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CAMINHOS DE ESPERANÇA

Acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e os refugiados; essa é a provocação que o Papa Francisco faz ao mundo, em especial aos cristãos católicos.

Debaixo de uma árvore, lá estavam os quatro. Era por voltas das 15 horas. Sob o sol forte, eles já haviam caminhado aproximadamente 30 quilômetros. Saíram de Pacaraima (RR) na tarde do dia anterior. Passaram a noite às margens da BR 174 que liga à cidade de Boa Vista (RR). A família Martines Gomes tinha percorrido cerca de 690 quilômetros, desde San Félix, na Venezuela, até chegar ao Brasil. “Tenemos mucha hambre y sed”, disse Adriana Gomez, 18 anos, ao nos contar que estavam sem forças para prosseguir a caminhada, pois estavam com muita fome e sede. Não tinham comido nada naquele dia. Alguém no caminho doou alguns biscoitos, mas estavam reservando para o pequeno José Armando, 3 anos, que no colo da mãe Eglis, 36, tentava sugar o leite do peito, mas aparentava sem força e Eglis disse que não tinha mais leite. Não havia se alimentado, nem bebido água naquele dia. Edson, 15 anos, sentado na raiz da árvore, não pronunciou uma palavra. Olhar triste, distante. Pela frente, tinham ainda, aproximadamente, 211 quilômetros até a capital.

Assim é a saga de boa parte dos migrantes venezuelanos que cruzam a fronteira de seu país para o Brasil, fugindo da miséria deixada pela crise social, política e econômica de sua terra. Os desafios enfrentados nesta situação humanitária incluem a falta de abrigamento, acesso a serviços, desconhecimento das leis brasileiras. Os venezuelanos chegam com pouca informação sobre o Brasil. Os desafios de sobrevivência são imensos, a maioria não tem dinheiro para moradia e acabam em situação de rua, famílias inteiras. Há outros agravantes como a integração e o enfrentamento à xenofobia em um contexto de tensões e polarização política, a qualificação desperdiçada em empregos informais com baixa remuneração, a barreira da revalidação de diploma, a falta de acesso ao aprendizado da língua, a exploração laboral em fazendas, minas de carvão, indústria madeireira. Contudo, essa realidade da migração ocorre em todo o mundo, não só entre Brasil e Venezuela.

De acordo com o Papa Francisco, em sua Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2018, o encontro com o outro não pára no acolher, mas envolve mais três ações: proteger, promover e integrar. “No verdadeiro encontro com os outros, seremos capazes de reconhecer Jesus Cristo que pede para ser recebido, protegido, promovido e integrado? O encontro com Cristo é a fonte da salvação, uma salvação que deve ser anunciada e trazida a todos”, afirmou o Santo Padre. “Repetidas vezes expresso especial preocupação pela triste situação de tantos migrantes e refugiados que fogem das guerras, das perseguições, dos desastres naturais e da pobreza. Trata-se, sem dúvida, dum ‘sinal dos tempos’’’, afirma Francisco.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UN DESA – 2017), ao redor do mundo, 173 milhões de refugiados são deslocados por guerras e conflitos, mais que na II Guerra Mundial. E, para cada grupo de 113 pessoas no planeta, um é solicitante de refúgio e quatro são migrantes internacionais ou deslocados internos. 12% da população mundial é constituída de migrantes internos, deslocados, desplazados. No mundo, 13% do total de migrantes são latino-americanos. Na América Latina há 57,5 milhões de migrantes internacionais, já os refugiados são 804 mil. Os deslocamentos internos no continente americano chegam a 5,4 milhões. Entre outros tantos números, 6,1% da população da América Latina é constituída por migrantes internacionais.

Segundo informações do ACNUR, com a mudança de governo no Brasil, o trabalho conjunto terá de ser fortalecido ainda mais, pois poderá enfrentar vários desafios, entre esses, na fronteira, com a identificação e registro.

De acordo com a Doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia, Márcia Maria de Oliveira, há alguns paradoxos na questão migratória, pois permanece a garantia do direito de migrar, contudo as sociedades negam o direito de não migrar. Ela afirma que a mesma sociedade que produz os meios de expulsão está produzindo o rechaço e a xenofobia. Márcia lembra o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no livro “Tempos líquidos” que afirma, enquanto de um lado crescem as economias mundiais, avançam as tecnologias que encurtam o tempo e as distâncias, de outro lado “cada vez mais, os refugiados se veem sob fogo cruzado, mais exatamente, numa encruzilhada, expulsos à força ou afugentados de seus países nativos, mas sua entrada é recusada em todos os outros”. Segundo o sociólogo, as migrações e os refugiados representam um sintoma das desigualdades sociais, das injustiças econômicas, dos processos de exclusão, das guerras, das crises políticas e da escandalosa concentração da economia mundial nas mãos de uns poucos grupos econômicos.

Irmã Osnilda Lima, fsp
Assessora Nacional de Comunicação do Secretariado Nacional da Cáritas Brasileira

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Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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