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Fé e solidariedade

Tarde de um lindo dia de sol num domingo de inverno, às 19 horas, com uma brisa fria, os sinos da Igreja Católica da cidade do interior convidam para a missa dominical. A Igreja vai se enchendo de gente bem vestida, o coral está a postos com os instrumentos bem afinados, microfones funcionando perfeitamente. Adentra a procissão de entrada, com a cruz litúrgica adiante, sendo seguida por coroinhas e ministros da celebração e, por fim, o padre emparamentado impecavelmente.

O espaço da igreja vai sendo todo tomado por pessoas, vestidas de modo a demonstrar a grande festa celebrativa. Acolhida fervorosa e bem emocionante. O padre inicia a celebração com o Sinal da Fé. O fervor das orações não deixa dúvida sobre a fé professada e aclamada. A celebração segue todo o rito de maneira festiva e fervorosa. Igreja lotada.

A praça em frente, cheia de árvores e bancos, testemunha a fé celebrada a sua frente. Os ambulantes com seus produtos esperam os fiéis após a missa para um ganho que permita o pagamento das contas. Muitos, provavelmente, estão desempregados. Casais passeiam pela praça curtindo o ambiente tranquilo e de paz.

O cenário é de grande harmonia e beleza. O som da celebração está com alto- falantes abertos para a praça e assim todos podem ouvir o que se passa naquele momento. A fé parece contaminar todo o ambiente externo.

Mas algo na praça denuncia uma ruptura: dois seres humanos que pareciam jovens, todos enrolados em trapos cobrindo até a cabeça, deitados ao lado de um banco e dormindo. Eram dois moradores de rua, que também testemunham todo aquele cenário de beleza e fé.

Mas denunciam algo que o Papa Francisco chamou a atenção numa visita ao bairro de Bañados, em Assunção, no Paraguai. Este local foi ocupado por milhares de pessoas que se abrigam ali quando não há enchentes do rio Paraguai. Trata-se de uma das regiões mais pobres da capital. Diz-nos Francisco: “A fé faz-nos próximos, aproxima-nos da vida dos outros. A fé desperta o nosso compromisso com os outros, desperta a nossa solidariedade. Uma virtude humana e cristã que vocês têm e nós devemos aprender”.

A região de Bañados depende da solidariedade, da ajuda mútua entre os moradores, da comida levada e distribuída por pessoas e organizações, com dinheiro de rifas para a compra de medicamentos, com profissionais de arquitetura e engenharia para a construção de habitações que não sejam sepultadas com as enchentes.

E Francisco encerra o ensinamento: “A fé que não se faz solidariedade, é uma fé morta. É uma fé sem Cristo, uma fé sem Deus, uma fé sem irmãos”. “Por isso mesmo, quero encorajar-vos a contagiar com a fé estas ruas, estas vielas”.

E junto com Francisco dizemos que é preciso contagiar com a fé as ruas de nossas cidades onde cresce o número de moradores abandonados ao relento que dormem enrolados em trapos.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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