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DISCURSO: O DESAFIO DE AGREGAR ALGO MAIS ÀS PALAVRAS

Mais do que a transmissão de uma mensagem, o discurso pode ser encarado como uma arte, pois para que uma informação seja assimilada é necessário agregar a ela emoção, entusiasmo e expressão corporal, imprimindo-lhe, além do conteúdo, forma. É sobre este assunto, com uma abordagem feita na comunicação da Igreja, que trata o livro “Discurso Espetacular”, do Mestre em Ciências das Religiões, jornalista e radialista Alessandro Gomes.

Quem é o público-alvo do livro Discurso Espetacular?

O livro destina-se a padres, pastores, diáconos, seminaristas, leigos, comunicadores, acadêmicos e a todos que apreciam a comunicação e Análise de Discurso. A ideia é que todo mundo que ler esse livro tenha condição de avaliar o seu próprio discurso em situações diversas, quer seja uma homilia ou, por exemplo, uma apresentação de trabalho de faculdade, uma apresentação de tese de mestrado, doutorado ou também em situações mais simples como uma entrevista de emprego. No livro eu abordo o discurso como um espetáculo, pois ele tem forma e conteúdo, assim como qualquer fala que passa por expressões corporais, faciais ou a maneira de se vestir, por exemplo. Então, essa forma e conteúdo, as duas juntas, é que vão dar ‘cara’ para o discurso.

Como foi essa abordagem?

Eu busquei o escritor francês Guy Debord em seu livro “A Sociedade do Espetáculo”, no qual trata sobre tudo aquilo que é real e irreal, no discurso. O irreal é aquilo que projetamos para além de nós mesmos. Um discurso pode ter conteúdo, mas pode ser irreal, dependendo da maneira como é apresentado.

No livro, Debord dá o exemplo do espelho. Nossa imagem projetada no espelho é irreal, pois é um reflexo. Nós somos a realidade, não nosso reflexo. O discurso é a mesma coisa; vemos aquilo que não é real. Quando nos olhamos no espelho, vemos ali o reflexo de alguém, e não a pessoa, o irreal, porque é só um reflexo, algo que não tem forma palpável, mas tem forma, porque tem a forma de alguém. Então, a irrealidade do discurso, parte principalmente da retórica. Na hora de discursar, muitas vezes o falante quer que você entenda aquilo que ele quer que você aprenda e não o que é verdadeiro. É a imagem no espelho.

Isso não lhe parece perigoso?

Quando partimos para a prática, por exemplo, na homilia ou em uma apresentação, o perigo está exatamente quando vamos para os modismos, para a irrealidade. Também existe o perigo quando quem discursa quer impor sua maneira de pensar.

A pessoa que discursa tem essa noção?

Não. É instintivo. Aí tem uma outra parte do livro que eu trato do ethos, ou seja, a própria pessoa, que é o que é, e que dificilmente vai mudar completamente. O discurso quando é preparado, tem muito de quem escreve e é preciso ter cuidado, pois aí está o perigo do irreal. Quando falamos de fake news, temos que entender que não é só a informação 100% falsa, mas também é algo que quem escreve quer que o outro entenda.

Existe uma forma de não cair nessa armadilha?

A gente consegue evitar, ou diminuir esses riscos, buscando conhecer quem é essa pessoa que está discursando. O que ela pensa, o que outros escritos dessa pessoa transmitem. É conhecer o discurso do outro.

Como surgiu a ideia do livro?

Eu observava muito do discurso da Igreja (homilias dos padres). Eu lia e questionava algumas coisas para mim mesmo e isso foi um estímulo para eu me aprofundar no assunto. Nesta época eu já dava aulas e certo dia uma aluna me contou que, com base em uma aula minha, havia resolvido estudar o discurso dos políticos na eleição para governados. A experiência que fizemos juntos me despertou ainda mais para o assunto discurso. Bom, eu era da Igreja, era da área da comunicação e gostava de discurso. Foi então que procurei um curso de Ciências das Religiões para fazer um mestrado nessa área, exatamente nessa linha de pesquisa do discurso religioso midiático e entendi que eu queria pesquisar mesmo era o discurso dos padres. Passei a querer entender como os padres colocavam forma em seus discursos, pois conteúdo eles tinham. Então eu fui estudar o discurso dos padres da Igreja Católica Apostólica Romana na mídia. Daí nasce o livro.

Qual foi a conclusão sobre como colocar forma no conteúdo?

Eu cheguei a conclusão que a maneira de falar, a maneira de se movimentar, de se expressar e até o local onde o discurso acontece influencia na assimilação dessa mensagem. Foi surpreendente observar nessa pesquisa que o padre que fala dentro da igreja tem muito mais desenvoltura do que o padre que fala em uma missa campal, ou seja, fora de sua zona de conforto.

