buscar
por

“Colocar-se aos pés do Senhor” (Lc 10,39)

No Evangelho de Lucas, no capitulo dez, encontra-se o relato da cena, na qual Jesus que é acolhido na casa de Lázaro, Maria e Marta. Este trecho do Evangelho tem um propósito bastante claro, que deve ser bem compreendido, partindo das palavras nele encontradas.

Quando o autor descreve a cena, faz questão de dizer que Maria se encontrava aos pés de Jesus, escutando a sua Palavra. Uma descrição muito romântica e até bonita, porém, muito mais simbólica do que real, ou seja, revela uma escolha e uma atitude de vida. De fato, tal expressão é utilizada em outra passagem bíblica que trata do apóstolo Paulo e a sua estadia em Jerusalém, antes de seu encontro com o Senhor, na estrada de Damasco. O Livro dos Atos dos Apóstolos (At 22,2) indica que Paulo foi à Cidade Santa para se colocara aos pés de Gamaliel, dando continuidade ao seu processo de formação e estudo. Desse modo, a expressão: “colocar-se aos pés”, queria indicar que o apóstolo teria escolhido a escola de formação de Gamaliel, como estrada a ser percorrida por ele, em sua formação e aprofundamento da Fé judaica, de maneira especial, seguindo o caminho do farisaísmo. Sendo assim, ela não deve ser interpretada literalmente, mas, deve ser colhido o seu sentido mais profundo, no qual encontramos a expressão de uma escolha, isto é, do reconhecimento de um caminho que deveria ser percorrido por ele.

No caso de Maria, não é diferente, pois a vemos aos pés do Mestre, na escuta de Sua Palavra, isto é, o autor quer indicar que ela fez a escolha pelo Discipulado Missionário. Um caminho de união com o Senhor, no qual seria formada como uma verdadeira discípula, dentro da Comunidade dos Discípulos Missionários.

De fato, a Primeira Comunidade, segundo os Atos dos Apóstolos, era o lugar da partilha e da escuta da Palavra, da Fração do Pão, das Orações e da Comunhão Fraterna, que é o Serviço concreto aos irmãos. Sendo assim, a escolha de Maria deve ser a escolha de todos os que desejam aprofundar a experiência de Fé, não somente uma experiência intimista e solitária com o Senhor, mas, ao contrário, uma verdadeira experiência de união a Cristo que a todos confia a Sua Palavra e envia para a Missão.

A imagem de Maria, proposta pelo Evangelho, deve levar à reflexão sobre o tempo que deve ser aplicado na formação daqueles que exercerão o serviço e a missão na Comunidade e no Mundo. Pois, somente por meio de uma íntima união com o Senhor, reconhecendo o que o movia em suas escolhas e atitudes, como afirma Paulo aos Filipenses (Fl 2,5), é que o cristão será capaz de se tornar um sinal do Reino de Deus. Sendo assim, é papel da Comunidade Eclesial de Base criar espaços que possibilitem tal encontro com o Senhor, seja pela reflexão e o estudo da Palavra, quanto também pelas oportunidades de se exercer o serviço missionário e da Caridade. Pois, é no encontro com a Palavra de Deus e no Serviço aos irmãos e irmãs, principalmente, os que mais precisam, que o Senhor se revela e chama a todos ao seu seguimento.

Os discípulos missionários sempre serão formados pela Palavra, alimentados pela mesma e, também, por meio dela, enviados para a Missão e para o Serviço Fraterno. Desse modo, é indispensável que as Comunidades Eclesiais de Base sejam espaços fecundos de encontro com o Senhor que a todos revela as Escrituras, como fez com os discípulos de Emaús. A fim de que todos sejam capazes de viverem plenamente a sua vocação, como sinais claros do Reino de Deus, construtores da Paz, Justiça e Fraternidade.

Pe Andherson Franklin Lustoza de Souza
Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e Doutor em Sagrada Escritura 

editor1

Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

Mais posts do autor

COMENTÁRIOS