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Levantai uma pedra e me achareis

Uma palavra sobre a vida é o que eu queria agora, uma que fosse capaz de traduzir a força e a beleza dos momentos em que nos conectamos de modo genuíno e puro com as fontes da vida. Mas a palavra talvez tenha que ser substituída por uma cena para expressar melhor a beleza e singeleza desses momentos. Uma cena que marque a importância e a necessidade de favorecer, de buscar, de promover a reconexão da vida com a vida. E isto para que o júbilo de viver se expanda, e se expanda por ações de generosidade, desapego e beleza.

E a cena que me ocorre é a da minha avó Ignês em sua ampla horta atravessada por um pequeno córrego. Vejo-a vividamente ali onde ela se fazia outra. Uma energia boa lhe atravessava as cordas da alma, e uma sonoridade nova lhe fazia vibrar desde a retina dos seus afetuosos olhos – que mais afetuosos ficavam – até as oficinas de carinho que se colocavam em funcionamento em todo o seu ser. Ali ela se refazia, se endireitava, se esquecia das dores, e afetava-nos com essa energia boa.

Talvez isso nem acontecesse nela particularmente, mas em mim. Ou talvez aquele recanto ao pé de imensa montanha de granito condensasse pela sua beleza e recondidez uma força que nos afetasse a todos. Não importa. O que importa é que precisamos desses momentos para que nos experimentemos como uma bonita manifestação da vida, e para que percebamos que o seu benéfico poder nos atravessa, capacitando-nos como agentes de transformação das realidades.

As possibilidades de vivermos esses momentos são muitas e podem ocorrer, por exemplo, na contemplação de uma paisagem a partir de um mirante qualquer, na experiência de ajeitar uma muda de planta num pequeno vaso, no envolver-se com uma criança em suas brincadeiras, e em muitas outras situações que o mais comum dos dias sempre nos oferece. No entanto, muitas chances são desperdiçadas, e assim acontece porque estamos sobrecarregados de necessidades e de coisas, sobrecarga que nos rouba o tempo e nos embota as sensibilidades.

E por que as conexões com a vida, na maioria das vezes, se dão pela aproximação dos eventos mais básicos, mais naturais e simples? Porque somos água, terra, luz e ar contraídos. E quando nos vemos de braços abertos sobre um monte contra o vento nos reconhecemos naquilo que somos. E quando lavamos o rosto numa bica singela em alguma caminhada por um cenário rural qualquer nos reconhecemos naquilo que somos. Por quê? Porque nas forças externas reconhecemos as mesmas que estão contraídas em nós. Contemplamo-nos jubilosamente naquilo que contraímos em nós e do qual procedemos. Bom é lembrar nossa criação do barro, do barranco do riacho que está no centro do jardim, como nos fala o Gênesis.

Decerto falar disso se dá porque andamos perdendo as conexões com a vida, as genuínas conexões, aquelas que fazem com que todo o corpo e alma vibrem. Muitas superfícies vão nos cobrindo, nenhuma delas se soma em produções de dobras e redobras de vida. Tomamo-nos de surpresa ao nos vermos desvitalizados, tristes, assustados, superficiais. O que nos acontece? As realidades nos mortificam. Mortificados nos tornamos também agentes do mesmo processo. E nos agarramos às coisas, às superfícies. Esquecemos que o que nos torna felizes são as realidades imateriais. Levantai uma pedra e me achareis, diz o evangelho apócrifo de Tomé. Abatidos pela ânsia de sermos felizes pela superfície, pela pedra, pela posse, pelo acúmulo perdemos a conexão com as poderosas forças sutis, suaves e constitutivas da vida, as que estão logo ali… ali aonde os olhos ainda precisam ir.

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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