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EXISTE RACISMO NA IGREJA? COMO ELE SE MANIFESTA?

Meus irmãos, não tenteis conciliar a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo glorioso com a acepção de pessoas. (Tg 2,1).

Considerado do ponto de vista técnico, o racismo é definido como um substantivo masculino que se resume em um conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias. Do ponto de vista prático um desserviço às relações sociais, muitas vezes hereditário ou contagioso que como o vírus de uma gripe passa-se despercebido, às vezes camuflados de brincadeiras, jargões ou piadas justificadas com argumentos tipo: “eu tenho vários amigos negros”, “a irmã da minha bisavó era casada com negro”. Isso para dar um exemplo dos negros. O mesmo se faz com índios, asiáticos e qualquer outra raça ou etnia que se difere do prestador do desserviço.

Embora haja uma eterna negativa da existência de racismo, camuflada sobre a ideologia da “democracia racial”, casos são frequentes no dia a dia. Não muito raro estamos envoltos com notícias de práticas discriminatórias referentes à cor ou raça de alguém e em muitos casos praticados por pessoas tidas como esclarecidas.

A externalização do preconceito racial acaba estando em caminho bem estreito com a condição econômica, social e intelectual de quem sofre o preconceito. Certamente, em uma relação face a face, é muito mais fácil diminuir o outro, por sua cor ou raça, quando esse se apresenta em condição econômica, intelectual ou profissional “menor”. Isso porque não se trata simplesmente da não aceitação da cor do outro, é também uma luta de poder, um se impor sobre outro puramente por acreditar que sua raça ocupa um lugar superior.

Há outra face do racismo poderíamos chamar de um “racismo reverso”, quando o próprio sujeito se convence da inferioridade de sua raça em relação a outras. Deixa-se de frequentar determinados lugares, fazer determinadas coisas por convencimento de que não é lugar ou condição para alguém da sua raça ocupar.

Dessa forma, o racismo tem uma via de mão dupla que está impregnada no imaginário ou no inconsciente dos sujeitos que, embora muitas vezes não verbalizem tal compreensão, externalizam pela forma de olhar, abordar ou se comportar em determinados ambientes.
Em artigo publicado na revista Carta Capital em novembro de 2017, a jornalista e doutora em Ciências da Comunicação e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas, Magali do Nascimento Cunha, defende a desconstrução do conceito de raça para definir diferenças regionais ou cor da pele de alguém. Segundo Magali, a noção de raça, construída para justificar a desigualdade e a exploração da África e da Ásia pelos europeus, foi demolida com o desenvolvimento do Projeto do Genoma Humano nos EUA no fim do século XX. Os resultados mostraram que as diferenças genéticas entre negros e brancos não existem. Nesse sentido, o conceito de raça pode ser aplicado a animais não racionais, mas não aos humanos. Entre homens e mulheres, só há uma raça, a humana.

A mesma intuição inspirou os padres conciliares durante o Vaticano II, quando na “Gaudium et spes” ressaltaram que a igualdade fundamental entre todos os homens deve ser cada vez mais reconhecida, uma vez que, dotados de alma racional e cria- dos à imagem de Deus, todos têm a mesma natureza e origem; todos remidos por Cristo têm a mesma vocação e destino divino.
A compreensão dos padres conciliares é que os homens não são todos iguais quanto à capacidade física e forças intelectuais e morais, variadas e diferentes em cada um. Mas deve superar-se e eliminar-se, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão do sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião.

Passados quase 55 anos do Concilio, ainda há muito que fazer no intuito de consolidar tal compreensão. Embora em muito superado, o racismo ainda se manifesta de forma velada em todos os ambientes, inclusive dentro dos meios eclesiais. Negar que haja racismo na Igreja seria o mesmo que afirmar que a Igreja não é formada por homens e mulheres, embora tenha sua origem na vontade divina. O que ocorre é que o ambiente eclesial acaba por forçar práticas, olhares e comportamentos velados que poderiam se revelar ainda mais escandalosos dado o ambiente onde estão.

Na história não foram poucos homens e mulheres impedidos de acesso à vida sacerdotal e religiosa por sua cor ou raça. Não raro, notam-se olhares de estranheza na assembleia, quando o padre que adentra a igreja é negro. Porque a estranheza em um país de maioria negra?
A “sutileza” do racismo, disfarçado de brincadeiras ou piadas, está presente em todos os lugares, em todas as rodas, inclusive nas rodas eclesiais. Ele ocupa o imaginário que se for por brincadeira não tem problema.

O racismo na Igreja existe, velado por atrás de brincadeiras, olhares ou expressões verbais e faciais que dizem e machucam muito mais do que se pode imaginar.

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Adelson Soares da Silva
Padre, capelão Militar da Marinha do Brasil, pós-graduado em Doutrina Social da Igreja e especialista em Cultura e Meios de Comunicação.

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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