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Humanizar o parto: devolver o protagonismo às mulheres

A gravidez é um momento de emoção e alegria para as famílias. Planejamento, emoção a cada mês e a cada descoberta, compartilhamento de sensações entre pai e mãe, e mais união entre o casal. Todo esse misto de sentimentos bons podem desmoronar no momento crucial: o parto. De acordo com a pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, divulgada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto.

Os tipos mais comuns de violência, segundo o estudo, são gritos, procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, falta de analgesia e até negligência.Também é considerada violência obstétrica recusar dar bebida ou comida para uma mulher durante o trabalho de parto ou impedir procedimentos simples, como massagens para aliviar a dor e a presença de um acompanhante na hora do parto. Ainda faz parte dessa lista um item pouco questionado e muito comum, principalmente no Brasil, que é agendar uma cesárea sem a real necessidade.

Diante desse cenário, um termo virou o assunto em hospitais, redes sociais e entre amigos, como uma forma de oposição aos procedimentos que não respeitam o desejo das mulheres: o parto humanizado. De acordo com o médico obstetra Frederico Bravim Vitorino, o termo “significa melhorar a prestação de serviço, trazendo de volta para a mulher, aquilo que sempre foi dela, que é o protagonismo no parto. Então quando a gente fala em humanizar a assistência ao parto e ao nascimento, na verdade a gente não está falando de uma técnica, um modelo ou uma maneira de assistir esse parto, humanizar significa respeitar as vontades da mulher, naquilo que for possível. No que não for possível, precisamos orientá-la”.

Esse empoderamento da mulher, como protagonista do nascimento de seu filho, além das rodas de conversa informais, tomou forma como resolução do Ministério da Saúde, que estabelece normas para estímulo do parto normal e a consequente redução de cesarianas desnecessárias. As novas regras ampliam o acesso à informação pelas consumidoras de planos de saúde, que poderão solicitar às operadoras os percentuais de cirurgias cesáreas e de partos normais por estabelecimento de saúde, por médico e por operadora. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país onde mais se realizam cesáreas no mundo. As taxas chegam a 84% no sistema privado e a 40% no SUS, sendo o recomendado pela OMS de 15%.

Para Doutor Frederico, existe muita desinformação, crença na cabeça de médicos e pacientes de situação em que é indicada uma cesariana, mesmo sabendo que não é necessária. “Existe muita desassistência da parte dos pré-natais e do desenvolvimento da gestação. Além disso, a saúde suplementar não ‘financia’ de maneira adequada o parto, falta incentivo em exercer a atividade, desinteresse da classe médica, pois se você for olhar o aspecto tempo, é mais interessante fazer uma cesariana que demora duas horas, do que um parto normal que pode durar dias”. O médico afirma ainda que a escolha de muitas mulheres pela cesariana se dá pela falta de informação. “Se você conversar e explicar que ela pode ter um parto diferente daquele que ela conhece, um parto em que ela será respeitada, as suas vontades também, ela vai optar por esse. Já existem trabalhos mostrando que as mulheres quando conhecem esse modelo de obstetrícia elas optam muito mais pelo parto normal, do que pela cesariana”, disse.

Ao anunciar a nova resolução de incentivo aos partos normais, o ministro da saúde, Arthur Chioro afirmou que não se pode aceitar que as cesáreas sejam realizadas em função do poder econômico ou por comodidade. “Não há justificativa de nenhuma ordem, financeira, técnica, científica, que possa continuar dando validade a essa taxa alta de cesáreas na saúde suplementar. Temos que reverter essa situação que se instalou no país”. O Ministro reforçou ainda que a redução de cesáreas não é uma responsabilidade exclusiva do poder público, mas de toda a sociedade brasileira.

Para que os índices sejam reduzidos e as mulheres possam se apropriar daquilo que lhes é de direito, uma palavra é imprescindível: informação. E foi pela busca daquilo que julgava ser melhor para ela e seu filho, que Thayana Madelli, de Aracruz optou pelo parto humanizado. “Eu e meu marido sempre quisemos ser respeitados nesse momento tão bonito e íntimo, e nós não queríamos perder isso. Fomos em busca de informação sobre tudo. Eu preciso fazer e aceitar tudo aquilo que o médico está mandando? Sou obrigada a parir deitada? Tenho uma posição fixa para ter meu nenêm? Então buscando essas informações entendemos que o parto humanizado é a melhor alternativa para que a nossa vontade e o nosso momento fossem respeitados”.

