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É imprescindível que se queira ver

Sem cair numa pseudo-sabedoria de analisar “profundidades”, e até mesmo fugindo dessas tentativas, tomamos aqui neste pequeno texto outro caminho, o que se coloca exatamente ao oposto daquele, e que se propõe a olhar as superfícies. Sim, as superfícies. Talvez seja essa uma necessidade premente, procurar nas superfícies dos acontecimentos, no que se explicita sem disfarces, as inscrições que definem se a vida tem sido favorecida e potencializada ou se, ao contrário, dela se tem aproveitado ao máximo para o benefício daqueles que não carecem de favor nenhum.

Olhai, diz Jesus nas suas exortações, os lírios, os pássaros, os sinais. Felizes são os olhos quando veem, ele afirma.

Não sei se por descaramento dos poderosos ou por absoluta certeza de que as pessoas não enxergam o que está diante delas, o jogo de interesses na economia, nos governos, na mídia não é mais um jogo que acontece nos subterrâneos. Basta olhar para ver. Basta resgatar a própria capacidade de enxergar o que está diante do nariz. Mas não. Não se vê o que está aí. O pão parco, amargo, e o circo bem performatizado pelas poderosas oligarquias midiáticas têm sobre todos uma eficácia muito maior do que supunha o poeta romano Juvenal em suas Sátiras e em sua aversão pela plebe quando criou a expressão panem et circenses para se referir a política romana de então.

Marquemos o que escancarado está, qualquer um pode ver. Mas é imprescindível que se queira ver. Jesus sempre instava os pobres que encontrava pelos caminhos para que exercessem aquele último recurso de suas vidas ainda não espoliado: o querer. Você quer…?

Vejamos:a classe média não existe mais, pelo menos na maior parte do mundo. Existem pobres e ricos. Existem aqueles que precisam trabalhar e os que não. Cada vez mais a humanidade se estratifica entre aqueles que concentram poder e dinheiro e aqueles que se digladiam para vender a única riqueza que têm – a própria vida (com suas forças, criatividades e inventividades). A classe média é uma espécie em extinção até mesmo nos EUA.

Os pobres se subdividem: mais pobres, menos pobres. Ou, poderíamos até desdobrar a pobreza em pobres e extremamente pobres, como faz o banco mundial. Extremamente pobres seriam aqueles que tentam sobreviver com menos de 1,90 dólar por dia. Segundo a UNICEF, a população mais atingida pela extrema pobreza está entre 0 e 17 anos, num total de 380 milhões de pessoas (www.unicef.com). Só não vê quem não quer. O futuro se fecha especialmente para crianças e jovens. Onde está o resultado do “progresso sustentável” que tanto se apregoa e do desenvolvimento possibilitado pelo neoliberalismo tão defendido por muitos pobres da “classe média” brasileira e que está em vias de grosseira implementação por aqui?

Os pobres da presumida classe média, mesmo e apesar de suas aspirações, sonhos e possíveis méritos, mesmo e apesar de seu moralismo e patriotismo démodé, jamais ascenderão ao seleto clube dos que concentram poder e riquezas. As estatísticas mostram. A riqueza do mundo cada vez mais se concentra nas mãos de poucos. Não há vagas para novos membros nesse clube. Da classe que está acabando não se sobe, só se desce. Triste é quando os pobres da classe média adotam a perspectiva dos grandes e poderosos. Ai meu Deus…

Parece que precisamos retomar o Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. No mínimo seria bom prestar atenção ao pão que se mastiga e, quem sabe, tomar a decisão de cuspi-lo fora, e seguir adiante dando as costas ao circo, inventando outras alegrias.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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