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EX DUCERE - EDUCAÇÃO - CONDUZIR PARA FORA

A vida é um acontecimento assombroso e maravilhoso. Uma experiência inédita a cada dia; um tempo a ser cumprido; uma eternidade a ser tempestivamente buscada e vivida; um mistério sempre a ser compreendido. A vida, movimento de partículas, feixe de fluxos, articulação de forças, danças e saltos, idas e vindas, velocidades e lentidões, capturas e fugas, altos e baixos, sempre se insere numa busca incansável e ininterrupta de mudanças e crescimento e que tem um propósito: ser mais vida. Nesse movimento de se potencializar, a vida decidiu pensar, sair de si, romper o casulo dos instintos e da mera necessidade de sobrevivência, ir para fora, encontrar-se com o mundo e nele se admirar, se alegrar e se fazer perguntas.

Não há nenhum outro movimento na vida – nem nos momentos que antecedem a morte – que não o do desejo de querer ser mais vida. Ela luta até não poder mais. A semente da ressurreição tem essa potência. A vida é. A vida quer. A vida se arranja para ser e continuar a ser. Esse movimento de força e beleza está presente em cada ser vivente. Esse acontecimento – que tem no ser humano como uma pequena parte um “eu” que identificamos como o “dono” da vida, um “eu” que aprende a dizer “a minha vida” – vai irresponsavelmente sendo desconsiderado, desvalorizado. Milhares de “espécies”, ou seja, milhares de milagres, fenômenos estão sendo exterminados da face da terra. Animais são cruelmente maltratados das mais inimagináveis formas no processo de se tornarem alimento. Venenos e mais venenos são aprovados no Brasil para facilitar o ganho do agronegócio. As abelhas, pobres abelhas, morrem aos milhares por causa dos pesticidas. Populações inteiras de humanos famintos são esquecidas em várias partes do globo. Só se fala da situação difícil de países cujas reservas de petróleo são importantes. Que tristeza! Como somos capazes de tratar o mundo e a sua vida dessa maneira! Não por acaso a arma (morte) se tornou símbolo de campanha eleitoral.

Mas a vida em sua longa caminhada neste planeta foi capaz de forjar a capacidade de se voltar para fora, de se enxergar, de pensar, de se ver no mundo. Essa capacidade se deu em nós (mesmo que não nos pertença e nem dependa de nós) e por estarmos nesse fluxo somos, por lógica consequência, chamados ao compromisso de nos diferenciarmos cada vez mais por essa capacidade: pensar.

E se valorizamos o amor haveremos de valorizar o pensamento. O pensamento torna o amor eficaz. O pensamento tornando eficaz o amor, potencializa-o.

Por certo não amamos com base na ignorância. E como podemos favorecer o pensamento? Como podemos nos tornar mais capazes de pensar. A vida nos força ao pensamento, mas é a educação quem potencializa o pensamento porque a educação é – ou deveria ser – o processo facilitador para que a vida se volte ainda mais para o mundo, conduza-se para fora (ex ducere) para ver a si mesma no mundo. Ou seja, a educação é o processo em que facilitamos a vida no seu desejo de pensar, de nos libertar disso que fizemos de nós mesmos, e nos dirigir para fora para que criemos mais e mais conexões com o mundo.

O capitalismo em seu atual estágio de desenvolvimento investe cada vez mais na constituição de um sujeito preso em si mesmo, que quer “se” realizar, que quer ser o “tal”, que quer obter o máximo de satisfação pessoal por aquilo que o dinheiro compra. Cada vez mais na corrida pelo dinheiro cada um vai se tornando prisioneiro desse “eu”.

A educação, portanto, é a chance de se contrapor a esse grande movimento egoísta de “realização” pessoal destruindo o mundo. A educação conduz-nos para além do que nossa visão egocêntrica enxerga e que o senso comum nos mostra.

Dauri Batisti
Padre, Psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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