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Indagações sobre o que temos feito de nós mesmos

Numa dessas manhãs de março, por volta das sete, quando o dia é apenas promessas, e o calor ainda não avançou sobre todos os poros, fui atravessar tranquilo uma rua na faixa de pedestres como pede a boa e civilizada vida urbana. Os veículos vinham longe e uma moto foi se aproximando e reduzindo a velocidade até parar. Na faixa da direita vinha um outro veículo e passou sem nenhuma preocupação em reduzir a velocidade, e ainda esbravejou enraivecido contra a motoqueira que havia feito apenas o que devia fazer.

Pensei: o que se passa no coração do homem que não só corrompeu a lei do uso comum dos espaços urbanos, mas também repreendeu com buzina e gritos aquela que não se sujeitou ao mesmo movimento de corrupção. Algo nele se dava entre a irritabilidade, a impaciência e a raiva. É bem provável que ele não quisesse sinalização nenhuma, norma nenhuma e pessoa nenhuma que se interpusessem entre ele e o seu desejo, que no caso seria ir o mais rápido possível entre um lugar e outro.

Foi do velho Freud que lembrei depois, de seu pensamento que, entre tantas outras coisas, nos ajudou a admitir que no fundo do homem civilizado fica sempre um rancor contra a cultura.

Ninguém constrói justiça sem renúncias, ninguém constrói civilidade sem disciplina. É na escola das renúncias que aprendemos a transmutar o desejo em amor. É ali que nos treinamos para sermos sócios da sociedade. E o sócio compreende – ou deveria compreender – que a vida comum está sempre a nos pedir novos investimentos. Mas todo esse esforço também fica em nós como um ressentimento. Em alguns momentos críticos essa raiva emerge fortemente, como no motorista que queria a rua só para ele, e que tinha apenas os seus interesses egoístas como merecedores de realização.

Mas o fato da faixa de pedestre me põe em pensamentos sobre o Brasil. Impossível neste momento não ser atravessado desses pensamentos/sentimentos. Tanto nas manifestações de 2013, quanto nas de agora umas franjas de rancor contra a cultura se apresentaram. Lá a quebradeira; aqui várias formas de intolerância e desejos de regresso ao autoritarismo. É claro que o grosso das manifestações não se apresentou assim. Mas nas manifestações de 2013 o que era apenas um viés insignificante acabou por se tornar um importante elemento.

Estas fímbrias – que não são tão insignificantes assim – são representativas desse extrato de rancor. É interessante notar como a mesma mídia que superdimensionou a ação dos “vândalos” de 2013 minimizou agora a participação destes outros que se propõem como agentes políticos e que têm na intolerância, no desejo de golpe e ditadura e na estandardização do desrespeito à mulher (que por “acaso” é a Presidente da República) o seu mote. As situações críticas podem mobilizar essas forças que facilmente aceitam indução (vide nazismo na Alemanha, e o que reflete Malcolm X: “se você não tomar cuidado, a imprensa fará você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar os opressores”). Logo é trabalho de todos cuidar para que os avanços da sociedade democrática – alcançados à custa de muitos esforços – não sejam perdidos.

E por falar em cuidar, a modo de conclusão, recorro às intuições de outro pensador, Michel Foucault, lá nos adiantados dos seus caminhos, na Hermenêutica do Sujeito. Lá ele pensa que, talvez, a única forma de resistência ao poder (diríamos nós hoje no Brasil: poder político, poder das mídias, etc.) seja a produção permanente de um Cuidado de Si. Bom é que se diga que esse Cuidado de Si não é de modo algum uma forma de escape individualista aos desafios das realidades. Longe de nós sugerir isto. Este cuidado implica numa permanente atenção ao presente, numa constante indagação aos modos de viver que criamos, e num questionamento sincero sobre o que temos feito de nós mesmos.

Dauri Batisti

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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