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Convivência e interação aliadas ao amor por Vitória

Os amigos Caio e Mainá, proprietários do Guanaaní no Centro de Vitória, contam como um hostel pode ser muito mais do que um simples local de hospedagem

entrevista

vitória – De onde surgiu a ideia de abrir o hostel?
Caio Perim – Eu sempre fui apaixonado por essa casa e pelo Centro. Até que um dia eu a vi à venda, convenci minha família a comprar e nós viemos morar aqui. Eu olhava para ela e achava que daria um belo hostel, até que surgiu a oportunidade quando minha família saiu daqui para morar em outro lugar. Encontrei com Mainá, que tinha acabado de voltar da Índia e fiz a proposta a ela.

Mainá Ferreira – Nós gostamos dessa atmosfera de hostel, da experiência de como as pessoas interagem, é um clima muito gostoso. Após um ano morando na Índia, eu estava bem perdida, sem saber o que fazer da vida, e ele veio com o convite para abrir o hostel e eu topei na hora. A gente nem sabia no que estava se metendo, não sabia em que isso ia dar. Fiz meu Trabalho de Conclusão de Curso com um plano de comunicação para o hostel e, com as minhas pesquisas, pude ver que é um mercado pouco explorado. Sempre achei que Vitória tem um potencial muito grande. A nossa primeira grande felicidade e surpresa foi quando lançamos a página no Facebook e nas primeiras 24 horas já tinha passado de mil curtidas.

vitória – É uma surpresa porque em Vitória não há essa cultura de hospedagem em hostel?
Caio – É uma coisa bem nova. E essa foi uma coisa surpreendente também. Claro que a gente corre muito atrás, mas não foi tanto como imaginávamos. A gente percebeu que as pessoas precisavam disso aqui em Vitória, era um mercado que precisava muito nascer, e a resposta foi surpreendente.

Mainá – Muito brasileiro que ainda não havia vindo aqui, veio e descobriu que Vitória é tudo de bom, que o Espírito Santo tem muitas opções. Os moradores aqui da redondeza vêm, tomam um cafezinho, contam muitas histórias da cidade e dessa casa, que foi construída pelo Coronel Monjardim e por muitos anos o Dório Silva morou aqui.

vitória – O hostel também ajuda no resgate da história do Centro?
Caio – Eu acho que acaba endossando sim. Eu costumo até contestar quando falam em revitalização do Centro, porque o Centro sempre foi vivo, com uma vida muito interessante, da galera do teatro, da dança, da música. Mas agora as pessoas voltaram os olhares para a beleza do Centro.

vitória – Ao pensarem o hostel, o que vocês gostariam que ele fosse?
Mainá – Foram meses de conversa, até achar o nome, por exemplo. Chegamos a Guanaaní, que era como os índios Goytacazes chamavam Vitória, a Ilha do Mel, e com esse nome a gente queria resgatar a cultura daqui, queríamos que a casa fosse de fato esse resgate, essa tradução. Estamos sempre convidando artistas para expor suas obras aqui, sempre quisemos colaborar com os artistas locais. Pela nossa recepção já dá para notar isso, pois é cheia de presentes que ganhamos de quem passa por aqui, obras diversas, pinturas, e a decoração do hostel é o que mais chama a atenção dos hóspedes.

Caio – E é o que nós temos feito. Trabalhamos com a colaboração o tempo inteiro. Agora a gente vai decorar os quartos com uma design que está super empolgada, então nós temos esse pensamento de ser um centro de conexões, de interação, respeito, amor, paz, dos hóspedes com a cidade.

Mainá – E o mais interessante é como os hóspedes sentem isso. A casa impõe esse respeito, o carinho, cuidado e a galera responde muito bem. Na nossa ideia inicial também, a gente pensava em como Vitória não tinha espaço para a arte, sem ser os locais oficiais.

entrevista 2

vitória – Como funciona a vida do hostel?
Mainá – É uma rotina muito doida. Nos primeiros sete meses era só eu e Caio e a gente fazia absolutamente tudo. A gente trabalhava no mínimo 70 horas por semana. Até que começamos a trabalhar com um esquema de troca de hospedagem por trabalho e isso vem funcionando muito bem.

