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Esperança para o esporte capixaba pós-Rio 2016

Dentre os esportes presentes nas Olimpíadas Rio 2016, seis modalidades (vôlei de praia, ginástica, atletismo, natação, triatlo e handebol) terão representação do Espírito Santo. Nove atletas (Alisson Cerutti – vôlei de praia; Natália Gaudio – ginástica; Anderson Varejão – basquete; Thiago André – atletismo, Nacif Elias – Judô/Líbano; João Luiz Gomes – Natação; Pâmella Oliveira- Triatlo – e, Alexandra Nascimento – Handebol) do Estado ‘chegaram lá’ no ano em que os Jogos Olímpicos acontecem no Brasil.

Parece-lhe pouco? Ficou surpreso? Achou muito? Diversos profissionais técnicos em diferentes modalidades esportivas dizem que o Estado do Espírito Santo está bem representado. Para o professor de basquete, Marcos Tadeu Carvalho Loureiro, o Mug, comparando “com o investimento que o Estado faz, temos até uma boa representação” e para concordar com ele, juntam-se a técnica de vôlei de praia, Luana Amorim: “nove é um número grande e poderia ter mais se houvesse investimento”, o técnico também de vôlei de praia, Francisco Leandro Andreão, o Brachola: “o Estado está bem representado, temos modalidades diferentes e atletas de qualidade” e, a técnica de ginástica, Monika Queiroz: “os atletas e técnicos são competentes e amam o que fazem, mais por esforço próprio do que por apoio. É o mérito da dedicação”.

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Dedicação do profissional e do atleta também foi uma constante nas conversas com os profissionais. Todos, sem exceção, afirmam que o esforço individual, a entrega, a persistência, o gosto, o ‘trabalho feito com o coração’, como disse Mug, são os elementos que constroem o atleta do Espírito Santo.

 

Falta de investimento

Para Robson Luiz Rodrigues, o Robinho, coordenador do Projeto ‘Vôlei Vida’ que oferece à comunidade futsal, vôlei, capoeira e ginástica para a terceira idade, na região de Guaranhus, Vila Velha, sendo portanto, um Projeto de Inclusão Social, “a continuidade dos projetos depende de investimentos do estado e da iniciativa privada” mas, no Espírito Santo essa cultura parece longe do ideal. “Existe falta de cultura esportiva de todas as partes. O empresário é imediatista, mas o retorno do investimento no esporte não é dinheiro, é a melhora da sociedade”, afirmou Mug. A sensação de descontinuidade fica clara quando Luana conta sua experiência no COES, Centro Olímpico do Espírito Santo. O COES foi criado em 2012 com o propósito de “tornar o Espírito Santo referência esportiva em nove modalidades olímpicas: badminton, boxe, ginástica artística, ginástica rítmica, handebol, judô, natação, taekwondo e vôlei de praia” (definição extraída do site do Governo). Foi extinto em 2014 sem qualquer explicação, apenas deixando de pagar os profissionais que atuavam no Centro, isto às vésperas das olimpíadas no Brasil. Para entender as razões referidas pelos entrevistados basta verificar que das nove modalidades citadas apenas quatro estarão representadas pelo Estado nas Olimpíadas do Rio 2016 e, que o COES não existe mais. Para Robinho que viu alguns jovens do Projeto ‘Vôlei Vida’, como André Stein e Karol Rocha, chegarem a competições internacionais e nacionais respectivamente, o COES era a oportunidade de “alavancar o esporte: pessoas, profissionais de alta qualidade e metodologia com técnicas e exercícios para que, desde cedo, a criança aprendesse a tomar decisões, desenvolvesse o intelecto e se tornasse um atleta de alto rendimento, mas perdemos essa oportunidade”. Luana que trabalhou no COES considera fundamental a preparação de atletas novos para substituir os de hoje e diz que “preparar um atleta de alto rendimento demora cerca de 10 anos, por isso é necessário um trabalho contínuo”. Porém, Monika, Brachola, Robinho e Mug concordam com Luana de que o Espírito Santo está praticamente paralisado desde 2014. Da Secretaria de Esportes do Estado nenhuma explicação para a extinção do COES, apenas que “as atividades agora são coordenadas pela Secretaria”.

Outro retrocesso apontado por Mug foi o cancelamento do projeto Segundo Tempo, da Prefeitura de Vitória, um programa do governo federal que funcionava no contra-turno escolar. “O programa contava com profissionais, uniforme e lanche e acontecia no Clube Álvares Cabral. Parou porque a Prefeitura de Vitória na gestão atual não teve capacidade de administrar e prestar contas. A mesma criou outro projeto com recursos próprios mas, não tem estrutura adequada e não funciona bem”.

