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Igreja em saída, a Igreja que o Papa Francisco quer

O Papa Francisco, que tem demonstrado uma capacidade de se comunicar e surpreender, lança em alguns momentos, palavras novas. Talvez uma forma de dizer “do seu jeito” que expresse exatamente o que ele quer da Igreja.  Entre elas uma tem sido bastante repetida e trouxe um frescor para a dimensão missionária da Igreja: ‘Igreja em saída’, disse o Papa na Exortação Apostólica, Alegria do Evangelho. Desde então ‘Igreja em saída’ é repetida por todos os cantos e muitos textos tentam explicar o sentido e o significado dela.

No ano passado o teólogo e ecólogo Leonardo Boff publicou um texto com o título ‘Papa Francisco: Igreja em saída de onde e para onde’, e nele elenca uma série de definições com as quais ele caracteriza a Igreja antes de Francisco: Igreja-fortaleza para Igreja-hospital de campanha; Igreja-instituição para Igreja-movimento; Igreja-hierarquia para Igreja-povo de Deus; Igreja-autoridade eclesiástica para Igreja-pastor; Igreja-Papa para Igreja-bispo de Roma; Igreja-mestra de doutrinas para uma Igreja de práticas; Igreja-de poder para Igreja pobre; Igreja-que fala dos pobres para Igreja-que vai aos pobres; Igreja-equidistante para Igreja que toma partido; Igreja-automagnificadora e acrítica para Igreja-da verdade; Igreja-da ordem para Igreja-da revolução; Igreja-de devotos para Igreja-compromisso. É claro que a leitura do texto na íntegra traz outros elementos e complementos e, sem dúvida, vale a provocação e a contribuição.

Mas, no Rio de Janeiro, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, o próprio Francisco disse o que é para ele, Igreja em saída. A partir do texto de Lc 24, 13 a 35, o Papa falou de Igreja em saída em duas partes. Na primeira descreve algumas realidades de hoje “Os dois discípulos escapam de Jerusalém. Eles se afastam da ‘nudez’ de Deus. Estão escandalizados com o falimento do Messias, em quem haviam esperado e que agora aparece irremediavelmente derrotado, humilhado, mesmo após o terceiro dia. O mistério difícil das pessoas que abandonam a Igreja; de pessoas que, após deixar-se iludir por outras propostas, consideram que a Igreja – a sua Jerusalém – nada mais possa lhes oferecer de significativo e importante. E assim seguem pelo caminho sozinhos com a sua desilusão. Talvez a Igreja lhes apareça demasiado frágil, talvez demasiado longe das suas necessidades, talvez demasiado pobre para dar resposta às suas inquietações, talvez demasiado fria para com elas, talvez demasiado autorreferencial, talvez prisioneira da própria linguagem rígida, talvez lhes pareça que o mundo fez da Igreja uma relíquia do passado, insuficiente para as novas questões; talvez a Igreja tenha respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta. O fato é que hoje há muitos que são como os dois discípulos de Emaús; e não apenas aqueles que buscam respostas nos novos e difusos grupos religiosos, mas também aqueles que parecem já viver sem Deus tanto em teoria como na prática. Na segunda parte, o Papa apresenta uma Igreja que responda a estas situações: “Perante esta situação, o que fazer? Faz falta uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite deles. Precisamos de uma Igreja capaz de encontrá-los no seu caminho. Precisamos de uma Igreja capaz de inserir-se na sua conversa. Precisamos de uma Igreja que saiba dialogar com aqueles discípulos, que, fugindo de Jerusalém, vagam sem meta, sozinhos, com o seu próprio desencanto, com a desilusão de um cristianismo considerado hoje um terreno estéril, infecundo, incapaz de gerar sentido”.

A pergunta ‘de onde e para onde’ exige uma resposta que não está pronta. Não é uma regra de gramática ou uma equação matemática. A Igreja está inserida em diversas culturas e em inúmeras complexidades humanas. Não basta fazer perguntas e tentar formular respostas. A Igreja é dinâmica, a Igreja é movimento. Então a pergunta importante é saber olhar para a sociedade onde ela está inserida e, naquele local, identificar as necessidades e mazelas humanas. Antes de sair é necessário saber onde se está, conhecer a realidade já é estar em saída.

Didaticamente o Papa Francisco insiste, explica, mas não fica apenas em palavras. Ele sai, é um Papa em saída. Ele age, é um Papa missionário. Celebra com os funcionários da Cúria Romana, visita e assume o cuidar de refugiados, vai ao encontro e acolhe outros ritos e outras Igrejas, constrói abrigo para os sem-teto, leiloa presentes para cuidar dos pobres, responde a quem lhe escreve. Depois insiste de novo para que a Igreja esteja sempre ‘em saída’.

Em entrevista à Revista dos padres jesuítas no mundo, o Papa disse: “Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas… E é necessário começar de baixo. [...] Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isto é Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturais são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se”.

Para uma Igreja em saída o Papa ainda disse na mesma entrevista: Devemos anunciar o Evangelho em todos os caminhos, pregando a boa nova do Reino e curando, também com a nossa pregação, todo o tipo de doença e de ferida.[...] Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. [...] Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús”.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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