Caio – É como se fosse a rotina de uma casa. Você precisa fazer compras, ver o que está acabando, trocar uma lâmpada que queima. Mas com uma coisa muito gostosa, que é fazer tudo isso com vários amigos, porque os próprios hóspedes ajudam também nessas tarefas. É uma relação muito legal.

Mainá – Tem um lado muito difícil que é a hora deles irem embora, depois de termos feito essa amizade.

Caio – Ou seja, a mesma parte que é difícil é boa, que é a saudade.

Mainá – E tem a parte muito boa, que é quando alguém vem passar uns dias e passa semanas.

Caio – Esse diálogo que a gente queria fazer, talvez até fosse um pouco ambicioso, no sentido de dialogar desde a arte, até o esporte de aventura, está funcionando. A gente tem fechado parceria de A a Z, hóspedes de diversos lugares diferentes.

vitória – Qual público o hostel recebe?
Mainá – Desde pessoas que vêm fazer prova da Ufes, participantes de congressos, famílias tirando férias, empresários, mochileiros que estão conhecendo a cidade.

Caio – São pessoas de mente e coração abertos a conhecer o novo. E aqui eles acabam tendo uma ponte com a cidade que eles não teriam em um hotel. Porque nós somos nativos e completamente apaixonados por Vitória. Então faz toda a diferença você ser apresentado a uma cidade pelo anfitrião. Hoje mesmo saiu uma família determinada a mudar para Vitória, falando em procurar concursos para vir morar aqui.

vitória – O que mudou na vida e na cabeça de vocês após 1 ano e 4 meses dessa experiência?
Mainá – Tudo (risos)! É difícil falar. Eu fui lendo no Facebook há uns meses atrás os comentários das pessoas que passaram aqui, sobre como a gente fez com que fosse uma experiência positiva para eles. Então mudou muito e eu já não consigo imaginar minha vida sem isso.

Caio – Para mim também foi uma revolução. Não só para mim, como para a minha família, porque eles saíram, mas toda a nossa história ficou, então foi muito interessante. Nós decidimos deixar aqui na casa tudo que fez parte da nossa história, uma forma deles continuarem presentes aqui e para as pessoas vivenciarem isso também. Inclusive um hóspede reconheceu a minha avó em uma foto e disse que trabalhou mais de 40 anos para ela em Taubaté. É sensacional isso.

Mainá – Já vieram dois primos que descobriram o parentesco aqui, vizinhos, muitas pessoas se apaixonaram. É um ponto de muitos encontros. O mundo vem até a gente, então não dá o sentimento de estar preso em um lugar.

Caio – Um grande exercício para a gente é se apegar com essas pessoas, vê-las partir, sentir a saudade, mas deixar apenas sentimentos gostosos, torcer para que voltem, se acostumar com esse vai e vem de gente.

vitória – A lógica do hostel vai um pouco na contramão de um mundo com pessoas conectadas. Como percebem isso?
Caio – No caso aqui, as pessoas potencializam essas ferramentas para promoverem o encontro. Mas essa pergunta é muito legal, porque geralmente quando o mundo caminha em uma direção, sempre tem um grupo que subverte a regra. O grupo que vai para o hostel quer interação, seja com os outros hóspedes, com a gente, com a cidade, com os locais que visitam. Ao invés de usarem GPS, eles perguntam às outras pessoas, têm outra forma de interagir. Apesar de falarem que capixaba é fechado, os hóspedes elogiam muito a educação, a simpatia.

Mainá – Nas nossas experiências, realmente a pessoa que você encontra no hostel pode fazer a sua viagem. Eu fiz amigos quando fui para a Tailândia que são amigos até hoje. O que move é o encontro com as outras pessoas.

vitória – O que existe de Caio e o que existe de Mainá aqui dentro desse hostel?
Mainá e Caio – (Risos) Nossa Senhora! Que difícil isso!
Caio – É muita coisa e não só de nós. A primeira hóspede que foi uma grafiteira paulista, chegou antes mesmo de inaugurarmos o hostel e deixou a arte dela aqui. E isso acontece muito, cada um que passa deixa um pedacinho de si. As nossas famílias e amigos que colaboraram e colaboram ainda com tanta coisa. Nossos corações estão aqui.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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