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Muito bem avaliado são os Jogos Escolares, competições municipais e estaduais que acontecem regularmente e servem como motivação entre escolas municipais, estaduais e particulares que têm o esporte como valor na educação.

 

Expectativas

Empolgação e expectativa com a aproximação das Olimpíadas Rio 2016 foram expressas de maneiras diferentes. “A realização das olimpíadas vai incentivar todos os esportes”, disse Mug. Para Monika, “será algo indescritível para os atletas. Para o povo brasileiro, um momento para mudar conceitos sobre esporte, cidadania e sociedade”. “Um desastre”, segundo Luana que não confia na estrutura montada, embora já tenha comprado ingresso para assistir. “A possibilidade das crianças assistirem e que a Olimpíada no Rio crie novos heróis”, disse Robinho e mencionou Alison e Bruno do vôlei de praia. No entender de Brachola, “os Jogos vão influenciar e motivar o olhar para o esporte, porque as pessoas terão oportunidade de participar ou assistir”.

 

Perspectivas

Estado com pouco investimento, falta de cultura esportiva, empresários visando retornos imediatos e, ao mesmo tempo, atletas de alto nível, novos talentos surgindo e profissionais dedicados e competentes. O que fazer pós-Rio 2016?

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A primeira conversa sobre este assunto foi com a professora de Educação Física, Margareth Cirne Rocha, especialista em psicomotrocidade e natação e mãe da atleta de vôlei de praia, Karol Rocha. Para ela “o celeiro dos atletas são as escolas públicas, porque tem grande diversidade de talentos e, também porque, nem sempre aquele que poderá tornar-se um grande atleta, é quem demonstra ser mais habilidoso no início. É ali que o professor vai perceber e encaminhar, porque é na escola que o aluno tem a oportunidade de se revelar”. É ainda o professor que poderá indicar e intermediar o acesso do aluno, seja a projetos, ou a profissionais capacitados para os treinarem em níveis de alto rendimento. Nisso concordam Margareth e Mug. Margareth encaminhou alunos para o projeto Vôlei Vida e Robinho apresentou alguns deles a Brachola. “A escola recebe, abraça e motiva o aluno para que ele participe dos jogos. Cabe ao estado e aos clubes formar e apoiar o atleta”, concluiu Margareth.

Celeiro, porta de entrada, “espaço para fazer crescer o atleta”, disse Mug que concorda sobre a importância da escola. “A escola desperta, mas não faz bem esse papel. Por isso quem quiser crescer tem que procurar outros caminhos. Se a criança inicia a educação física ou o esporte com movimentos errados, dificilmente vai crescer como atleta”. E Luana complementa: “para se tornar atleta de alto rendimento é preciso ter nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo e treinador, se não tiver não chega no rendimento máximo”.

Para Robinho, Luana, Margareth e Mug, o esporte é importante desde o ensino básico porque com ele a criança aprende disciplina, comprometimento e responsabilidade, mas para o desenvolvimento do atleta é importante também a técnica e a competição regular. “Ter um bom número de competições com regularidade é importante desde os primeiros anos. Se melhorar o inicial e tiver competições organizadas vai influenciar as categorias superiores, porque a competição motiva”, é o que pensa Brachola.

Existem projetos por todo o Estado. Piúma e Itapemirim destacam-se no Vôlei de Praia, mas todos os municípios têm secretaria de esportes, verbas e a obrigatoriedade de participar das competições, portanto muito mais poderia ser feito pelo esporte e pelos talentos do Espírito Santo. Existem projetos de inclusão que trabalham com esporte, clubes que participam e investem em competições, como o Álvares Cabral, escolas que acreditam na transformação pelo esporte, mas no todo “o estado é insipiente, a gente é carente de cultura esportiva”, falou Brachola.

As Olimpíadas estão aí, fica a esperança de que os Governos estaduais e municipais criem condições de desenvolvimento para o esporte escolar; as escolas assumam pra valer o papel fundamental e imprescindível de descobrir talentos, como disse Margareth; os empresários entendam que investir no esporte é contribuir para melhorar a sociedade, como mencionou Mug; os profissionais continuem apaixonados pelo trabalho de preparar atletas e vibrem ao vê-los crescer e partir em busca de títulos, como disse Mônika; e, os atletas tornem-se heróis na modalidade que escolherem e na vida pessoal.

Mónika

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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