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GRUPO ABRAÇO: QUEM CUIDA TAMBÉM PRECISA SER CUIDADO

Cuidar de um familiar com algum tipo de transtorno mental pode acarretar ao cuidador desgaste físico, emocional, isolamento social e até sobrecarga financeira. O Grupo Abraço, cujo lema é “Cuidando de Quem Cuida” foi criado para dar apoio aos cuidadores de pessoas com transtorno mentais graves. Os encontros acontecem na Paróquia Nossa Senhora de  Guadalupe, em Itaparica, e são coordenados pela psiquiatra e psicanalista Maria Benedita Reis.

O que é transtorno mental grave e como ele se apresenta?

Transtorno mental é uma expressão para doenças mentais. Dentre as doenças mentais, a apresentação é ampla, e aí existem muitas manifestações, que podem ser leves, moderadas e graves. As manifestações graves podem ser passageiras ou definitivas. A esquizofrenia, por exemplo é considerada um transtorno grave, pois compromete a qualidade de vida dos indivíduos, que costumam apresentar delírios e alucinações.

É difícil para a família aceitar a doença mental?

É difícil sim. Quando o transtorno é considerado grave, as manifestações da doença podem levar a sintomas incapacitantes como abandono escolar, desajustes familiares, dificuldades de relacionamentos e socialização, levando muitas vezes ao isolamento, tanto da família, quanto da pessoa doente.

Antigamente, era comum que as famílias guardassem esses indivíduos em casa, os escondessem da sociedade. O fato da saúde pública ter sido implantada no Brasil, com ações de vacinação, visitas de agentes de saúde nas casas, colaborou muito para a identificação e tratamento dessas pessoas.

Como as famílias lidam com a situação atualmente?

O amor existe. É muito comum que as famílias deem mais afeto para este indivíduo. Na cabeça dos pais, principalmente da mãe, a atenção maior é para compensar o deficit que essa pessoa tem. Os cuidados com uma pessoa assim, são para o resto da vida. Por exemplo, um adulto de 40, 50 anos com transtorno cognitivo grave, é uma eterna criança. Não tem crítica moral ou social. Ele pode urinar na presença de uma visita, pode tirar a roupa, pode fazer qualquer coisa, até ser agressivo. A doença mental incomoda a sociedade, ela subverte uma ordem. É necessário um cuidado em tempo integral, mas que seja divido entre os familiares. Infelizmente é muito comum que apenas um familiar seja escolhido como cuidador e isso gera um peso muito grande para essa pessoa.

São essas pessoas que o Grupo Abraço quer ajudar?

Sim, porque se percebe o quanto essa pessoa é sobrecarregada. O cuidador é aquele que precisa ir para “lá e para cá”, com o portador de transtorno cognitivo. É ele que leva nas consultas, que vai em busca dos direitos, que também não pode sair de casa para resolver nada para si mesmo, pois precisa ficar atento para que aquele indivíduo não fuja, por exemplo. As outras pessoas da família não percebem que o cuidador também precisa cuidar da saúde, ter um lazer, que precisa praticar uma atividade física, ir à igreja, viver…. Então, geralmente essa pessoa se entrega, ou porque foi escolhida ou porque ela se escolhe de uma forma neurótica também. Dificilmente as famílias conseguem fazer uma divisão de tarefas e deixar que o cuidador tenha uma vida saudável. O ideal é que a família compartilhe o cuidado desse indivíduo.

Como os cuidadores lidam com o fato de serem responsáveis em tempo integral por alguém com uma doença mental?

Cada um reage de uma maneira. A nossa mente faz mil arranjos das coisas. Alguns lidam com raiva, alguns com culpa, alguns como um fardo. Muitos também acreditam ser o destino deles, um designo, uma missão. Mas mesmo achando que é uma missão, as vezes sentem raiva e culpa por estarem sentindo raiva. É complexo.

Qual é a proposta do Grupo Abraço para quem vivencia essa situação e como ele surgiu?

A ideia do grupo foi minha e vem da minha percepção da sobrecarga dos cuidadores. Morava em São Paulo e já tinha vontade de criar um grupo de apoio para estas pessoas. Vim para Vila Velha há cinco anos e depois que me estabilizei comecei a procurar um local para as reuniões. A Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe nos abriu as portas.