Cheguei à conclusão que se o padre não tiver forma o suficiente, a mensagem do seu discurso não passa através do rádio. O ouvinte de futebol, por exemplo, precisa “ver ouvindo”. O narrador dá detalhes usando uma linguagem criativa, metafórica sobre os lances que acontecem no jogo, para que o ouvinte possa “enxergar” o que acontece no jogo. Faz com que a pessoa “veja” o gramado, a cor do uniforme dos times. A mesma coisa teria que acontecer com o discurso do padre no rádio e na televisão, só que no rádio temos apenas o recurso do áudio. Entretanto, quando ele sorri, gesticula e até quando franze a testa, a pessoa que está do outro lado capta melhor. O gestual é a forma. Se o padre não o faz, ele leva o ouvinte para o irreal. Tudo o que um padre, ou eu, ou você, ou qualquer um for estudar para falar, como vai ter o ethos do falante, terá sempre algo de irreal e o irreal dá abertura para o ouvinte interpretar da forma que ele quer. Só o real já dá, imagine o irreal.

Que avaliação você faz sobre a forma como a Igreja se comunica hoje?

A Igreja Católica, no mundo, não aprendeu a se comunicar ainda. Existe muita deficiência porque a comunicação da Igreja é extremamente fragmentada. Cada diocese no Brasil, no mundo, cada paróquia, cada comunidade, costuma ter a sua comunicação independente. Não existe uma linha de comunicação que seja respeitada. Isso acontece não somente na Igreja Católica, mas em outras Igrejas e outras instituições também. Para o livro eu entrevistei várias lideranças da Igreja Católica e todos os gestores da área da comunicação, administrativa, pastoral e do clero, independente da diocese, todos foram unanimes em dizer que a Igreja se comunica mal.

Mas tem receita para se comunicar bem? O que você acredita que pode ser melhorado na Igreja?

Tem. Tem que começar de cima, especialmente na formação dos padres, na comunhão entre os veículos da Igreja e uma participação, senão integral, pelo menos majoritária, dos membros da Igreja nesses veículos. É preciso que se divulgue esses veículos e que se crie a mentalidade para que eles se tornem uma fonte de informações de referência, de confiança para o público católico. Então, o discurso dessas lideranças entrevistadas, me preocupa, porque mostra que a Igreja não assumiu o diretório de comunicação e esse diretório é fruto de uma reflexão longa. Se avaliarmos Santo Domingo, Medellín Puebla, Aparecida, o resultado dessas conferências falam o tempo todo da necessidade de usar os veículos de comunicação da Igreja até para contradizer fake news. Defendo ainda a importância dos padres pesquisarem mais a comunicação e é importante que a Igreja incentive isso.

Como você acha que o público católico avalia a comunicação na Igreja?

Para eles, a comunicação da Igreja está na fala do padre. Por mais que eles digam que precisa de algo mais, o principal para eles está na fala do padre. Por exemplo; se o padre der as notícias e avisos após a missa, as pessoas gravam. Mas se é qualquer outra pessoa, a mensagem não é assimilada. As pessoas vão esquecer o que foi dito. É a autoridade falando. Se perguntarmos a um leigo qual a opinião dele sobre a comunicação na Igreja ele vai dizer que tem falhas, mas será necessário estimular para que ele fale. Porque caso contrário, ele vai dizer que está tudo bom, afinal ele pode estar sendo o espelho, ou seja, medindo a homilia a partir do que ele pensa. Agora, as lideranças vão dizer que a comunicação é falha, tem dificuldades. Aos olhos dessas pessoas lá fora, o padre comunica bem e a Igreja comunica mal. Eles não sabem diferenciar isso.

O que te surpreendeu na sua pesquisa?

O que mais me surpreendeu mesmo foi a conversa com os gestores, quando eles admitiram que a Igreja comunica mal. Para eles a Igreja não comunica bem e não tem feito nada para comunicar bem.

Como foi a receptividade do seu livro e como você pretende trabalhar esse conteúdo na Arquidiocese de Vitória?

Em Campinas, a livraria Paulus e a TV Século XXI se interessaram muito pelo livro. Surgiu um convite para uma palestra para alunos e professores do Seminário de Campinas e também um convite para participar de uma formação para os membros da Pascom da Diocese de São Paulo, em outubro próximo. Aqui em Vitória, o lançamento acontece em junho. A semente está lançada e eu me coloco à disposição da Arquidiocese.

Andressa Mian
Jornalista

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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