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CORPOS COLONIZADOS

Uma luta por nossos corpos está estabelecida. Sim, eles são os novos territórios a serem colonizados. Nessa luta de um lado estamos nós, esse arranjo de energias, histórias, experiências, percepções, pensamentos, afetos, sensações que nos definem e nos nomeiam como sujeitos, supostos governadores da própria vida. Do outro estão os poderes que tomam nossas forças, disposições, desenvolturas, capacidades, habilidades e criatividades e que se assenhoram cada vez mais de nossas existências. Nessa luta se saem vencedoras as forças que comercializam tudo. Perdemos. Somos colônias. Perdemos (mesmo que sejamos colônias extremamente valorizadas).

Já se foi o tempo em que colônias eram apenas aqueles territórios ao sul do Equador a serviço das potências do norte. Agora colonizam os nossos corpos. Não nos enganemos. E ao sermos assim disputados como colônias, sem que nos demos conta, somos alienados do prazer e do desfrute da própria vida. A vida em si é bem-estar e felicidade, mesmo e apesar de sua brevidade e de seus limites. A posse da própria vida seria o substrato, a razão, a causa primeira da alegria, bem-estar e felicidade. Mas somos impedidos de acessar da vida o que a vida é: vibração, satisfação, posse de si mesma. Para isso – entre outras estratégias (é bom que estejamos atentos) – nos tiram o presente, nos impedem de viver o presente, nos sobrecarregam de futuros que quase nunca chegam, ou nos fazem voltar ao passado como se nele estivessem as causas e entendimentos de tudo o que somos e vivemos. Prometendo um futuro maravilhoso nos cegam para as possíveis maravilhas do agora. Colocando no passado as chaves enigmáticas de quem somos nos enganam ao nos fazer brincar de detetives para que descubramos as origens dos traumas nas nossas relações edipianas psicologizando nossos problemas e desviando-nos do seu enfrentamento. Engodo. Embromação. Manter-nos colônias.

Mas como colônia o corpo não é dispensado de assumir sua depauperação, o ônus de sua exploração. Não nos dispensam, nem nos aliviam de nossas aflições. Antes, delas também se aproveitam, transformando-as em demandas de novos consumos. Medo, assombro, desencanto, estupor, paranóia, dependências compõem a atmosfera, o chão, o meio onde nossas vidas colonizadas são arremessadas. Lá abundam seus produtos à venda, caras receitas de felicidade (ostentação), mágicas substâncias e fórmulas solucionadoras dos mais variados problemas. Ilusões, ilusões e ilusões. Vendidas, distribuídas nos mais variados e atraentes envoltórios.

A pergunta que se pode levantar diante de tal constatação é: onde poderemos referenciar nossas vidas, onde jogar nossa âncora de modo a obter um mínimo de condições e entendimentos para que nos levantemos contra esse processo de colonização de nossas corpos/vidas? Como obter instrumentos que nos favoreçam nessa luta para reconquistarmos nosso corpo como espaço e condição para sermos quem estamos destinados a ser, humanos e desfrutadores da forças e belezas da própria vida?

Se são poucas as estratégias seguras nessa luta de libertação um substrato precisa estar sempre presente nas mentes e corações, e precisa ser afirmado a cada momento, em cada situação, fazendo de meras atividades cotidianas verdadeiros acontecimentos jubilosos: a ligação (ou religação) autêntica, genuína, vibrante com a vida.

06 extra

Dauri Batisti
Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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