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ConSIDERação e desejo

Houve um tempo em que olhar para o céu e para as estrelas (SIDER) era um modo de tentar compreender o que se dava na existência humana e no mundo. Daí surge a palavra conSIDERar. Bem que a vastidão do espaço SIDERal e sua insondável grandeza e complexidade funciona como um espelho para as complexidades da existência, dos acontecimentos, da vida e do que fazemos com ela, mas… nossas realidades parecem vencer em complexidades os padrões dos astros em suas formas, órbitas e constelações.

Por mais belo que seja esse espelho, por mais que se repitam os astros em seus misteriosos trânsitos, ainda assim, e apesar da poesia dessa tentativa de entender os fatos e acontecimentos, vamos aos poucos percebendo que os padrões celestes não são suficientes para as complexidades da vida. É o apelo para olhar o chão, e para o que se dá nele, que grita estrondosamente às nossas sensibilidades. (O que vivemos no Brasil hoje não estava escrito nas estrelas. O que se vive no Brasil hoje vem sendo tramado vagarosa e ardilosamente neste mundo, em torno de mesas fartas e em escritórios amplos e envidraçados, seja neste hemisfério, ou no norte).

Daí, além de considerar o céu e o que ele espelha de nós, de nossos sonhos e ideais é preciso, com uma certa dor – aquela do abandono das ilusões – desSIDERar e sondar os próprios mundos. O que estais aí fazendo, parados, olhando para o céu?, ouvem os discípulos quando a urgência era ir, e viver, segundo as recomendações recebidas do Mestre. O olhar agora precisa pousar demoradamente sobre o chão. É preciso contemplar os campos e fazer o planejamento da lavoura. É preciso olhar o precipício e dar-se às engenharias de como transpô-lo. É preciso sondar no fundo da terra os veios d’água e trazê-los às nossas necessidades. Do olhar para o céu, é claro, uma lição importante ganhamos, se quisermos construir um mundo melhor. Ter conSIDERação pela vida e por tudo aquilo que conosco se levanta desse chão. Ou seja, do olhar diligente que é necessário para se perceber estrelas no céu aprendemos que o zelo atencioso para com a vida deve ser ainda maior.

Mas, então, pela necessidade de buscar também na própria vida os entendimentos para torná-la mais potente e vibrante deixamos de olhar com este intuito o espaço sideral. Surge então na nossa língua a palavra desejo (des-SIDER), despedir-se das estrelas, deixar as estrelas. O surgimento do desejo marca essa mudança radical, quando passamos a perceber que não basta saber por antecipação a sina pela qual se está marcado, mas que é urgente, na medida do possível, se tornar um fazedor de destinos. E bem sabemos que o destino será sempre melhor, ou será outro, se sondarmos as realidades, aquelas que sempre impiedosamente atravessam a vida. Mais, portanto, do que impor ideias e padrões que vêm de cima à vida é preciso sondar o desejo que brota de baixo. A vida é respiro, anseio, movimento, desejo, irrupção. E sondar o desejo exige dedicação e trabalho. Sondar o desejo exige a inclinação, o dar-se em demoras aos eventos, às dores, aos desvarios até. Ao invés de mover-se por intuitos de definir culpas a escuta dos desejos propõe saídas singulares, soluções inusitadas até.

Sondar os desejos implica em uma admissão de humildade. Uma humildade potente, todavia. Nada sabemos do destino, não poderemos conhecê-lo com exatidão e por antecipação; não poderemos ter o controle da vida e dos acontecimentos por mais que se vislumbre o que pode acontecer. O desejo é a despedida desse conhecimento por mágica, por imposição, por “iluminação”. Sondá-los possibilita a construção, mesmo que frágil e limitada, de um conhecimento engendrado na experiência e no compromisso com a vida.

Dauri Batisti 

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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