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Falta humanidade

A crise do petróleo nos anos 1970 tirou da prateleira de disputas acadêmicas o debate sobre intervenção estatal ou total liberdade para agentes atuarem na economia. Ainda que aceitável no plano teórico a dicotomia estado x mercado é falsa quando se trata de como se dão relações sociais envolvidas na produção, circulação e distribuição de bens, serviços e conhecimento.

Mais falsa ainda em países centrais, onde lideranças conservadoras como Reagan e Thatcher adotaram como estratégia culpar a intervenção estatal pela redução de dinamismo econômico provocada pelo aumento do preço do petróleo. Falsa porque os governos estadunidense e inglês sempre fomentaram seus complexos industriais-militares-financeiros.

O discurso foi utilizado na prática para confrontar, dentre outros, sindicatos e a academia comprometida com a socialização do conhecimento. Mas, expandiu-se para postular a supremacia de interesses individuais sobre o bem comum como expressou Thatcher “… não existe sociedade. O que existe são indivíduos homens e mulheres e famílias.”

Supremacia de interesses de poucos que foi ampliada de forma exponencial nas últimas décadas com as possibilidades das tecnologias da informação e das comunicações; com a liberdade de circulação financeira e com a globalização da produção. Supremacia cujos resultados nefastos estão cada vez mais claros para quem se dispõe a ver e escutar.

O descaso pelo bem comum e a apologia da teologia da prosperidade resultou no aumento crescente entre os que têm muitíssimo e os que nada possuem. Fosso que em países como os Estados Unidos e Inglaterra motivou a ascensão do populismo de direita de Trump e Boris Johnson e seus discursos xenófobos.

Descaso pelo bem comum que no Brasil levou ao desconforto da classe dominante com direitos sociais consagrados na Constituição de 1988 e operacionalizados nos governos progressistas entre 2002 e 2014. Desconforto a ponto de, com o apoio da mídia e da academia submetidas a interesses do mercado, ter reagido com o golpe de 2016 e com seu desdobramento que elegeu o coiso em 2018.

Resultados do golpe e seu desdobramento aí estão. Dentre outros: o desmonte de tudo o que possa significar valorização do bem comum social e ambiental; interesses individuais e empresariais valorizados ao extremo, do porte de armas ao descaso com a soberania nacional; desrespeito aos direitos humanos; forma indigna de tratar povos originários, recursos naturais e o meio ambiente.

Seja em países centrais, no Brasil ou em outros, mundo afora, a supremacia dos interesses de poucos sobre os da maioria da população tem levado a um empobrecimento social inclusive no direito de sonhar. Supremacia e exclusão que estão na essência do neoliberalismo. Neoliberalismo enquanto ideologia e ação política sem qualquer compromisso com a humanidade.

Arlindo Villaschi
Professor de Economia
arlindo@villaschi.pro.br

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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