Temos a proposta de fazer com que o cuidador e sua família entendam que é preciso dividir as tarefas. A proposta do grupo é reunir esses familiares cuidadores em uma roda de conversa e possibilitar que sejam eles os protagonistas dos encontros.

As reuniões visam proporcionar a troca de experiências em um ambiente que estimule a convivência social. Lá, os participantes contam suas histórias, suas dificuldades e também fazem sugestões. Todos em uma busca coletiva de alternativas e estratégias eficientes que miniminizem o sofrimento e garanta qualidade de vida deles. Nesses encontros também são abordados a relação da família com a doença mental, os sentimentos gerados, como a família pode colaborar com o tratamento e com a reinserção social do paciente.

Como acontece esse protagonismo dos cuidadores nos encontros?

São eles que contam suas histórias, que choram, que desabafam, que sugerem alternativas uns para os outros, que trocam experiências e se identificam com pessoas que nunca viram, mas que vivem as mesmas situações e passam pelos mesmos sofrimentos. São trocas de vivências e de apoio.

No grupo existe o caso de uma pessoa que não comprava um sapato há dez anos. Os que tinha haviam sido presentes de irmãos. Esse cuidador não lembrava da última vez que comprou uma roupa, não se permitia ir a lugar algum para fazer algo por si mesmo. Após participar dos encontros do grupo, algumas mudanças já começaram em sua vida. Começou a perceber que não é “errado” ter um tempo para si, para ir ao médico, para cortar e pintar o cabelo.

O sonho que tenho para o grupo é que, com o tempo, as atividades possam ser variadas, não apenas as rodas de conversas, mas caminhadas ou passeios, por exemplo. A intenção é fazer com que essas pessoas se sintam fortalecidas e consigam melhorar a qualidade de vida, fazendo outras coisas.

Então já existe um retorno das pessoas que frequentam o grupo?

Sim. As pessoas contam que conversaram com seus familiares e passaram a se permitir muitas coisas. Uma cuidadora me relatou que depois de ter participado do grupo foi ao ginecologista, algo que não fazia há mais de cinco anos. Ela disse para família: “eu preciso ir, pois preciso estar inteira para cuidar de outra pessoa.” E foi. Parece simples, mas para a maioria dos cuidadores não é.

A senhora coordena o grupo. Existe uma equipe de profissionais que auxilia os encontros?

Atualmente temos uma psicóloga, duas assistentes sociais e um advogado, não para fazer trabalho jurídico, mas para dar orientações. Todos participam voluntariamente. Esperamos que a medida que o grupo se fortaleça, mais profissionais se envolvam no grupo para agregar.

Para o próximo ano, a ideia é incluir temas. Levar aos encontros, por exemplo, um dentista para orientá-los quanto aos cuidados bucais, e outros profissionais para orientações sobre higiene pessoal e cuidados com a saúde. Vai ter também uma parte para orientações sobre os direitos das pessoas com doenças mentais. Muitos cuidadores desconhecem esses direitos junto a Previdência Social.

Todos os cuidadores podem fazer parte desse grupo?

Sim, o grupo é aberto a qualquer pessoa. Muitos cuidadores de pessoas com esquizofrenia procuram o grupo. Temos também uma pessoa que frequenta o grupo, que cuida da mãe com Alzheimer. Nós a acolhemos, mas é interessante que as pessoas saibam, que no Santuário de Vila Velha há um grupo específico sobre Alzheimer, que fez 18 anos, e que é diretamente ligado a Associação Brasileira de Alzheimer.

Como participar dos encontros?

Para este ano de 2019, nossos encontros acontecem todas as últimas quintas-feiras de cada mês, de 19n30 às 21 horas, na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe. A paróquia fica localizada na avenida Estudante José Júlio de Souza, s/nº, na Praia de Itaparica, em Vila Velha. Quem quiser tirar dúvidas sobre o grupo ou sobre nossas reuniões pode ligar para o número (27) 3299-0951, das 13h30 às 18 horas.

Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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