ameaça das forças militares ou por ação da Justiça ou do Parlamento.

 

Pois bem, a descrição desses passos é de um artigo publicado em 2012, que não fazia nenhuma menção ao Brasil. Se o leitor percebeu alguma semelhança com o que aqui se passou de 2013 a 2016, pode ser que não seja mera coincidência.

As grandes manifestações que ocorreram em 2013 tiveram, inicialmente, um foco específico: o aumento das tarifas de transporte urbano em São Paulo. Depois, espalharam-se pelo país em solidariedade aos manifestantes vítimas da repressão policial. Elas reforçaram também movimentos em diversos estados que tinham como foco a mobilidade urbana. Tais movimentos eram reprimidos pela polícia e difamados pela grande mídia.

Contudo, de maneira repentina e misteriosa, todos os meios de comunicação passaram, ao mesmo tempo, a apoiá-las e convocá-las, porém redirecionando seu foco somente contra o Governo Federal. Foi só a partir desse momento que elas tomaram a dimensão gigantesca pela qual ficaram conhecidas.

Seria a tentativa de se aproveitar de um movimento para se implantar a terceira etapa da estratégia do golpe suave? As duas fases anteriores já estavam a pleno vapor, com a exposição diuturna dos casos do “mensalão” e da Petrobrás e a postura aberta de oposição da mídia.

Em 2013, escrevi um artigo sobre as manifestações de junho intitulado Oposição, sim, golpe, não.  Ali elenquei os motivos pelos quais o Governo Federal merecia oposição, mas rejeitei o que suspeitava ser uma tentativa de golpe que se delineava no cenário político. Honduras (2009) e Paraguai (2012) nos davam o alerta.

Três anos depois, o Governo eleito em 2014 foi destituído pelo Parlamento. A sequência dos acontecimentos foi: (1) denúncias de corrupção e problemas na economia; (2) oposição da mídia e discurso anticomunista; (3) manifestações de rua amplamente divulgadas e conclamadas pelos meios de comunicação; (4) criação repentina de movimentos de juventude, adesão da Fiesp, maçonaria, OAB, realização de marchas a Brasília, acampamento no Congresso, discursos raivosos em redes sociais, etc.; (5) impeachment após rito processual político-jurídico.

Comparem os números entre parênteses com a descrição dos passos estratégicos do golpe suave descritos acima. Ou se trata de uma tremenda e improvável coincidência, ou de um caso de profecia, ou de algo planejado. O leitor escolhe.

Chegamos, então, à realidade atual. Todas as demandas da indústria de petróleo dos EUA com relação ao pré-sal começaram a ser atendidas no governo pós-impeachment. Todas as exigências do sistema financeiro internacional (banqueiros e especuladores) estão sendo cumpridas com as medidas de arrocho, congelamento do orçamento e retirada de direitos trabalhistas, sem tocar em um único centavo dos recursos que servem para pagar os juros da dívida com os investidores endinheirados. A corrupção está impregnada no Governo, de maneira muito mais ubíqua que no governo anterior.

Diversas manifestações de rua, greves, ocupações de escolas de ensino médio e universidades aconteceram contra as medidas do novo governo, mas a mídia, que transmitia ao vivo às manifestações pró-impeachment, não deu importância a esses protestos.

Resumo da história: a ideia de que é o povo nas ruas que define os rumos da política deve ser relativizada. Às vezes, o rumo que querem dar à política é que define a presença de uma parte do povo nas ruas.

Há um ditado em inglês que diz: “o cachorro é mais esperto que o rabo, mas se o rabo fosse mais esperto, ele balançaria o cachorro”. Tenho a impressão de que as “manifestações verde-amarelas” foram exemplos da cauda balançando o cachorro.

Mas sempre é tempo de mudar o jogo.

Maurício Abdalla

Professor de Filosofia da Ufes

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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