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Descarte de comida, descarte de pessoas

Em um discurso aos membros voluntários da Federação Europeia dos Bancos de Alimentos, o Papa Francisco afirmou que “descartar a comida é descartar as pessoas” e na ocasião, agradeceu a esta organização por “dar de comer a quem tem fome”.

Em todas as épocas esta era uma preocupação central na vida das comunidades, o que fez com que Jesus nos convocasse para esta obra de misericórdia – dando comida a quem tem fome – em vista do Reino dos Céus. Mas ainda estamos bem distante de comprovar que não há nenhuma pessoa com fome em nosso bairro, em nossa cidade e em nosso mundo.

Muitos entendem que isso seria assistencialismo, mas o Papa nos ensina que se trata de um gesto concreto e silencioso de solidariedade e caridade com os mais necessitados. Para ele, o combate à fome passa em primeiro lugar pelo combate ao desperdício. É necessário coletar para distribuir, e não para desperdiçar. Nisso está o futuro e o progresso dos últimos da nossa sociedade.

A humanidade necessita buscar caminhos saudáveis, solidários e modelos de vida baseados na equidade social, na dignidade da pessoa. “O desperdício não pode ser a última palavra deixada em herança pelos poucos ricos, enquanto a maior parte da humanidade se cala”, completa Francisco. Vejamos alguns dados concretos desta situação.

No Brasil, são desperdiçadas 41 toneladas de alimentos por dia, o que daria para alimentar 13% da população. Por outro lado, infelizmente temos 3% da população em situação de vulnerabilidade alimentar.

A Lei 11.346 de 2006 que criou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional garante que se trata da “realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais”. Em 2014, o Brasil tinha saído do “mapa da fome”, mas recentemente retorna com mais de 6 milhões de pessoas com fome.

Desta forma, o caminho que implica a todas as pessoas, e mais diretamente aquelas envolvidas na cadeia produtiva e comercial, está bem claro nas palavras de Francisco: é preciso evitar o descarte de alimentos. A nós brasileiros significa romper com a cultura do desperdício que vem desde os tempos coloniais. O cuidado com a produção, a colheita, o armazenamento, o transporte, a distribuição, o comércio e o consumo nas casas, todos estes atores/setores, estão convocados a ultrapassar a prática do descarte, do desperdício de alimentos. Um alimento jogado ao lixo é um cidadão faminto morrendo do nosso lado.

Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da Religião

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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