Assim como pensa Dr. Frederico, Thayana acredita que as cesarianas deixaram o parto sistematizado. Ela, que entrou em trabalho de parto em uma quinta-feira e pariu na segunda-feira, questiona qual médico quer se colocar tanto tempo a serviço de uma paciente e afirma que é muito mais cômodo para o profissional optar e fazer a gestante optar por uma cesariana. Thayana tem 27 anos e é mãe de Pedro, seu primeiro filho, que tem apenas um mês. Ela conta que a segurança durante toda a gestação e a certeza de estar fazendo a coisa certa a motivou em cada contração. “A cada dor eu sentia que estava mais perto de tê-lo em meus braços, quanto mais eu sentia dor, mais eu tinha vontade de ter ele comigo. Quando o Pedro nasceu foi como se tudo desaparecesse, porque eu e meu filho fomos capazes disso. É uma sensação incrível e eu passaria por tudo de novo”, contou.

A segurança das informações e o apoio de sua médica também foram essenciais para a escolha de Maria Clara Davel, que teve os dois filhos, Frederico, de 2 anos e 8 meses e Vitória de 40 dias, pelo parto normal humanizado. “Na verdade a pergunta para as gestantes deveria ser porque não ter o filho pelo método normal. A minha única certeza é que eu não queria fazer uma cesárea. Durante a gravidez fiz fisioterapia e a minha primeira opção era o parto normal. Para isso me preparei psicologicamente e fisicamente”.

Segundo ela, a cultura da cesariana deve ser combatida principalmente pelos hospitais e pela classe médica. “Se o médico se conscientizasse e quisesse mostrar para a gestante o que é melhor para ela e o filho, incentivaria a melhor opção. Se há uma equipe consciente, com certeza qualquer pessoa pode fazer um parto humanizado. Eu acredito que é possível mudar”.

O apoio incondicional

Com o aumento da discussão sobre humanizar o atendimento a gestante e o trabalho de parto, uma figura desponta como o grande apoio neste momento, a doula. Segundo a definição do Dr. Frederico, essas são como as comadres de antigamente, responsáveis por aconselhar, massagear, ajudar a mulher durante esse momento. Sem profissão regulamentada, elas não precisam de formação específica, mas são fundamentais no apoio à gestante durante todo o momento. “O meu índice de cesariana é baixo, e poucas aconteceram com pacientes que não tinham doula. Elas são decisivas no momento crucial da vida da mulher. Durante o trabalho de parto, as gestantes passam por diversas fases, inclusive a negação daquele momento, seja por medo, insegurança, angústia, até pela dor, e nesse momento entra o personagem da doula, que é quem está acreditando nela, que ela confia e que vai olhar nos olhos dela e dizer que ela pode parir”, afirmou o obstetra.

Para as mães que contaram com o apoio dessa figura, também é possível compreender a importância da presença das doulas. “Eu pude comparar um parto com doula e sem doula, e ela traz uma tranquilidade e segurança que a gente não tem. No primeiro, as primeiras dores que eu senti, eu fui para o hospital correndo. Com a doula, eu consegui ficar em casa mais tempo, entender o que o corpo estava falando, tanto que consegui fazer totalmente natural, sem analgesia, ao contrário do meu primeiro parto. Ela traz a consciência que a gente perde no momento de dor”, contou Maria Clara.

Thayana também é favorável a presença da doula. “A minha doula foi uma graça, ela me passou muita tranquilidade, me ajudou muito com palavras de incentivo. É um incentivo que a gente precisa. Com certeza ela é essencial. Quando eu comecei a sentir as dores ela foi para a minha casa, me ajudou, e soube o momento certo da gente ir para o hospital”.

Outra companhia fundamental no momento do parto de nossas entrevistadas foi o marido. E a escolha pelo parto normal aproximou ainda mais os interesses e a cumplicidade do casal. “Meu marido esteve ao meu lado durante todo o tempo e me passou muita força, então foi ótimo”, contou Thayana. Para Maria Clara, os seus partos deixaram um sentimento indescritível, ainda mais completo. “O pai participa muito, meu marido me ajudava a segurar na posição mais confortável, você sabe que não está sozinha, isso faz muita diferença. Para a cumplicidade do casal isso foi fantástico”.

Graziele Rodrigues é doula da Equipe Zalika – Maternidade, Parto & Infância, e explica um pouco mais a atuação da doula no trabalho de parto. “Atuamos com técnicas não farmacológicas de alívio da dor e apoio emocional. Usamos orientação de exercícios que promovem maior conforto durante as contrações e também contribuem para evolução do trabalho de parto; fazemos massagens que aliviam o incomodo das contrações; avaliamos o desenvolvimento das fases do trabalho de parto e orientamos o momento de transferir para o hospital; conversamos e orientamos sobre os medos; e, estamos disponíveis para o que a mulher necessitar e solicitar”.

Para ela, o sentimento durante esse acompanhamento é de vida renovada. “Cada nascimento acompanhado é transmutado na renovação da fé na humanidade. Na fé de que as pessoas podem ser amáveis, amadas e respeitadas em todas as fases de sua vida, incluindo o nascimento e o parto. Cada nascimento é único e trazem para nós uma enorme felicidade”.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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